terça-feira, 23 de março de 2010

Johann e Maria (Parte V).


Foto pesquisada na web.

Os dias passavam-se, agora não mais com a lentidão da despreocupação que sempre seguira Johann. A paciência lhe era uma capacidade peculiar, pois sabia que, sendo já um homem casado, embora numa relação conflituosa com Margarete que, ciumenta, parecia vigiá-lo, mesmo sendo educada e fina. Havia naquela mulher um sintoma de posse que o sufocava. Mas, por questões sociais, permanecia no convívio familiar. Margarete, uma mulher bela, com olhos muito claros, robusta, era já sua companheira há quinze anos. Relação que começara nas caminhadas das tardes de outono. Johann conhecera Margarete no período da faculdade. Existia entre eles, além da relação de amigos, uma cumplicidade, não chegava a ser um amor, nunca fora na verdade.

Companheiros de dias e noites, estudando juntos, de pesquisas, saídas com amigos, fez de Margerete e Johann apenas um par que, como amigos, se completavam nas noites de solidão. Ás vezes viajavam juntos. Viagens longas que duravam semanas...  Passeios estes que talvez, por uma conveniência, os levou a casar.

Os dias eram agradáveis... Faziam planos, cresciam juntos. Margarete, mulher inteligente, era uma companheira, digamos, cúmplice desta relação que não envolvia amor e sim uma amizade profunda que, salpicada de momentos íntimos, conseguia perdurar. Desta relação nascera Felipe, filho mais velho do casal, e Tâmara, uma garota bonita que muito parecia-se com o pai. 

Neste contexto, ficava Johann agora a pensar: era como se uma culpa lhe ocupasse todos os minutos a partir daquele instante em que passou a observar Maria. Maria, nome que ardia em seu pensamento, acompanhava-lhe como uma visão que somente o seu olho interno via. Um sobressalto, uma ansiedade.... Olhava para Margarete, sentindo-se infiel, coisa que nunca fora antes, pois sentia-se confortável com aquela situação morna de amigos e amantes. E agora Maria...? Será que seria amor esta inquietude de sua alma? esta paz que lhe faltava, a todo instante? O amor? como seria amar? como seria amar aquela mulher, ora distante? Como seria amar uma mulher nunca tocada por ele antes? Que perfume teria aqueles cabelos esvoaçantes que nas manhãs pintava-se de Sol?

Ainda carregava consigo o perfume que o vento varria até suas narinas, quando o "açoite" trazia até o seu rosto, os cabelos de Maria. Lembra que de sua pele brotava um aroma de jasmim, um floral que não reconhecia... Não sabe ao certo, uma mistura de natureza com os olores matinais do campo

Agora sentia o coração completamente habitado por aquela mulher franzina e delicada. Maria tocava piano, tinha dedos delicados, unhas aparadas pintadas num tom rosa: disto ele lembrava muito bem. Lembrava do balé dos seus dedos, quando lhe pedira para tocar uma música: La vie en rose, que ela tocava com desenvoltura. Agora, porém, suas noites estavam diferentes das de antes do encontro com Maria.

Margarete ficara agora em os seus segundos pensamentos. Não é que não fosse grato e companheiro e cúmplice daquela companheira da mocidade. Mas, sentia que entre eles hoje havia um distanciamento, um desinteresse natural de quem está apaixonado. Agora era preciso falar a verdade a Maria: dizer-lhe do seu sentimento, mas dizer-lhe também de sua companheira. Jamais pensara em transformar um simples apresentação em caso de amor. Era acostumado a ser apresentado a moças tão bonitas e interessantes nos congressos de Medicina. Com que magia o envolveu Maria? Que poder silencioso havia naquela mulher simples que lhe dera apenas um abraço tímido? Achava cedo para tomar decisões, via-se num xeque-mate, no inevitável jogo da vida: o amor. 

