quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Todas as Cartas de Amor são Ridículas




Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)



(Álvaro de Campos).

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sobre o tempo e a jabuticaba







Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalômanos.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa... 

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado de Deus (eu diria "ao lado dos seus").
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. (Rubem Alves)

domingo, 1 de novembro de 2009

*Domigo Calmo*

"Lês, Como se eu sussurrasse em teus ouvidos a poesia de minha alma. O teu momento comigo é agora. Podes sentir-me o hálito poético, advinhar-me, saber-me. Porém eu digo, muito mais poesia está oculta, absorvida no silêncio que adormece entre o momento em que escrevo e o instante em que me lês". (Perotto).






Nasceu o dia cheio de calor
E o relógio, no mesmo labor,
Marcando o tempo, como trabalhou.

Nem tudo é triste,
Nem tudo é alegria,
Brincam meus filhos,
Vestem fantasias,
São, no seu mundo:
Marinheiro Popeye, Batman, Hulk,
Que maravilha, e são felizes,
Enquanto passa o dia
E eu trabalho, canto,
Vou tingindo assim
O negro do meu dia.

Domingo calmo,
Como outro dia,
Sem novidade alguma pra contar.
Neste dia recorro ao lápis
Para tentar fazer uma poesia.
Não sou poeta, mas ouso fantasiar,
Porque da poesia preciso para sonhar,
Falar da dor, do amor,
Da vida, do sorriso,
Enfim, do que é belo e raro hoje em dia.

Quase seis horas são,
Vem chegando a noite,
E eu me despeço deste, mais um dia.
Que tudo seja calmo nesta noite.  (23.08.1981).


(Ednar Andrade)*****

sábado, 31 de outubro de 2009

O Amor





Parte I
E porque havia o Amor,
Nada era em demasia.
Cada qual com seu valor,
Nada, nada se excedia

A mão estendida ao homem;
O abraço dado no amigo;
O pão para quem tem fome;
O que é joio, o que é trigo.

A seiva vinda da alma;
O óbulo do fariseu;
A doce música que acalma;
O que é meu, o que é teu.

O sonho sonhado só;
A vida vivida junto;
A estreiteza da mó;
A força de um conjunto.

O nascimento da flor;
A correnteza do rio;
O surgimento da dor;
As ondas no mar bravio.

A estrela a brilhar no céu;
O vento em torvelinho;
O artista com seu pincel;
A sutileza do carinho.

A mão que cuida da chaga;
A rosa com seu espinho;
O doce olhar que afaga;
A galinha com seu pintinho.

O inefável som de um canto
A tarde beijando o dia
O triste ouvir de um pranto
O tempo de uma agonia.

A chuva roçando a terra;
A ave em migração;
A estupidez da guerra;
A frieza do canhão.

O dócil tocar do sino;
A luz na escuridão;
O orvalho matutino;
O estrondo do trovão.

Parte II


A semente que cai na terra;
A ternura do luar;
A imponência da serra;
A flor ao vento a bailar.

Tudo tinha tempo certo,
Tudo tinha sua medida,
Quando o amor descoberto
Regia tudo na vida.


*Meu poeta* (Zé da Silva). 

Sol


És o Sol,
Amo você e isso é lindo,
Passarei o dia pensando em nós.
Te carrego no peito...
Estás sempre comigo,
Mas não demores:
O tempo é irmão do vento!
E já nos distancia muito;
Não devemos adiar.
Amo-te, quero-te
- Como te espero a cada amanhecer! -
Meu coração, hoje, tem o movimento das ondas;
O Sol é lindo, não descanso enquanto aguarda vê-lo
E encontrá-lo nas manhãs...
Meu coração está pleno de ti,
Estou plena de ti.
A manhã está fosca;
Há um brilho no céu,
Uma pequena luz, vinda do Sol,
Quero ser o Sol da sua vida,
Quero poder caminhar nestas manhãs contigo
E sob esta luz, sentir a espuma das águas
Ter bordado o nosso amanhecer.
Nosso dia mais feliz será aquela manhã
Que virá tão quente e radiante
Que queima como o fogo
Ardente de uma paixão!

(Ednar Andrade)*****

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Criança



Ser criança é viver vidas,
Com muita cor, muito sabor
De manhã ser o herói
De tarde o professor
E quando ela passar na rua
Ir descobrindo o amor
É ser médico, ser artista
Cantando aquela canção
É acreditar que o mundo
Foi feito pra diversão
É correr de pés descalços
Na chuva que vai caindo
Encharcar o corpo e a alma
Voltar pra casa sorrindo
Entrar pela casa a dentro
Sonhando que é gota d´água
Correr para os braços da mãe
Ainda escorrendo água
Ser criança é ser humano
É riso, festa, carinho
É sonho acontecendo
Aos poucos, devagarinho
É construir castelos na areia
E ser rei e ser rainha
Travar batalhas ferozes
Vestidos com carapinha
Bom, o dia tá indo embora
A noite já se avizinha
È hora de ir pra casa
Boa noite, minha amiguinha!

