segunda-feira, 17 de maio de 2010

(O velho amigo) Como um velho casaco jeans assim vivia...

 

Já conformado, marcado pelo tempo, esquecido de si mesmo, ali morava ele dentro da caixa, sem a memória real do seu valor. Ali ouvia histórias da vida, lembrava momentos, carregava no seu cheiro de guardado segredos e confissões, não havia nele novidades para contar; a vida o fez assim jogado, esquecido de sonhar... Foi já tão amado, tanto amou, tanto viveu... Agora seu universo era apenas um armário, portas que se abriam, pessoas que nem o olhavam, por ele passavam sem lhe tocar... Seria ingratidão assim pensar que foi esquecido? Ou, o seu valor mudara? e agora tantas outras coisas aconteciam... O que o fazia ali está esquecido, descartado? Foi companheiro de sonhos, deu tanta festa, doou muita euforia, via-se esquecido agora, dizia-se amarrotado, sem graça, um leve desbotar já anunciava que tudo era menos sem cor. Quem sabe no vai-e-vem das horas alguém poderia dele lembrar... Pura ilusão; descontentamento, e então... Lamentos, recordação, muita saudade. Saudade da felicidade de crer no sonho, de ir em busca do novo acontecimento, e assim olhar na cara da covardia, sair do seu lugar seguro, colocar-se à prova do desconhecido... É preciso recomeçar, pensava. Com muito medo quase morria no armário, na dor, todo perdido; vivia sem respirar... Até, que numa bela manhã, levado pelo descuido do seu destino, viu a fresta que o levaria para a sua liberdade, num gesto brusco e magoado sai da caixa; olhou em volta de si, há vida.

La fora, tudo é diferente... Mas nada é tão mudado que eu não possa retomar a minha já “suposta” (perdida felicidade). Fora do armário o dia tem outro cheiro, o Sol brilha e dá sentido à minha respiração, pulsa, remete, alerta-me a alma fraca quase doente... Olhos atentos, nas mãos os sonhos, uma vontade imensa de sorrir, alguém, por favor, conte-lhe uma boa piada, faça-o voltar a sorrir, pois é urgente ter vida, perder esta poeira que o tempo deu-lhe como uma camada protetora e falsa. Esteve tanto tempo renegado, renegando-se, perdendo-se da magnífica palavra: “LIBERDADE”, liberdade sim! De ver-se vivo, de ir ou ficar, e apenas por querer ser o que é, sem dar explicação, com a cabeça sobre os ombros, sair do esconderijo, as ervas daninhas dos seus caminhos já tão batidos do seu tempo... Um tempo que jogou fora com tamanha ignorância da tal felicidade (felicidade? Que palavra é esta que já não me é pão?) Pensava , chorava, gemia na sua nova busca de viver. Nascera agora, passava pelo fogo da desilusão, para chegar ao frescor da aceitação do real (Realidade), palavra que a alguns assusta, pois ela trás consigo a pura flor, o direito de ser como ela se apresenta, sem pedir licença instala-se na vida , que por vezes lutamos em rejeitar.

Assim, e vestido de uma tentativa de reviver, saiu, abriu a porta, pegou o seu antigo jeans, deu-lhe umas batidas de saudação, pediu-lhe desculpas pelo abandono, sorriu para o velho amigo, e disse-lhe com um sorriso novo: “agora virás mais uma vez comigo, já não estaremos sós, direi e ouvirás, calarei e entenderás, pois nesta vida quem não precisa ter fora do armário um velho casaco jeans?” Limpou-lhe os cantos, arrumou, cheirou, vestiu e saiu buscando os novos caminhos. Descobriu portas, janelas, e reviu tantos rumos... Foi correr de encontro a tudo que deixou no desencontro, jogou sobre os cansados ombros o velho companheiro e partiu, agora consciente da inércia em que vivera, olha-se no espelho, põe na mochila a coragem e segue com a força e a certeza de que é preciso trilhar esta estrada: VIDA, sem olhar para trás, sentir-se bem-aventurado e seguir na direção do horizonte que o espera.

(Ednar Andrade).

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Johann e Maria (Parte VIII)

Foto encontrada na internet.

Como é bom amar! Não importa... em que contexto o amor se apresenta. O amor pode submeter à escravidão, pode ser profano. Em nome do amor pode-se cometer enganos; acreditar numa felicidade que, de tão desejada, passe a ser o alimento para alguns corações; fonte inesgotável de vida; santificado pão que do anseio desta necessidade, vivem todos os seres. O amor, um sentimento que copula sem parceiros; o amor é erótico em si mesmo; palavra que ninguém... pintou em vermelho; liberdade que aprisiona; prazer que faz doer; o ar que nos impossibilita de respirar... a saudade que adoece e que cura a solidão.