Maria, em seu mundo, em sua rotina,  como professora de piano, passou a compor canções que dedicava ao amado. Andava triste, pois já estava sem notícias do amado há alguns meses. Às vezes sonhava com o reencontro, onde pudesse dizer-lhe do amor que sentia. Já era quase noite. Maria fazia uma caminhada nos finais de tarde. Na verdade servia-lhe como terapia e também para inspirar-lhe as canções que compunha. Caminhava sem expectativas. Trabalhava numa rotina diária, onde não tinha tempo para sofrer. Mas, inevitavelmente sua cabeça sentia-se invadida por aquela imagem que carregava consigo: Johann. 

Maria chega em casa, vai até o jardim. Ali fica sentada, olhando o Sol se por. Recosta a cabeça no banco do jardim e fica assim por instantes, quase que cochila. Um pequeno ruído lhe desperta. Alguém toca-lhe os cabelos com gesto já conhecido. Com os olhos ainda fechados tenta adivinhar. Mas, um boa tarde soa-lhe familiar: é Eleonor, amiga inseparável que, assim como quem vem lhe socorrer desta saudade, faz-lhe uma visita.  

 (Ednar Andrade). 


sexta-feira, 19 de março de 2010

Johann e Maria (Parte IV).

                                                        Foto pesquisada na web.

Deixemos Johann no seu divagar, pois Maria, de saudade, andava atônita. Vivia agora toda uma expectativa de receber, quem sabe, notícias de Johann. Eles viviam de forma separada, uma situação gêmea. Mal sabia Maria que o seu amado, o mesmo modo, pensava nela; noite e dia. Johann só não sabia que sentia no coração o mesmo sentimento que Maria. Naquela manhã, já bem distante daquele encontro, depois de um longo inverno de silêncio, chega até Maria um bilhete tímido, enviado por Johann, onde, de forma, discreta e sutil, Johann dava-lhe a tão esperada certeza: pensava nela também. 

Seu coração batia, dava uma festa. Definitivamente agora ela sabia: já não estava só. Aquele pequeno bilhete feito, talvez quem sabe, num momento de descontrole, enchia-lhe o coração de esperanças. Ela andava por todo jardim meio que extasiada, conferia a emoção olhando-se no espelho, como que ali buscando a imagem de Johann. Quantas noites esperou este momento? quantas noites sonhou com aquele homem?

É assim a vida... O amor chega de forma inesperada, invade corações, chega numa torrente devastando tudo, mexendo nas ideias, modificando o que parecia tão seguro, deixando tão turvo o que parecia tão claro, pois, mesmo quando se tem certeza ou quando parecemos ter, poderemos ser pegos de surpresa por este sentimento tão nobre: o amor.

Johann, que agora estava muito distante, começava a sentir uma saudade louca; uma vontade de voltar, olhar naqueles olhos profundos e dizer coisas que preferiu calar. Johann ansioso pela resposta, andava de um lado para outro, numa inquietude par. Abriu a janela, olhou para o céu, era noite; noite chuvosa, onde as estrelas, assim como Maria, estavam escondidas, envoltas por nuvens de chumbo que poderiam ser comparáveis à distância que o fazia sofrer. Pensou, relutou como que quisesse convencer-se de que nada mudara em seu viver. Johann, conservador, um leve traço de machismo, parece não querer admitir que nascera em seu ser um sentimento novo. Um sentimento que por mais que relutasse tinha nome: Maria.  

(Ednar Andrade).



quinta-feira, 18 de março de 2010

Johann e Maria (Parte III).

                                                        Imagem pesquisada na web.

Maria acorda. Sentiu na garganta um aperto; uma vontade de permanecer na cama. O vazio se instalara em seu coração. Abriu a janela, olhou em direção ao Sol... Tudo estava calmo, silenciosamente calmo. O Que fazer com tantas lembranças, de um momento tão pequeno, mas que para ela seria uma interminável emoção. Levantou-se do aconchego morno dos lençóis. Teria que acordar; acordar do sono e do sonho que tivera na manhã anterior. Tudo era igual: as árvores, os pássaros, o verde. O verde que ela tanto admirava, naquela mata densa, não brilhava tanto; era saudade! e tanta que ela apenas balbuciava: bom dia! O dia seguia sem novidades. Ela saiu tentanto fazer uma caminhada. Mas, seu coração continuava preso àquela miragem. Da sua mente não saía aquele semblante manso, aquele olhar que se movia, de forma sensual. Pensava naquela boca insinuante, nos gestos daquela mão e sabia que tudo não passara de um encontro.