*Meu poeta* (Zé da Silva)






Mar

Então vem, pois já a vida é quase noite
Já a minha saudade não cabe em mim,
Já não penso; DELIRO.
Não sonho; morro.
E o vento murmura um canto triste ao meu ouvido.
Ai que saudade do mar ...
Do cheiro das algas,
Nas Manhãs do meu lugar ...
Ai que esta saudade fica maior ainda,
Quando penso em te encontrar.
Ai o mar que, de amor, não finda,
Sempre te encontrarei lá
Nos barcos, nas velas, nas ondas,
Onde quer que eu vá
Março



(EDNAR Andrade )*****

*Meu Menino*


*Meu menino*





Você era o meu menino mais menino, aquele que me fazia graças, me cantava uma canção, me olhava fundo nos olhos; lia o meu coração... E calava... Fazia pausas tão longas... Que eu me esquecia da dor, só para pensar no seu amor. Um amor... Tão puro... Vindo dos seus gestos nas horas de lucidez; você me chamava (maninha), sorria pra mim tão feliz e eu te compreendia, calava também, numa cumplicidade que só a nossa loucura ou a nossa alegria conhecia.
Mas você partiu. Assim, de repente, numa noite tão fria me deixou sem sorriso e sem alegria e uma cadeira vazia. De você ficaram: as lembranças, minha dor... E para sempre, uma nostalgia; uma presença que sinto nas coisas mais sutis, uma canção que, ao longe, ouço no rádio, nas manhãs de domingo, nos fins de tarde, naquele papo no terraço, onde ali estavam presentes apenas o vento e os nossos sonhos e recordávamos com tanta ternura nossa infância, nossa família, as brincadeiras de menino, as aventuras - doces aventuras! - como subir nas árvores, para colher os cajás, que os galhos da árvore vizinha nos ofereciam, doces frutos, quantas travessuras... Mas, também tantas lembranças de momentos duros em que nós, hoje, transformávamos em papos alegres - e como ríamos! - e o confortável desta conversa era tê-lo ao meu lado, agora homem com ares de menino, uma meiguice não tão transparente para alguns.
Para fazer tua leitura sempre foi necessário Filosofia, Arte, sentimentos e sentimentalismo. Um coração de menino, voz de homem. Eterno sonho, eterno sonhador, envolto nos encantos da sua fantasia. Foste feliz no teu mundo de sonhos. Fizemos tantas viagens, embalados pela brisa das frias tardes e na solidão do inverno dos que amam o que não é amado; dos que compreendem o que não é falado; dos que sentem o que não é sentido; dos que desejam e não são desejados; dos que doam, mas não lhes dados olores em forma de amores. Sinto saudade; não sinto tristeza, pois a saudade é o sentimento que mais aproxima os que se amam; a saudade é a ponte que mantém unidos os corações; a saudade é a canção inevitável dos que dizem adeus ou apenas dos que amam sem ter perto o objeto amado. Vivemos assim: lado a lado... Silêncios falados, amor sem par. Companheiros de tantos invernos. Fomos cobertores um para o outro, naqueles momentos em que a alma tremia no frio do medo, diante do que estarrece... e uma gratidão que só nossos corações conhecem; fomos felizes. Vivemos um amor que não morreu. Você partiu e me deixou um legado: a certeza de que amamos, mas nem sempre somos amados. De nós, sei com certeza que o amor foi o nosso maior elo. Você foi o meu poeta; o filósofo, por mim, mais lido; o meu cantor; o meu artista preferido; o meu irmão mais velho; o meu menino mais menino; o meu palhaço preferido; a ovelha que não era negra; o profeta; um mix de tudo no amor traduzido.
Você me deixou, mas ainda ouço tua voz, ainda canto contigo. Você me chega às vezes numa manhã... Na canção que cantam as folhas do cajueiro; no Sol que bate na janela do teu quarto; numa cadeira que alguém, por descuido, esqueceu num canto, onde quando, com saudade, deito e durmo, como para te ouvir, como para te sentir mais perto; numa espreguiçadeira que era a tua cama preferida. Ali sentavas, distraído, sem se preocupar com o tempo... Eu, ao teu lado, te olhava, querendo adivinhar que mistério tinha teu olhar naquele instante e neste momento pairava sobre ti uma magia; uma doce inspiração; um segredo tão teu que ninguém pode saber; que pensamentos te rondavam e te faziam tão sério e naquele olhar profundo guardavas a vida em silêncio dos que gritam e não são ouvidos. Por tudo isso, nos amamos, conhecíamos o meu e eu o teu silêncio e na prece, que continha este silêncio, cada um era seu... (Ednar Andrade)*****


(Primeira Parte do Texto).