segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A Arte de ser Avó

Homenagem merecida a duas avós maravilhosas e, sem pretensão de fugir à realidade, me incluo; é doce    ser avó!  E alguém me disse que: "Netos, a sobremesa da vida".


Quarenta anos, quarenta e cinco. Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem suas alegrias, as sua compensações – todos dizem isso, embora você pessoalmente, ainda não as tenha descoberto – mas acredita.


Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade.


Não de amores nem de paixão; a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas, que hoje são seus filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações, você não encontra de modo algum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres – não são mais aqueles que você recorda.


E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que se lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito sobre ele, ou pelo menos o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou decepção, se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.


Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.


Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto fosse avô, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto…


No entanto! Nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do neto. Não importa que ela hipocritamente, ensine a criança a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha” e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante nos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe banho, veste-o, embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.


Já a avó não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulito. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso dos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café, mexer na louça, fazer trem com as cadeiras na sala, destruir revistas, derramar água no gato, acender e apagar a luz elétrica mil vezes se quiser – e até fingir que está discando o telefone. Riscar a parede com lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado!


Fazer má-criação aos gritos e em vez de apanhar ir para os braços do avô, e lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna…


Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós com seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto!


E quando você vai embalar o neto e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz “Vó”, seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.


E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade.


Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menino – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beicinho pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague.


(Raquel de Queiroz). 

sábado, 14 de novembro de 2009

Memória da Infância (Fotos)


A moça mais bonita a esquerda - minha mãe (Entre a raiz e a flor há o tempo .....)
À direita, certamente, dela, alguma amiga.

Memórias da Infância (Fotos)


Meu pai("... Eu sou o sorriso na face de um homem calado ..." )
E a direita meu irmão: Evandro.

Memórias da infância (Fotos)


Da esquerda para a direita: tia Nalva, aquela menina do sítio (Ednar), 
Luísa e tia Nirce.
Local: Pça. Cívica.

Memórias da infância (Fotos)


Da esquerda para a direita: tia Neide, Badeco, tia Nirce, Ceiça, tia Nalva 
e esta menininha (1 ano e 9 meses) ainda não brincava de cozinhado no sítio já citado.

Memórias da infância (Fotos)


Abaixo da esquerda para direita: Ednar, tia Nalva, tia Anália - já citada no texto -, tia Nirce.
Acima da direita para a esquerda: tio Jair - já citado no texto -, Terezinha Peixoto, 
Consuelo, tia Neide, D. Chiquinha (dona do sítio onde trabalhava Sebastiana).

Memórias da infância (Fotos)


Ednar aos 4 anos. Á esquerda tia Nirce.


Memórias da Infância (Fotos)


Ednar aos 8 anos. Á direita tia Nalva. Local: Pça. Padre João Maria.
Clique na foto para visualizar melhor.

Memórias da infância






Lembro-me de um tempo onde ser criança não era diferente de fazer parte de um conto de fadas; um tempo onde as ruas ainda não tinham os postes iluminados com lâmpadas fluorescentes ou de mercúrio. Ouviam-se apenas os grilos à noite, o coaxar dos sapos ou a ópera das pererecas na noite.

As ruas eram sem asfalto... Lembro-me de um barro vermelho, onde, vez por outra, os jipes - que eram os carros mais comuns da minha época – atolavam. Eles eram quase tratores e mesmo assim perdiam-se, atolavam naquele barro. Isso fazia o evento do dia. A meninada anunciava um ao outro o acontecimento e todos saíam para assistir, o que, para nós, era uma festa; para os adultos um sofrimento. A meninada torcia para que o carro atolasse, faziam elos com os dedos para que os carros afundassem cada vez mais... Isso não caracterizava maldade; era a única distração.

Outra lembrança linda de tantos contos de fada, porém com a conotação verdadeira, pois descrevo aqui apenas fatos reais, é ir cedinho ao curral de “seu João” pegar um leite quentinho. João Lopes era um senhor calado, simples, quase bizarro, chapéu escondendo os olhos, camisa da cor da calça, falava pouco, um tanto assustador, para a minha imaginação de criança. Mas ali eu me perdia, esquecia o leite, colocava a garrafa na calçada, ia correr atrás das vacas, observar os bezerros que mamavam; um cheiro de estrume no ar, aquilo era como perfume. O cheiro do feno; as cocheiras; o mugido dos touros; o eucalipto que formava um tapete... Eu sentava ao lado do Wilson, o moço que tirava o leite; sentava impaciente com uma certa dó da vaquinha, via o Wilson espremer as tetas da vaquinha e  a coitada mugia: mummm. Hoje não sei se era dor ou se era um mantra. Sei que de lá não saía leite sem emoção. Enquanto em casa a minha tia, talvez já impaciente, esperava sentada o leite, porque ali eu me perdia.