Ela estava sob o efeito impactante daquele encontro. E sabia que teria que continuar sua rotina, pois de Johann talvez, nada mais saberia.

Johann, por sua vez, não que fosse frio, mas talvez por não saber da importância que teria para Maria, seguia seu rumo, vivia a sua realidade. Levado por sua rotina de tantas viagens, vivia entre navios e aviões. Havia no seu trabalho uma proposta de emoções, parece que naquele homem não havia tempo para pensar em separação. Johann, homem calado, conciso. Um aspecto luzente na tez que dava-lhe a expressão de ter a lucidez pintada no rosto.

Homem de negócio, viajante, empreendedor. Pouco sabia de Maria. Muito sabia da sua própria vida, da sua luta, da sua entrega ao trabalho. Mas, já não se sentia como antes. Voltara com algo de sutil no coração: um desconforto, uma ansiedade, algo inquietante. O que teria acontecido naquele encontro em seu inconsciente? Lembrava dela sim, lembrava de Maria. Que nome teria esta sensação, curiosidade? o que seria? O que inquietava aquele homem, quando lembrava de Maria?

Maria... Nome que dizia em silêncio para ninguém ouvir. Amor não era; paixão, com certeza não. Mas ela tinha algo inquietante, algo de diferente, quem sabe o perfume... ou aquele aspecto sorridente: um misto de anjo e demônio, isto lembrava Maria. Ao mesmo tempo que passava olhar de santa, tinha no olhar uma quase inocência, uma pureza de menina, uma meiguice de fada, tinha também um ar sedutor, uma mulher em flor; uma orquestra silenciosa de amor. Um falar que era quase canto, um encanto.

Johann perguntava-se: por que agora, pego-me assim, pensando em Maria? Maria... Nome que nos faz lembrar tantas marias: Maria do Céu, Maria das Flores, Maria de Fátima, Maria do Socorro, Maria, eram tantas marias, mas esta o incomodava tanto... Socorria-se dizendo: "Bobagem, tudo não passa de pensamentos; talvez a solidão desta viagem me faça pensar tanto". E vivia assim, seus dias, entre o trabalho e as viagens; disperso no seu trabalho e no seu pensar, distante de Maria que para ele nada mais era além de Maria.

Os dias transcorriam com tranqüilidade: trabalho, a vida, a sua realidade. Por vezes, sentiu-se atraído por aquele instante vivido naquela manhã tão verde. Mas agora, distante, que tudo era outro dia, não sabia mais nada de Maria.

Passaram-se noites e dias, por que não dizer, um calendário inteiro e vez por outra, ali no travesseiro ele via refletida a imagem de Maria (pensava nela, por que?).

Num dia, no meio da noite, acordara, havia sonhado com Maria. Sentou-se na cama, onde sempre deixava aparente papel e lápis para a facilidade do uso. Assim, como se não quisesse, por que não queria acreditar, seu coração não era o mesmo, ele escreveu: Boa noite Maria, aqui sou eu, aqui estou eu, cheio de saudades... Não sei porque, meu pensamento é meu. Poderia ter enviado pelo e-mail, mas preferiu ir ao Correio. Passou a perceber que tudo tinha cheiro de sentimento, será que estaria apaixonado por Maria? Seria uma amizade ou estaria apaixonado? Assim, enviou-lhe a carta que, com cuidado leu, antes de enviar. Não queria que ela pensasse que ele estava apaixonado. Apenas escrevia para uma amiga distante; precisava pensar assim. Mas algo na sua alma dizia que a inquietação já não o continha. Algo mudou em sua vida. Um vendaval passou a ser o seu viver; uma inquietude plena qualquer hora do dia. Dormia, acordava e dizia: "Maria".

(Ednar Andrade).