É este o sentimento que agora invade Johann e Maria; este sentimento que brotou do nada, invade suas almas com uma intensidade que assusta. Assim, como náufragos, buscam na dualidade deste sentimento salvarem-se desta tormenta que os deixa desorientados, sem paz; avalanche de emoção que os sacode para qualquer lado; fragiliza; transpõe; modifica; lucidez e loucura; sanidade, doença sem cura; ponto, contra-ponto; certeza e medo; luz e calor; querer como um cego tocar o invisível; saber o sabor e o odor de um sentimento abstrato; isto é amar? O que é o amor? O desejo natural do homem de não estar só? ou uma necessidade de permanecer no outro?

O amor é sentimento único, mas não é igual. Isso o faz um monstro terrível e ao mesmo tempo desejado. Torna o homem masoquista, egoísta. É tão forte que desmascara o individualista. Quem nesta vida pode ser tão rico sem ter um ser amado? Que delícia teriam as águas do mar se fossem insípidas? Que beleza teria a noite sem ter o céu de estrelas bordado? Que fascínio teria abrir, ao amanhecer, uma janela se o Sol não fosse dourado?  E no campo a Primavera sem os apaixonados querendo flores para colher? Que suavidade há no olhar dos que não amam? Que certeza há nos corações dos que não crêem no amor? E quantas dúvidas moram, perpetuam-se nos corações dos que amam? É o doce e o sal, o amor; o veludo mais áspero que a minha mão já tocou; é a ferida que mais arde e que parece não precisar de cura, porque se ela cicatriza vem com ela a morte do amor. É preciso que doa para permanecer vivo, é preciso que lateje - não basta ser latente -, incomode, tem que ser mesmo forte, irreverente, cruel, um carrasco que castiga, causando prazer em vez de dor.  Só assim pode ser amor; inquietante, barulhento, dentro da alma. Mesmo que às vezes a boca cale, o amor precisa ser uma tormenta dentro do coração. O amor vive da guerra dentro da paz que proporciona. Alimenta-se do desejo contínuo de permanecer... Indecifrável, indefinido. O amor me faz entender de amar; não de amor. 

Para entender de amor, morri. Até jurei desamar ou nunca mais amar, mas com este poderoso, quem pode? Vira e mexe, você xinga o mundo, desfaz-se em pranto, risca, rabisca sentimentos, pensa que chegou ao mais profundo e, de repente, você submerge e emerge das águas profundas deste sentimento um outro amor. Amores são amores, divergem tanto e não poderia ser diferente.  Por ser universal é único, não é comum; tem personalidade; chega diferente a cada um. O amor... A dor que ninguém rejeita; a poesia que todos querem cantar; o profundo mar; o abismo que todos querem velejar; o obscuro; o negro; o transparente; o claro sentimento da vida. Nele tudo está contido. Tudo há. Não há falta de razão no amar, no amar de cada um. No modo de dizer que sente, ama ou de sentir. Ele é permanente. O eterno sentimento... Sem face, sem cheiro definido, sem lugar-comum; nasce nos becos, no gueto, na lama, em sodoma, em gomorra, onde quer que ódio morra, nasce o amor. Eu desconheço sentimento mais profundo, nem o vinho mais caro, nem a uva mais rara, nem o manjar mais doce tem o seu sabor. Um sabor tão raro, doado pelos deuses, presente divino; anjo sem rosto; um céu cheio de inferno; e fogo; que nos consome; purifica e dá vida.

Assim, é o amor... Doce mistério da minha vida, da tua, de todos; quem não carrega consigo a larva desta borboleta tão mutante com asas plenas? um viajante sem pouso certo habita nas noites, até nos sepulcros; no coração daqueles que mesmo enterrados foram, levando consigo um segredo de amor; os mistérios noite a dentro nos cemitérios, quantos partiram pobres sem provar o seu sabor? No coração da prostituta, que a carne doa sem pudor, nela também habita o amor; este sentimento que me move, te move, conduz o mundo; do santuário ao profano ele é a mola que move, que faz vibrar, que pulsa e faz jorrar sangue ao órgão mais vital; vício; adrenalina; pulsante coração cheio de amor habita em todo ser que ama. Será assim o amor? Tenho amado tanto... Tento entender o amor. Não existe no mundo este professor. Todos já tentaram traduzir, tentam tingir de alguma cor. Muitas tentativas e ele será sempre mutante, errante, perpétuo, imperfeito, frágil, sutil , assim como as estações: chuvoso, nublado, outono perfumado, quente como o Sol, num dia de Verão, com seu aroma de Primavera, inconfundível; o seu colorido possui cores tão cintilantes, tão diferente; ninguém consegue pintar um quadro com a verdadeira cor vinda do amor.

E agora, Maria e Johann deparam-se com esse tratado: fugir? encarar? aceitar? adotar este querubim? ou este demônio? E agora Maria pergunta porque um sentimento tão lindo nos tira a paz? nos arremessa contra o rochedo no meio do mar? Assim, como náufragos, navegam lado a lado; seguem sem a bússola que é o porto inseguro que os fará aportar com um sentimento alado. 

(Ednar Andrade).      

quinta-feira, 25 de março de 2010

Johann e Maria (Parte VII).


Foto pesquisada na web.