Aquilo tudo era meu mundo... Andar descalça, pisar no cocô quentinho das vacas, eu fazia por prazer... Lembro-me do mel de furo, uma substância tirada do melaço da cana, que as vacas comiam com prazer; os vaqueiros chamavam de torta. Eu daria tudo para lamber. Daquilo saía um cheiro... Era uma tentação, uma danação, um assédio, lamber, saber que sensação de prazer a vaca via naquilo. João Lopes dizia: “Vai pra casa menina. Entrega o leite a Anália e volta pra brincar”. Eu ia, então, chateada; voltar é que não podia, pois já encontrava pisando nos cascos, ralhando e dizia: “Amanhã tu não vais pegar o leite; vou eu no teu lugar”. Nossa isso era uma sentença!

Amanhecer, não pode ir ao curral, não poder brincar com as sementinhas caídas dos eucaliptos, não pegar as folhas ainda quase verdes, amassá-las só para sentir o cheiro, seria pior do que prisão... Então eu jurava: “Tia, prometo, amanhã vou, demoro não”. Ela me olhava assim, com um olhar de quem sorria e dizia: “Ednar, eu te conheço. Amanhã, você vai não!”. Eu dizia: “Deixa tia, por favor, deixa tia”. Negócio feito; eu sempre vencia.

Lá mesmo, na casa de “seu João”, D. Zefinha, sua esposa, foi minha professora. Minha tia alegava que era preciso aprender o bê-á-bá, momento de grande alegria, ia estudar na casa de D. Zefinha, ficar perto das vacas, correr atrás das borboletas. Eu as segurava, colocava num vidrinho e só na hora de voltar para casa, as soltava. Tudo muito lindo! Uma infância colorida, rica de emoção. 

E lá estava eu no meio dos bichos, magrinha, correndo, feliz, saltitante, cabelos compridos, tranças... Lembro que uma certa vez, como Narciso, me vi no espelho pela primeira vez, e foi aí que notei que não precisava mexer nos batons de minhas tias; minha boca era muito vermelha!

Bem, ia eu todos os dias, com um caderno e um lápis e uma borracha na ponta do lápis grafite, aprender a escrever (b+a= ba; b+e= be...) rsrsrs... Havia um momento mágico, um tal de ir à casinha, que era ir ao banheiro e lá eu ia e vinha, só para fugir do bê-á-bá.

Acordar era sempre uma felicidade... Enfim, eu ia estudar.

Nos fins de tarde, menina bem cuidada, cabelos limpos, perfumados, saía com meu tio Jair, para comprar pão quentinho na venda de “seu Adelson”... hummmm... que coisa maravilhosa: bolinho, pirulito, alfenim, biscoito champagne, pão doce, suco de maracujá, lá tudo isso tinha. E eu, sandália de dedos, shortinho colorido, laços de fitas no cabelo, saía de casa ouvindo uma recomendação: “Tem cuidado Jair, para essa menina não rolar no chão”, tia Anália dizia. Ele, grande cúmplice das minhas travessuras, era o primeiro a me incentivar e com todas as letras que agora escrevo, ele dizia: “Rola Ednar! Eita cabritinha!” O conselho de tia Anália soava ao contrário, com certeza eu voltaria produzida ao meu modo: pés descalços, roupa suja e pé no chão. Livre... rebelde, não.   

Voltava sempre de mãos cheias, colhia na ida e na volta flores silvestres, que encontrava pelo caminho: flores azuis, amarelinhas, brancas, lilases e, ainda, sorvia a aguinha acumulada nas conchinhas das flores. Este sabor, não esqueço. No tempo eu não sabia, mas hoje sei: era um misto de poeira e água morna; um chazinho da natureza, um chazinho de flores... Uma satisfação, uma sensação, sem preço, de liberdade.

Acabavam, assim, quase sempre, as minhas lindas tardes.

Continuarei na próxima postagem.

Sol de cada dia





Ele se foi,
Assim como faz quase todos os dias,
Deixando uma imensa saudade
E um anseio em cada um.
O de que logo volte,
Colorindo de bronze nossas manhãs...
Nossos dias: o sol...
Com sua luz e calor,
Que agora se despede
Sem ao menos saber se alguém quer mais...
O sol que nos aquece,
Nos ilumina e nos faz feliz.
O mesmo sol,
Que um dia vi deixando minhas tardes tão vazias
E minhas noites tão frias.
Assim, sem que eu notasse,
Hoje olhei para trás
E notei como minha sala estava já escura
E desta vez apenas senti uma saudade que não identifico;
Um devaneio que não sigo;
Um silêncio que não cala.
Já não sofro,
Percebo que, com o tempo,
Assim como o entardecer,
Tudo anoitece em nossas almas.
Na minha, na tua...
E a vida é feita de novo dia, sempre, sempre.
Se não for um grande inverno,
Acordaremos com o "*sol de cada dia *" 


(Ednar Andrade).