Foto pesquisada na web.













segunda-feira, 15 de março de 2010

Borboleta



Tu me dizes longe dos olhos, longe do coração
Tu me dizes que a gente esquece o melhor
Apesar das perspectivas
Eu sei que ela me ama também
Esta moça que eu apelidei:
Borboleta, minha borboleta
Em um mês eu voltarei
Borboleta, minha borboleta
Perto de ti eu ficarei
O oceano é pequeno, muito pequeno
Para dois corações onde o amor cresceu
Apesar disso que tu dizes
Eu vejo que ela me ama também
Esta moça que eu abracei
Borboleta, minha borboleta
Em um mês eu voltarei
Borboleta, minha borboleta
Perto de ti eu ficarei
Nosso amor é tão grande, sim tão grande
Que o céu aguentará todo dentro
Apesar disso que tu dizes
Eu sei que ele me ama também
Esta moça que eu beijei
Borboleta, minha borboleta
Em um mês eu voltarei
Borboleta, minha borboleta
Perto de ti eu ficarei


(Daniel Gerard).

Obs.: Música de Maria e Johann. Veja próxima postagem.

domingo, 14 de março de 2010

Johann e Maria (Parte II)


Foto do meu arquivo.


Maria, de uma beleza silvestre; sua presença, naquele lugar simples, era como parte da paisagem. Vivia em sintonia com a natureza. Suas manhãs eram sempre feitas de longas caminhadas pelo campo, parecia conversar com os pássaros. Entendia aquela sinfonia matinal como ninguém. Às vezes falava só em suas caminhadas, como que falasse ao vento. Poemas ternos, cheios de amor. Carregava no coração um apego sem par ao contexto natural daquele lugar. Às vezes nas noites de luar, ficava a mirar, na sua varanda, o céu de prata, como que para fazer-lhe sonhar com um amor que já previa, mesmo sem saber como seria Johann, pois em seu sonhar, ela ouvia a sua voz como se um pássaro fosse.

Um amor que surgiu do encanto, como sendo o seu abstrato namorado. Maria, que não o conhecia, apenas gostava de ouvir falar o seu nome: Johann... Daí, então nascera em seu coração, esta utopia que ela alimentava com grande emoção. Neste contexto de paixão platônica vivia Maria os seus dias... 

Eleonor, sua melhor amiga, sempre fora a grande companheira das tardes frias ou das manhãs de Sol. Por ela é que Maria passou a ouvir histórias sobre Johann. 

Johann, por sua vez, estava envolto em suas viagens, que roubavam-lhe todo o tempo. Até que, um dia, amigas que tudo falam, fizeram um acordo, que Maria aceitou sem duvidar da chance que, sem saber, traria-lhe o destino: apresentar-lhe Johann. 

Aquela manhã, já citada, em que olhares disseram coisas, nunca por Maria, faladas passava agora a ser a realidade tão esperada. Estavam ali, frente a frente, as palavras não saíam, era diferente de ouvir os pássaros cantarem. Maria falava com o coração, pois a voz, de tanta emoção, fugiu-lhe da garganta. Viveram em poucos instantes, momentos intermináveis. Depois daquele longo passeio matinal, despediram-se, com um simples olhar. 

"Porque, por tantas vezes, o que o coração diz o ouvido não escuta", pois o amor chega assim de forma súbita. Chega, simplesmente, sem avisar. Ele vem, não importa de onde. Chega, e tantas vezes, chega para ficar. Johann despediu-se de Maria num abraço tímido e num beijo tácito. Seguia Johann uma viagem longa sem hora para voltar. Enquanto Maria, nem ela mesma sabia por quanto tempo ela ficaria sem ver, outra vez, aquele doce olhar. 

Já era quase noite; Maria em seu sonhar... Mas agora e ainda, com aquele perfume nas mãos, único fragmento que restou daquele encontro tão fugaz... e tão sonhado, carregava consigo a certeza de que amava aquele estranho. Um amor de tão platônico que parecia um meteoro. Mas que deixara em seu peito aquela sensação de saudade ainda maior; sensação que lhe faria companhia durante muito tempo...