Maria, fechou o piano, foi até a sacada, colheu um jasmim. No bilhete que recebera de Johann, havia, no rodapé, o número do seu celular. Por vezes, Maria sentiu-se atraída, com imensa vontade de ligar. Faltava-lhe apenas coragem para ligar e dizer para o seu amado que a saudade a incomodava tanto... Discou o número que esgotou todas as possbilidade de ser atendido, por certo Johann dormia. Mas, como não resistiu, deixou-lhe um recado na secretária eletrônica: amigo, saudades... Chamava-o de amigo, pois entre eles nada existia. Apenas em seus momentos silenciosos, dentro da madrugada, chamava-o de meu amor.

Esta seria uma noite que ela presumira, de paz, depois da visita de Eleonor, pois ela deixara consigo a sensação de suavidade. Entrou abriu as janelas, deixou aquelas brisa mansa da noite. As cortinas transparentes batiam-lhe na face como se fosse um carinho. Maria sentiu um aperto, veio-lhe de súbito uma vontade de chorar. Parece que seu corpo todo ardia de desejo por aquele homem nunca tocado, pois a única certeza de tocá-lo fora aquele abraço, quase que ousado, que demorou segundos, quando sem querer suas bocas quase se tocaram. Era a sua sensação de haver beijado aquele homem; sua memória única de intimidade com aquele rosto iluminado. Hoje a saudade deste momento veio-lhe visitar. Queria tanto beijar pela primeira vez aquela boca, sentir o seu hálito, sentir qual aroma sairia daquela boca, daquele beijo. Desejava ardentemente ser abraçada por aqueles braços fortes de homem. Segurou os seios e os apertou como que oferecesse a Johann, num gesto mímico. Apertava-se, sentia-se contraída. Da sua boca saíu um sussurro. Ela disse: "Johann, meu amor, como te quero"... Maria estava, pela primeira vez envolta por uma sensualidade ímpar. Agora tinha a certeza que, da alma, passava à carne aquele anseio. Como a incomodava aquele homem, aquele quase estranho. 

Sentia um descontrole na carne. Rolaria naquele tapete com Johann, até o raiar do dia; ofereceria a Johann seus seios como o néctar do amor. Imaginava aquela boca quente a beijar-lhe o corpo. Estava neste enlevo, quando seu telefone toca. Num gesto impetuoso corre. Na sua alma havia uma certeza: - Era ele. Achou até que seus pensamentos haviam chegado àquele coração tão distante. O seu desejo viajara para tão distante que o fez acordar e desejá-la também. Atravessou a sala, o telefone ainda estava sobre o piano. Não era Johann. Alguém ligou errado. Maria entristeceu e o seu desejo de ouvir aquela voz,como uma tempestade, evoluiu e ela ligou para Johann. Uma voz rouca e mansa disse-lhe: - Alô! Johann reconheceu a voz de Maria. - Alô Maria, eu precisava tanto ouvir a tua voz; a saudade me consome. O silêncio fez o texto. Entre sussurros de felicidade, fizeram confissões, disseram coisas lindas, como queriam este momento que, com certeza, definiram no inconsciente desde o primeiro encontro.

Maria diz-lhe segredos que guardava durante todo este tempo. Confessa por ele o seu amor platônico. Johann, por sua vez, confessa: - Tu também me incomodas tanto Maria, quero o teu amor a cada dia. Não sei medir o quanto; só sei que te quero, que te quero tanto... te quero mais a cada dia. Como te desejo, Maria, como quero beijar-te a boca quente; dizer sussurros de amor ao teu ouvido. Meu corpo te quer; és como a água que a minha sede de amor mataria.

Maria silencia e chora; uma lágrima não de tristeza, mas de satisfação, pois agora conclui que seu amor é correspondido.

O amor para Maria e Johann chega assim de forma súbita. Como no poema de Ednar Andrade:

O Amor


O amor dorme/
No leito de um rio que corre dentro da alma de quem cala/ (...)
Vagueia ...e delirante nos ofusca/
Diz que não ama, mente/
Faz com que as nervuras das águas molhem corações/
Mente...minto, mentes.../
Mas calma , apenas sinto/
O amor desperta/
Quando o sol da vida encontra uma fresta/
Invade irreverente/
Ele apenas chega/
Assim chega as vezes sutil/
te pega , te deixa/
Abre ou fecha a porta/
Mas é o amor/
Nada a mais importa/
Quando ele chega *

(Ednar Andrade)



Nada mais importa para Johann e Maria a não ser viver com intensidade esta chama de amor. Esta loucura que muitas vezes transforma-se em luxúria em seu sonhar. Querem-se tanto; desejam-se tanto; como é bom amar...   

quarta-feira, 24 de março de 2010

Johann e Maria (Parte VI).


Foto pesquisada na web.




As amigas abraçam-se, sussurraram frases naturais (há quanto tempo? saudades) comportamento de quem sente saudades. Na verdade, depois da apresentação a Johann, estiveram ausentes. Eleonor sempre muito ocupada em suas tarefas de dona de casa e mãe, exercia a profissão de professora, o que a tornava mais ocupada. E mesmo que não falassem sobre aquela manhã, existia entre elas uma cumplicidade; um silêncio necessário; um silêncio dos amigos; um silêncio que deixa o outro à vontade para falar ou não. Eleonor percebia que Maria mudara, pois notava que a amiga estava abatida; carregava no olhar uma interrogação que quase expressava em letras, mas nada dizia. Maria respirou aliviada ao ver a amiga que tanto ama e que esteve ausente. Aquela visita, que nada tinha a ver com a sua fantasia, era como se trouxesse de volta a presença de Johann e aquela manhã. Eleonor, meio sem graça, e sem ter a certeza do silêncio de Maria, perguntou-lhe sobre o que fazia nos últimos dias, pois passara-se já dois meses. Elas carregavam naquele silêncio toda uma cumplicidade, pois desde muito jovens compartilhavam os sentimentos. Eleonor percebeu que, desta vez, Maria mudara. Passou a ser reticente, fez-se todo um silêncio em torno das duas, pois sendo tão amigas não falavam mais dos sentimentos. Algo de novo acontecia e que, com certeza, seria um novo sentimento. Eleonor só não sabia que proporcionara aos dois um encontro que se prolongaria e, quem sabe, seria transformado em amor.  Sem conter-se de curiosidade, Maria não resistiu e, quase num ímpeto, fez a pergunta inesperada a Eleonor: - Tens notícias de Johann? - Sim, temos falado, temos tido poucos contatos, pois ele está na Europa, participando de um congresso que parece sem fim. Maria relutou, mudou de assunto, mas sentiu-se satisfeita, de alguma maneira chegou aos seus ouvidos a maviosa notícia do seu amado: Johann viajava. Fez-se um silêncio, amigas falavam de trabalho, falavam de coisas amenas, mas existia agora entre elas um espaço, uma lacuna. Maria sentia-se como uma adolescente que guarda um segredo; Eleonor percebia um distanciamento, mas não conseguia captar os sentimentos da amiga que agora, levada pelo elo reforçado dos sentimentos, amava-a cada vez mais, pois era Eleonor a válvula propulsora para este evento em sua vida; este sentimento que nasceu do nada. Era quase como um sentimento impróprio; um sentimento que oscilava entre o platônico e o carnal. 

Maria, em suas noites de insônia, desejava Johann. Isso a incomodava tanto que ela não dormia; eram pensamentos lascivos, desejava aquele homem. Imaginava a sua boca naquela boca; pensava como seria ouvir coisas obscenas ao seu ouvido. A excitação era total; seu corpo tremia nas madrugadas em que acordava subitamente sonhando com Johann. Olhava para Eleonor com medo que ela adivinhasse tanta luxúria, tanto desejo e esta sede de prazer desconhecido, mas que ela queria, queria tanto beijar aquele homem; imaginava seu corpo nu e o queria; e o queria tanto que seu corpo era tomado de excitação e dor; uma dor na carne, aquela dor de quem deseja e não tem o objeto amado. Agita a cabeça, volta a si, respira fundo e diz: - Que bom que felizmente ninguém tem esse poder de invadir minhas emoções. A noite caíra lentamente. Dirigiam-se até a sala, tomaram uma taça de vinho; vinho tinto, enquanto aguardavam o jantar. Agora falavam de música. Maria como que, para reviver aquele momento com Johann, começou a dedilhar La vie en rose. Em silêncio tomaram uma taça de vinho. Eleonor falou de Vítor, seu marido. Falou das suas viagens, relembrara alguns momentos da faculdade. Até que chega a hora de jantar. Jantaram despediram-se com um beijo e a promessa de voltarem na próxima semana. Maria a acompanhou até o portão. Despediram-se. Naquela noite, Maria sentiu-se aliviada. Claro, não era Johann, mas Eleonor carregava em si, sem que soubesse, parte da sua emoção. 

(Ednar Andrade).

   

terça-feira, 23 de março de 2010

Johann e Maria (Parte V).


Foto pesquisada na web.

Os dias passavam-se, agora não mais com a lentidão da despreocupação que sempre seguira Johann. A paciência lhe era uma capacidade peculiar, pois sabia que, sendo já um homem casado, embora numa relação conflituosa com Margarete que, ciumenta, parecia vigiá-lo, mesmo sendo educada e fina. Havia naquela mulher um sintoma de posse que o sufocava. Mas, por questões sociais, permanecia no convívio familiar. Margarete, uma mulher bela, com olhos muito claros, robusta, era já sua companheira há quinze anos. Relação que começara nas caminhadas das tardes de outono. Johann conhecera Margarete no período da faculdade. Existia entre eles, além da relação de amigos, uma cumplicidade, não chegava a ser um amor, nunca fora na verdade.

Companheiros de dias e noites, estudando juntos, de pesquisas, saídas com amigos, fez de Margerete e Johann apenas um par que, como amigos, se completavam nas noites de solidão. Ás vezes viajavam juntos. Viagens longas que duravam semanas...  Passeios estes que talvez, por uma conveniência, os levou a casar.