Maria abriu a janela, olhou por entre a folhagem o céu e nomeou uma estrela de Johann, quase pondo na estrela uma digital, para reconhecê-la, em suas noites de saudade, o seu amor distante. Ali ficou por pouco tempo, pois 0 cansaço cobrava-lhe o repouso merecido e adormecia e rezava, para que a noite entrasse pela janela um anjo que lhe trouxesse em sonho, mais uma vez a presença forte daquele abraço. Quem dera, pudesse no seu sonho, beijar com ternura aquele homem. Passaria por entre os cabelos, os dedos com tanta suavidade e pediria-lhe para que sussurrasse com aquela voz que mais parecia um poema. E Maria adormeceu, envolta por aquele enlevo de saudade e amor... E a sensação que o vento lhe causava na face parecia-lhe o toque suave das mãos de Johann...

Até que Maria acorde, vamos sonhar...  

     

sexta-feira, 12 de março de 2010

Johann e Maria (Parte I).

Imagem da internet.
  
Chegara então aquele dia, que tanto esperara. Acordou cedo, o Sol ainda não tinha tanto calor; lá de fora vinha um silêncio da mata densa. Abriu a porta, foi até o jardim; pegou com graça uma flor e ficou mirando. Havia uma orquestra habitual da passarada que cantava em notas já, ao seu ouvido, tão familiares. No meio desta canção matutina, um sabiá da mata. Maria, com sua silhueta fina, traços alongados, com músculos visíveis e toda uma graça no olhar. O seu sorriso era como uma moldura cintilante.

Maria sorria com graça, tinha algo de frescor naquela manhã. E ali ficou perdida em pensamentos e ansiedade; como seria aquele tão esperado encontro? – Deu voltas em torno de si, seu olhar parado; esticou-se na cadeira branca do jardim. Seu vestido colorido era um floral com florzinhas miúdas que mais pareciam um cenário inglês. Davam, àquela leve e elegante criatura, um ar de fada. Seu olhar parecia querer-lhe trair de tanta ansiedade. Respirou... Esticou-se mais, fechou os olhos como que, ainda, sonolenta, perdendo-se na entrega da paisagem matinal. Olhos fechados; o Sol banhava-lhe os cabelos, tornando-os mais vermelhos.

Por tantas vezes, Eleonor lhe havia falado deste ser tão iluminado. Mas agora chegara dia em que ele visitaria a sua amiga. Maria então preparava-se para um evento cheio de surpresa: conhecer Johann, seu príncipe encantado e platônico. Enfim, chegara o dia!

Entrou, deixou para trás os florais, o canto dos pássaros. Agora era hora de ficar linda para conhecer Johann. Abriu a torneira, observando a banheira que enchia com o frenesi da turbulência da água. A curiosidade era tamanha e aí imaginava como era o seu príncipe, que olhar teria o seu príncipe, como seria? Que cor teriam seus olhos? Em que momento da vida ele se fez tão importante? Ela não sabia. Tomou banho, foi até o penteador e usou o seu melhor perfume. Entre ela e Johann não havia sequer vírgulas, reticências ou qualquer gesto, pois entre eles nada existira antes, apenas uma fantasia de tanto que ouvira Eleonor falar-lhe. Agora pronta, perfumada, sem saber o que estaria por vir.

Maria embevecida de esperanças; vestiu-se de sonhos; fantasiou-se de ilusão. Este nome “Johann” latejava em sua mente como uma canção antiga. As horas passaram-se normalmente e aquela expectativa continuava latejante. Chega enfim Eleonor e Johann.

Maria, coração pulsante, olha – instante em que a emoção e a surpresa a dominam – e diante dos seus olhos, enfim, encontra-se Johann. Olham-se, entre o instante e a emoção habita o silêncio... Johann ali está: olhos escuros, cabelos lisos, olhar penetrante, braços fortes, pele morena. Johann, o sentimento mais platônico que experimentara Maria. Inquieta, buscava palavras, tremia, estava comovida; a emoção tomara conta do seu ser. Passou entre ela e aquele instante o desejo comovido de tocar-lhe: o que esconderia aquele olhar tão reticente? Seu semblante como se fosse luz fluorescente irradiava aquele instante. Um manancial de poesia, um berço largo de emoção.