Os dias eram agradáveis... Faziam planos, cresciam juntos. Margarete, mulher inteligente, era uma companheira, digamos, cúmplice desta relação que não envolvia amor e sim uma amizade profunda que, salpicada de momentos íntimos, conseguia perdurar. Desta relação nascera Felipe, filho mais velho do casal, e Tâmara, uma garota bonita que muito parecia-se com o pai. 

Neste contexto, ficava Johann agora a pensar: era como se uma culpa lhe ocupasse todos os minutos a partir daquele instante em que passou a observar Maria. Maria, nome que ardia em seu pensamento, acompanhava-lhe como uma visão que somente o seu olho interno via. Um sobressalto, uma ansiedade.... Olhava para Margarete, sentindo-se infiel, coisa que nunca fora antes, pois sentia-se confortável com aquela situação morna de amigos e amantes. E agora Maria...? Será que seria amor esta inquietude de sua alma? esta paz que lhe faltava, a todo instante? O amor? como seria amar? como seria amar aquela mulher, ora distante? Como seria amar uma mulher nunca tocada por ele antes? Que perfume teria aqueles cabelos esvoaçantes que nas manhãs pintava-se de Sol?

Ainda carregava consigo o perfume que o vento varria até suas narinas, quando o "açoite" trazia até o seu rosto, os cabelos de Maria. Lembra que de sua pele brotava um aroma de jasmim, um floral que não reconhecia... Não sabe ao certo, uma mistura de natureza com os olores matinais do campo

Agora sentia o coração completamente habitado por aquela mulher franzina e delicada. Maria tocava piano, tinha dedos delicados, unhas aparadas pintadas num tom rosa: disto ele lembrava muito bem. Lembrava do balé dos seus dedos, quando lhe pedira para tocar uma música: La vie en rose, que ela tocava com desenvoltura. Agora, porém, suas noites estavam diferentes das de antes do encontro com Maria.

Margarete ficara agora em os seus segundos pensamentos. Não é que não fosse grato e companheiro e cúmplice daquela companheira da mocidade. Mas, sentia que entre eles hoje havia um distanciamento, um desinteresse natural de quem está apaixonado. Agora era preciso falar a verdade a Maria: dizer-lhe do seu sentimento, mas dizer-lhe também de sua companheira. Jamais pensara em transformar um simples apresentação em caso de amor. Era acostumado a ser apresentado a moças tão bonitas e interessantes nos congressos de Medicina. Com que magia o envolveu Maria? Que poder silencioso havia naquela mulher simples que lhe dera apenas um abraço tímido? Achava cedo para tomar decisões, via-se num xeque-mate, no inevitável jogo da vida: o amor. 

Maria, em seu mundo, em sua rotina,  como professora de piano, passou a compor canções que dedicava ao amado. Andava triste, pois já estava sem notícias do amado há alguns meses. Às vezes sonhava com o reencontro, onde pudesse dizer-lhe do amor que sentia. Já era quase noite. Maria fazia uma caminhada nos finais de tarde. Na verdade servia-lhe como terapia e também para inspirar-lhe as canções que compunha. Caminhava sem expectativas. Trabalhava numa rotina diária, onde não tinha tempo para sofrer. Mas, inevitavelmente sua cabeça sentia-se invadida por aquela imagem que carregava consigo: Johann. 

Maria chega em casa, vai até o jardim. Ali fica sentada, olhando o Sol se por. Recosta a cabeça no banco do jardim e fica assim por instantes, quase que cochila. Um pequeno ruído lhe desperta. Alguém toca-lhe os cabelos com gesto já conhecido. Com os olhos ainda fechados tenta adivinhar. Mas, um boa tarde soa-lhe familiar: é Eleonor, amiga inseparável que, assim como quem vem lhe socorrer desta saudade, faz-lhe uma visita.  

 (Ednar Andrade). 


sexta-feira, 19 de março de 2010

Johann e Maria (Parte IV).

                                                        Foto pesquisada na web.

Deixemos Johann no seu divagar, pois Maria, de saudade, andava atônita. Vivia agora toda uma expectativa de receber, quem sabe, notícias de Johann. Eles viviam de forma separada, uma situação gêmea. Mal sabia Maria que o seu amado, o mesmo modo, pensava nela; noite e dia. Johann só não sabia que sentia no coração o mesmo sentimento que Maria. Naquela manhã, já bem distante daquele encontro, depois de um longo inverno de silêncio, chega até Maria um bilhete tímido, enviado por Johann, onde, de forma, discreta e sutil, Johann dava-lhe a tão esperada certeza: pensava nela também. 

Seu coração batia, dava uma festa. Definitivamente agora ela sabia: já não estava só. Aquele pequeno bilhete feito, talvez quem sabe, num momento de descontrole, enchia-lhe o coração de esperanças. Ela andava por todo jardim meio que extasiada, conferia a emoção olhando-se no espelho, como que ali buscando a imagem de Johann. Quantas noites esperou este momento? quantas noites sonhou com aquele homem?

É assim a vida... O amor chega de forma inesperada, invade corações, chega numa torrente devastando tudo, mexendo nas ideias, modificando o que parecia tão seguro, deixando tão turvo o que parecia tão claro, pois, mesmo quando se tem certeza ou quando parecemos ter, poderemos ser pegos de surpresa por este sentimento tão nobre: o amor.

Johann, que agora estava muito distante, começava a sentir uma saudade louca; uma vontade de voltar, olhar naqueles olhos profundos e dizer coisas que preferiu calar. Johann ansioso pela resposta, andava de um lado para outro, numa inquietude par. Abriu a janela, olhou para o céu, era noite; noite chuvosa, onde as estrelas, assim como Maria, estavam escondidas, envoltas por nuvens de chumbo que poderiam ser comparáveis à distância que o fazia sofrer. Pensou, relutou como que quisesse convencer-se de que nada mudara em seu viver. Johann, conservador, um leve traço de machismo, parece não querer admitir que nascera em seu ser um sentimento novo. Um sentimento que por mais que relutasse tinha nome: Maria.  

(Ednar Andrade).



quinta-feira, 18 de março de 2010

Johann e Maria (Parte III).

                                                        Imagem pesquisada na web.

Maria acorda. Sentiu na garganta um aperto; uma vontade de permanecer na cama. O vazio se instalara em seu coração. Abriu a janela, olhou em direção ao Sol... Tudo estava calmo, silenciosamente calmo. O Que fazer com tantas lembranças, de um momento tão pequeno, mas que para ela seria uma interminável emoção. Levantou-se do aconchego morno dos lençóis. Teria que acordar; acordar do sono e do sonho que tivera na manhã anterior. Tudo era igual: as árvores, os pássaros, o verde. O verde que ela tanto admirava, naquela mata densa, não brilhava tanto; era saudade! e tanta que ela apenas balbuciava: bom dia! O dia seguia sem novidades. Ela saiu tentanto fazer uma caminhada. Mas, seu coração continuava preso àquela miragem. Da sua mente não saía aquele semblante manso, aquele olhar que se movia, de forma sensual. Pensava naquela boca insinuante, nos gestos daquela mão e sabia que tudo não passara de um encontro.

Ela estava sob o efeito impactante daquele encontro. E sabia que teria que continuar sua rotina, pois de Johann talvez, nada mais saberia.

Johann, por sua vez, não que fosse frio, mas talvez por não saber da importância que teria para Maria, seguia seu rumo, vivia a sua realidade. Levado por sua rotina de tantas viagens, vivia entre navios e aviões. Havia no seu trabalho uma proposta de emoções, parece que naquele homem não havia tempo para pensar em separação. Johann, homem calado, conciso. Um aspecto luzente na tez que dava-lhe a expressão de ter a lucidez pintada no rosto.

Homem de negócio, viajante, empreendedor. Pouco sabia de Maria. Muito sabia da sua própria vida, da sua luta, da sua entrega ao trabalho. Mas, já não se sentia como antes. Voltara com algo de sutil no coração: um desconforto, uma ansiedade, algo inquietante. O que teria acontecido naquele encontro em seu inconsciente? Lembrava dela sim, lembrava de Maria. Que nome teria esta sensação, curiosidade? o que seria? O que inquietava aquele homem, quando lembrava de Maria?

Maria... Nome que dizia em silêncio para ninguém ouvir. Amor não era; paixão, com certeza não. Mas ela tinha algo inquietante, algo de diferente, quem sabe o perfume... ou aquele aspecto sorridente: um misto de anjo e demônio, isto lembrava Maria. Ao mesmo tempo que passava olhar de santa, tinha no olhar uma quase inocência, uma pureza de menina, uma meiguice de fada, tinha também um ar sedutor, uma mulher em flor; uma orquestra silenciosa de amor. Um falar que era quase canto, um encanto.

Johann perguntava-se: por que agora, pego-me assim, pensando em Maria? Maria... Nome que nos faz lembrar tantas marias: Maria do Céu, Maria das Flores, Maria de Fátima, Maria do Socorro, Maria, eram tantas marias, mas esta o incomodava tanto... Socorria-se dizendo: "Bobagem, tudo não passa de pensamentos; talvez a solidão desta viagem me faça pensar tanto". E vivia assim, seus dias, entre o trabalho e as viagens; disperso no seu trabalho e no seu pensar, distante de Maria que para ele nada mais era além de Maria.

Os dias transcorriam com tranqüilidade: trabalho, a vida, a sua realidade. Por vezes, sentiu-se atraído por aquele instante vivido naquela manhã tão verde. Mas agora, distante, que tudo era outro dia, não sabia mais nada de Maria.

Passaram-se noites e dias, por que não dizer, um calendário inteiro e vez por outra, ali no travesseiro ele via refletida a imagem de Maria (pensava nela, por que?).