Johann passava-lhe uma imagem sedutora; uma voz mansa; o seu falar era como um poema... Pausado e ao mesmo tempo sensual; um espetáculo que deixava Maria a flor da pele. Saíram para uma caminhada: Eleonor, Johann e Maria. O verde combinava com o momento matinal. Maria, aquela mulher, sentiu uma necessidade quase palpável; quase incontrolável de tocar-lhe a pele. Falavam de coisas amenas. Houve um instante em que os olhares se encontraram e disseram coisas que calaram. Um interminável instante como que perpetuaria aquele momento. Entre silêncios e pausas, reticências. Olhares intensos falaram coisas que até hoje pensam.

Continuo no próximo Capítulo.

(Ednar Andrade).

quinta-feira, 11 de março de 2010

Assim...


Foto do meu arquivo.

Assim nasceu uma menina;
Assim cresceu... solta, feliz
Nas tardes onde o Sol pintava
Uma tela que ninguém pintou.
Assim cresci, solta, pés na areia,
Sal no vestido, cabelos longos,
Tranças desfeitas, feliz, sonhadora.
Da vida, crente; feliz, saltitante;
Bichinho alegre, correndo feliz.
Assim cresci, menina livre,
Sorriso largo, nas tardes mornas;
Praia do Forte; assim voltava
Feliz para casa... vestes molhadas,
Cabelos soltos, de pés descalços.
Assim me achava dentro da vida,
Uma flor perdida no caminho da volta.
Assim cantava e acreditava no amor,
No verso... Assim amava o silêncio,
O mar, as gaivotas, os barcos, as pedras,
As dunas... Assim voltava.
Assim, como até agora, menina, senhora,
Amando o mar; amando a vida.
Vida, que vida? se tudo é agora
Assim cresci, formei-me, fiz da vida um poema;
da saudade o tema;
Do amor a bandeira, onde tudo mora.


(Ednar Andrade).

domingo, 7 de março de 2010

Foto do meu arquivo.

On line & Off line

O amor traz em si algumas coisas que levam a outros patamares da existência. Confunde, modifica, encaixa, ajusta, gera,embeleza.
Como se fosse um software que liga o espiritual e o físico,é uma das manifestações da grandeza de um Criador, cujo compreender nos foge ao domínio. Pode não ser entendido na sua plenitude ou nas suas regras malucas, mas é a configuração da perfeição.
É um hacker que invade sorrateiro as nossas vidas. Modifica nossos sistemas; muda nossos programas e redireciona a seu bel-prazer os nossos rumos. Zomba da lógica, ignora o tempo e manipula o impossível. Foge de nós e se mostra travesso. Rebelde aos nossos comandos – brinca feliz – mostrando janelas jamais imaginadas; exibindo pop-ups indecentes. Instala-se sem volta e sem opções. Tira-nos a configuração, o verme! (ou vírus?) Depois de rastrear, fisga dois corações desprotegidos e expostos. E coloca-os on-line, insensível a qualquer resistência ou apelo. A cada instante, uma química se faz e refaz. Corpos sedentos de amor e de junção, num download sem fim. Uma busca insana; eterna sede. Insaciável sede que toma conta. Idéias que urgem ser trocadas, palavras e palavras se multiplicando como células. Milhares delas, misturadas sem parâmetro. Cabeças confusas, descontrole de tudo. Sensações nunca experimentadas. E ficamos perplexos, tentando explicar tudo; buscando na sensatez uma cura que não vem. Nem virá.
Criando pretextos e nos mostrando ingenuamente protegidos, pensamos em nos livrar, como quem procura a cura para a felicidade. Procuramos uma vida por ela e quando localizamos seus arquivos, temos medo de abrí-los. – Irônico, não?
Só que na vida, não tem como se mostrar off-line. A mente não tem esse menu. É um adware sem volta no coração. Por mais que as bocas venham a negar, por mais que dissimulem, ficarão contaminados para sempre. Os dois, por mais que se enganem e busquem outros amores terão em si, uma insistente mensagem: – Impossível excluir o arquivo “euevc.exe”. Arquivos com esta extensão não podem ser removidos! Estão protegidos!
E se um dia o destino resolver colocar-nos off-line para sempre ou que os caminhos da vida nos separem, vamos saber que esses arquivos estão compartilhados; ainda que ocultos. Intactos. Incorrompíveis.
Então vamos entender que: – Se o tempo é o senhor da razão, o amor desconhece o tempo...

(Texto de Paulo Moreira).

sábado, 6 de março de 2010

Ponta Negra


Morro do Careca, na praia de Ponta Negra.

Desliza sereno no mar,
Um barquinho pequenino
Por este azul embalado,
Qual uma canção de ninar.

Meu olho, preocupado,
Viaja, além de onde está.
Passo as tardes mergulhada
Neste paraíso de ninguém.

Ponta Negra dos meus dias...
Negras são tuas noites;
Claras minhas manhãs.
Ponta do meu coração;

Areia do meu caminho.
Daqui da sacada, te vejo.
A Lua se mira no mar;
O Sol se banha nas águas

Em cada dia que amanhece
E nesta saudade que cresce,
Quero cada vez mais te amar.


(Ednar Andrade).

Um grande amor


  Gif usado neste texto de propriedade da web

Como crianças, assim como parceiros nesta dança, estavam lá. Mãos dadas, pés na areia, calças arregaçadas, pés molhados.

Amigos, lembram de um tempo vindo das valsas, do amor... Dos sonhos, daquele distante paraíso da mocidade. Ele com o olhar distante, me contava sobre um tempo em que aquele amor ainda era menino.

A vida os arrastou por outros caminhos; não foi desamor, talvez, quem sabe, o destino.

Ainda muito moço, partiu, foi em busca da sorte, do pão; converteu em glória a saudade. Assim José deixava-se levar sem olhar para trás. Do passado só carregava no coração aquela imagem de mulher: sua musa. Homem bonito, forte. Sempre viveu para o seu dia mais lindo. Viveu com sabedoria a sua mocidade, com todas as responsabilidades; um bom nordestino, fiel às suas raízes; homem simples que teve que ir à guerra... Nunca tirou do peito este escudo: a saudade da sua amada. Viveu para este encanto que seria o dia em que a boca daquele homem diria, por certo, palavras guardadas. Mãos cansadas... carregavam muito carinho nos seus cabelos brancos. Mas, vermelho era o coração de um amor todo bordado. Assim viveu José; corpo de homem, cabeça de menino, por ser isento de maldades e coração bom... Olhar puro, sincero. Olhava parado, como que falasse neste olhar. Olhava para mim sorrindo, demonstrava por mim um carinho lindo e falava do amor por “Raqué”. Falava-me como era lindo o amor por aquela mulher, buscava em mim, José, o refúgio que só um náufrago buscaria em alto-mar; alguém ou algo que o mantivesse vivo, por haver ele, José, compartilhado comigo seu grande segredo, em suas poucas viagens, visitando a terra natal; berço que nunca esqueceu, veio um dia de tão longe, tão longe... Só queria abraçar, colar o rosto e beijar a boca da sua princesa, dona de toda pureza, que nunca lhe foi mulher. Vê-los como os vi... Foi tão lindo! Foi como assistir a um filme romântico; eles apaixonados, felizes, encantados. Sem calendário, longe do tempo. Ali, tudo que contava era aquela euforia...............................................

- O amor é um sentimento estranhamente conhecido, ele não se perde do objeto amado; ele até te confunde. Ele pode te deixar bobo.

- Pode o homem viver no mundo sem tal sentindo abençoado? Como viver? Como senti-lo e não reconhecê-lo?

Para mim bastava-me olhar para aquele olhar calado para ver e entender que ali estavam mais uma vez felizes, sem tempo ou idade; conversando, para, quem sabe, o grande prêmio: uma noite, apenas. E caminhavam lado a lado, com silêncios falados pela boca da emoção contida. Tanto amor, tanto carinho negados.

Ele: um senhor, assim como descrevo: feliz, risonho, buscando no contar das horas um correr contra o tempo...