Num dia, no meio da noite, acordara, havia sonhado com Maria. Sentou-se na cama, onde sempre deixava aparente papel e lápis para a facilidade do uso. Assim, como se não quisesse, por que não queria acreditar, seu coração não era o mesmo, ele escreveu: Boa noite Maria, aqui sou eu, aqui estou eu, cheio de saudades... Não sei porque, meu pensamento é meu. Poderia ter enviado pelo e-mail, mas preferiu ir ao Correio. Passou a perceber que tudo tinha cheiro de sentimento, será que estaria apaixonado por Maria? Seria uma amizade ou estaria apaixonado? Assim, enviou-lhe a carta que, com cuidado leu, antes de enviar. Não queria que ela pensasse que ele estava apaixonado. Apenas escrevia para uma amiga distante; precisava pensar assim. Mas algo na sua alma dizia que a inquietação já não o continha. Algo mudou em sua vida. Um vendaval passou a ser o seu viver; uma inquietude plena qualquer hora do dia. Dormia, acordava e dizia: "Maria".

(Ednar Andrade).

Foto pesquisada na web.













segunda-feira, 15 de março de 2010

Borboleta



Tu me dizes longe dos olhos, longe do coração
Tu me dizes que a gente esquece o melhor
Apesar das perspectivas
Eu sei que ela me ama também
Esta moça que eu apelidei:
Borboleta, minha borboleta
Em um mês eu voltarei
Borboleta, minha borboleta
Perto de ti eu ficarei
O oceano é pequeno, muito pequeno
Para dois corações onde o amor cresceu
Apesar disso que tu dizes
Eu vejo que ela me ama também
Esta moça que eu abracei
Borboleta, minha borboleta
Em um mês eu voltarei
Borboleta, minha borboleta
Perto de ti eu ficarei
Nosso amor é tão grande, sim tão grande
Que o céu aguentará todo dentro
Apesar disso que tu dizes
Eu sei que ele me ama também
Esta moça que eu beijei
Borboleta, minha borboleta
Em um mês eu voltarei
Borboleta, minha borboleta
Perto de ti eu ficarei


(Daniel Gerard).

Obs.: Música de Maria e Johann. Veja próxima postagem.

domingo, 14 de março de 2010

Johann e Maria (Parte II)


Foto do meu arquivo.


Maria, de uma beleza silvestre; sua presença, naquele lugar simples, era como parte da paisagem. Vivia em sintonia com a natureza. Suas manhãs eram sempre feitas de longas caminhadas pelo campo, parecia conversar com os pássaros. Entendia aquela sinfonia matinal como ninguém. Às vezes falava só em suas caminhadas, como que falasse ao vento. Poemas ternos, cheios de amor. Carregava no coração um apego sem par ao contexto natural daquele lugar. Às vezes nas noites de luar, ficava a mirar, na sua varanda, o céu de prata, como que para fazer-lhe sonhar com um amor que já previa, mesmo sem saber como seria Johann, pois em seu sonhar, ela ouvia a sua voz como se um pássaro fosse.

Um amor que surgiu do encanto, como sendo o seu abstrato namorado. Maria, que não o conhecia, apenas gostava de ouvir falar o seu nome: Johann... Daí, então nascera em seu coração, esta utopia que ela alimentava com grande emoção. Neste contexto de paixão platônica vivia Maria os seus dias... 

Eleonor, sua melhor amiga, sempre fora a grande companheira das tardes frias ou das manhãs de Sol. Por ela é que Maria passou a ouvir histórias sobre Johann. 

Johann, por sua vez, estava envolto em suas viagens, que roubavam-lhe todo o tempo. Até que, um dia, amigas que tudo falam, fizeram um acordo, que Maria aceitou sem duvidar da chance que, sem saber, traria-lhe o destino: apresentar-lhe Johann. 

Aquela manhã, já citada, em que olhares disseram coisas, nunca por Maria, faladas passava agora a ser a realidade tão esperada. Estavam ali, frente a frente, as palavras não saíam, era diferente de ouvir os pássaros cantarem. Maria falava com o coração, pois a voz, de tanta emoção, fugiu-lhe da garganta. Viveram em poucos instantes, momentos intermináveis. Depois daquele longo passeio matinal, despediram-se, com um simples olhar. 

"Porque, por tantas vezes, o que o coração diz o ouvido não escuta", pois o amor chega assim de forma súbita. Chega, simplesmente, sem avisar. Ele vem, não importa de onde. Chega, e tantas vezes, chega para ficar. Johann despediu-se de Maria num abraço tímido e num beijo tácito. Seguia Johann uma viagem longa sem hora para voltar. Enquanto Maria, nem ela mesma sabia por quanto tempo ela ficaria sem ver, outra vez, aquele doce olhar. 

Já era quase noite; Maria em seu sonhar... Mas agora e ainda, com aquele perfume nas mãos, único fragmento que restou daquele encontro tão fugaz... e tão sonhado, carregava consigo a certeza de que amava aquele estranho. Um amor de tão platônico que parecia um meteoro. Mas que deixara em seu peito aquela sensação de saudade ainda maior; sensação que lhe faria companhia durante muito tempo...