Eu confesso, olhava para o outro lado como que para poupá-los da exposição. Não queria constrangê-los... Notava-se, na palidez da pele o traço, as marcas do nada generoso tempo. Mãos envelhecidas, cansadas, um tremer na voz dos enamorados. Fico imaginando quantas noites ficaram acordados, rezando, pedindo a Deus este encontro tão desejado.

Agora, gestos vagos, uma vontade de voltar para o tempo perdido. Estavam os dois ali, nem mais amantes, em comunhão, cúmplices, amigos... A noite já ia longe; a carne já não respondia com tanto vigor a tanta emoção. Eu os observava com muita discrição. Eu fingia olhar para o outro lado, mas não podia deixar de saborear um momento tão lindo; um amor tão raro. Cúmplice, ali, daqueles dois. Era natural notá-los cansados. Eles juntos somavam mais de cem anos; somavam, multiplicavam e não se dividiam. Cada um em sua estrada, uma história fazia. Bem, poderia ser um conto ou um filme com direito a avançar ao ponto de partida ou voltar. Mas, com uma sabedoria que só o passar dos anos dá, eles tinham um único e feliz momento, sem ali se importar se haveria um outro encontro. Como meninos no dia da Festa do Amor Divino...

Raqué – nome abreviado por José – era mulher forte, de corpo franzino, estatura baixa, pele muito terna, tinha um olhar contido, falava pouco, talvez com medo de deixar partir a alma.

Vinha do mar um perfume especial, feito de sal e algas que, misturados aos nossos perfumes, produziam uma espécie de incenso no ar.

Eu usava um floral forte que, soprado pelo vento, era como um prêmio naquele momento. Na mesa, batatas assadas em forno grelhado... Tudo era perfume. Voltavam então do passeio, Raqué e José; voltavam de mãos dadas, mais pareciam meninos. A felicidade estampada na boca, no olhar, nos gestos, parecia rejuvenescê-los, quase que santificados pelo divino instante deste reencontro sublime. Senti que estavam cansados, pois caminhavam mansamente; olhavam-se; davam risadas. Enfim, voltaram à mesa. Sentaram-se ali, do meu lado. Pergunta alguma fiz-lhes, mas ele me agradeceu. Disse-me assim José:

Ficamos ali, sentados, falamos de coisas banais, falamos de coisas amenas, pois qualquer coisa, além do que eles falaram não teriam de fato valor. Até porque, a única voz que o vento poderia ouvir era a voz daquele amor. A noite estava tão linda; era noite de lua, lua cheia. Nós estávamos sentados tão perto da praia que parecia que as ondas queriam molhar nossos pés. A espuma branca em que eles pisaram era como que um tapete bordado que a natureza fez para recepcioná-los. Ficamos então satisfeitos... Todos, eles e nós que fazíamos companhia a este sacramento, pois na verdade éramos cinco: Raqué e José, eu e mais dois amigos. Existia entre nós uma cumplicidade e nada, assim como a história de José, nada, nem o tempo, nem a tristeza me fará duvidar do amor. Saímos dali, os cinco, cada um para o seu destino. No caminho de volta, todos em silêncio como que reverenciando aquele momento ímpar. Eles estavam já bem cansados, haviam caminhado muitos anos de vida e luta árdua, mas nunca mataram no peito a certeza de que um dia, com tamanha e real alegria, o amor que julgavam haver perdido para eles voltaria.

Esta é a história real de Raqué e José. O tempo passou... José voltou ao seu reduto, forçado reduto, pois ali só morava o corpo; a alma e o sentimento ele depositou no coração de Raqué. Ás vezes José me escrevia, passou a viver das lembranças doces que eternizou desta noite, pois não houve uma segunda noite. José foi ficando mais velho, mais cansado... Veio-lhe a impossibilidade pelas doenças... Raqué também guardou consigo esta tão grande felicidade:

*uma noite com José!*

Tempos atrás, não tão distante, José partiu para sempre, deixando no meu coração uma saudade que não finda e um exemplo vivo que alimenta em mim a certeza dos que amam. Sei, leitor que você pergunta: e Raqué? Te prometo que no próximo capítulo falo de Raqué.



(Ednar Andrade)*****.

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*Nota da Autora: Este texto, de forma autêntica e na íntegra, é fato real*.