Maria abriu a janela, olhou por entre a folhagem o céu e nomeou uma estrela de Johann, quase pondo na estrela uma digital, para reconhecê-la, em suas noites de saudade, o seu amor distante. Ali ficou por pouco tempo, pois 0 cansaço cobrava-lhe o repouso merecido e adormecia e rezava, para que a noite entrasse pela janela um anjo que lhe trouxesse em sonho, mais uma vez a presença forte daquele abraço. Quem dera, pudesse no seu sonho, beijar com ternura aquele homem. Passaria por entre os cabelos, os dedos com tanta suavidade e pediria-lhe para que sussurrasse com aquela voz que mais parecia um poema. E Maria adormeceu, envolta por aquele enlevo de saudade e amor... E a sensação que o vento lhe causava na face parecia-lhe o toque suave das mãos de Johann...

Até que Maria acorde, vamos sonhar...  

     

sexta-feira, 12 de março de 2010

Johann e Maria (Parte I).

Imagem da internet.
  
Chegara então aquele dia, que tanto esperara. Acordou cedo, o Sol ainda não tinha tanto calor; lá de fora vinha um silêncio da mata densa. Abriu a porta, foi até o jardim; pegou com graça uma flor e ficou mirando. Havia uma orquestra habitual da passarada que cantava em notas já, ao seu ouvido, tão familiares. No meio desta canção matutina, um sabiá da mata. Maria, com sua silhueta fina, traços alongados, com músculos visíveis e toda uma graça no olhar. O seu sorriso era como uma moldura cintilante.

Maria sorria com graça, tinha algo de frescor naquela manhã. E ali ficou perdida em pensamentos e ansiedade; como seria aquele tão esperado encontro? – Deu voltas em torno de si, seu olhar parado; esticou-se na cadeira branca do jardim. Seu vestido colorido era um floral com florzinhas miúdas que mais pareciam um cenário inglês. Davam, àquela leve e elegante criatura, um ar de fada. Seu olhar parecia querer-lhe trair de tanta ansiedade. Respirou... Esticou-se mais, fechou os olhos como que, ainda, sonolenta, perdendo-se na entrega da paisagem matinal. Olhos fechados; o Sol banhava-lhe os cabelos, tornando-os mais vermelhos.

Por tantas vezes, Eleonor lhe havia falado deste ser tão iluminado. Mas agora chegara dia em que ele visitaria a sua amiga. Maria então preparava-se para um evento cheio de surpresa: conhecer Johann, seu príncipe encantado e platônico. Enfim, chegara o dia!

Entrou, deixou para trás os florais, o canto dos pássaros. Agora era hora de ficar linda para conhecer Johann. Abriu a torneira, observando a banheira que enchia com o frenesi da turbulência da água. A curiosidade era tamanha e aí imaginava como era o seu príncipe, que olhar teria o seu príncipe, como seria? Que cor teriam seus olhos? Em que momento da vida ele se fez tão importante? Ela não sabia. Tomou banho, foi até o penteador e usou o seu melhor perfume. Entre ela e Johann não havia sequer vírgulas, reticências ou qualquer gesto, pois entre eles nada existira antes, apenas uma fantasia de tanto que ouvira Eleonor falar-lhe. Agora pronta, perfumada, sem saber o que estaria por vir.

Maria embevecida de esperanças; vestiu-se de sonhos; fantasiou-se de ilusão. Este nome “Johann” latejava em sua mente como uma canção antiga. As horas passaram-se normalmente e aquela expectativa continuava latejante. Chega enfim Eleonor e Johann.

Maria, coração pulsante, olha – instante em que a emoção e a surpresa a dominam – e diante dos seus olhos, enfim, encontra-se Johann. Olham-se, entre o instante e a emoção habita o silêncio... Johann ali está: olhos escuros, cabelos lisos, olhar penetrante, braços fortes, pele morena. Johann, o sentimento mais platônico que experimentara Maria. Inquieta, buscava palavras, tremia, estava comovida; a emoção tomara conta do seu ser. Passou entre ela e aquele instante o desejo comovido de tocar-lhe: o que esconderia aquele olhar tão reticente? Seu semblante como se fosse luz fluorescente irradiava aquele instante. Um manancial de poesia, um berço largo de emoção.

Johann passava-lhe uma imagem sedutora; uma voz mansa; o seu falar era como um poema... Pausado e ao mesmo tempo sensual; um espetáculo que deixava Maria a flor da pele. Saíram para uma caminhada: Eleonor, Johann e Maria. O verde combinava com o momento matinal. Maria, aquela mulher, sentiu uma necessidade quase palpável; quase incontrolável de tocar-lhe a pele. Falavam de coisas amenas. Houve um instante em que os olhares se encontraram e disseram coisas que calaram. Um interminável instante como que perpetuaria aquele momento. Entre silêncios e pausas, reticências. Olhares intensos falaram coisas que até hoje pensam.

Continuo no próximo Capítulo.

(Ednar Andrade).