sábado, 7 de agosto de 2010

Coqueiros


     Arquivo pessoal: Pirangi do Sul.   


Por entre as palmas desse lugar 
Por coqueiros de beira mar 
Beira os olhos do meu amor 
Buscando os meus 
Vento a soprar 
Quero as águas verdes 
E quero enfim 
Ser maior do que esse mar 
Que avança sobre mim 
Sobre a areia quero amar 
Mas vou te dizer amor, mulher 
Na paisagem do teu corpo 
Vou deixar meu sorriso
Entre cirandas e cirandar 
A cidade Recife, o sal 
Do mar que derramei, chorei 
Quando deixei tudo por lá 
Entre pedras, ruas, só meu amor 
Entre a gente que falava de mim 
Que parti 
É hoje aqui quis me lembrar 
Vendo as praias tão sem cor, enfim 
Sem as palmas dos coqueiros meu amor 
Eu me lembro.

(Composição: Geraldo Azevedo / Marcus Vinícius).

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Rayuela: Rayuela, capítulo siete.


Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y los ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos...

... textos escritos y publicados hace años...

... con cronopios o sin ellos...
... en torno a su mundo de juego, a esa grave ocupación que es jugar cuando se buscan otras puertas.

Un, dos, tres, cuatro:
¡Tierra, Cielo!
Cinco, seis:
¡Paraíso, Infierno!
Siete, ocho, nueve, diez:
Hay que saber mover los pies.
En la rayuela, o en la vida
vos podes elegir un día.
¿Por que costado, de que lado saltarás?

...otros accesos a lo no cotidiano simplemente para embellecer lo cotidiano, para iluminarlo bruscamente de otra manera. Sacarlo de sus casillas, definirlo, de nuevo, y mejor.

...me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar.

...exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.

Un, dos, tres, cuatro:
¡Tierra, Cielo!
Cinco, seis:
¡Paraíso, Infierno!
Siete, ocho, nueve, diez:
Hay que saber mover los pies.
En la rayuela, o en la vida
vos podes elegir un día.
¿Por que costado, de que lado saltarás?

... yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua.







Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais perto e então brincamos de cíclope, nos olhamos cada vez mais de perto e os olhos se engrandecem, se aproximam entre si, sobrepõem-se e os cíclopes se entreolham, respirando confundidos...


... textos escritos e publicados anos atrás ...


... com cronopios ou sem eles...
? em torno de seu mundo de brincadeira, a essa grave ocupação que é brincar quando se procura outras portas...


Um, dois, três, quatro:
Terra! Céu!
Cinco, seis:
Paraíso! Inferno!
Sete, oito, nove, dez:
Tem que saber mexer os pés.
Na amarelinha, ou na vida,
Você pode escolher um dia.
Qual o lado? De que lado saltarás?


... outros acessos dentro do cotidiano, simplesmente para embelezar o cotidiano, para iluminá-lo bruscamente de outro jeito. Retirá-lo de dentro da caixa, definí-lo, de novo, e melhor.


... ? basta-me fechar os olhos para desfazê-lo inteiro e recomeçar.


... exatamente com sua boca que sorri por debaixo daquela que minha mão te desenha.


Um, dois, três, quatro:
Terra! Céu!
Cinco, seis:
Paraíso! Inferno!
Sete, oito, nove, dez:
Tem que saber mexer os pés.
Na amarelinha, ou na vida,
Você pode escolher um dia.
Qual o lado? De que lado saltarás?


... eu te sinto tremular contra mim, como uma lua sobre a água.

(Julio Cortázar e Gothan Project).

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Quem é ele?




"Em silêncio bebe, na taça,  o veneno..."

Esta mistura de encantos... Com uma aparência de bálsamo. Bálsamo de engano que destila numa mistura acre.
Bebe, e se embriaga de vaidade, duvida do tempo, das verdades e, cego, não olha para os lados ou para a frente... Para lá, lá para onde o seu olhar de anjo doce não tem visão do amanhã, onde sua descabida maldade vence seu desejo de ferir e mata com carinho como quem trucida por puro prazer; um prazer vestido de perversidade.
Tem sorriso lascivo, mãos ávidas transbordando de carinhos e de encantamento. Chora, ilude, confunde e diz que é feliz..."Na sua insana paixão" (é um ser tão vil...), seus seguidores são tantos... Os seus favores são acalantos e por isso ninguém desconfia da sua "oficina de mentiras", como é suave vê-lo ou beijá-lo, e como grande é dizer seu nome. Quando precisas dele aos teus pés se derrama, quando choras diz que é o lenço para todas as horas... É preciso ser sensível, desconfiado, ter olhos bem atentos ao seu cantar de pássaro do bem, pois ele canta com tamanha maestria... Que difícil é, duvidá-lo. E quando sai da tua presença ri... Da tua dor, do teu segredo, do teu inocente credo. Nada faz por ti de verdade, em nada é o que prega ser. Assim, como uma ave de rapina, vive e alimenta-se da podridão da própria alma. Saborear desamor é sua sina, seu feliz contentamento. Há em seu fluir todo um arsenal de cintilo, a sua voz é sempre mansa... Da sua boca jamais sai um não... A tudo diz sim, seu abraço entre palmadas quentes em suas costas ou ombros é um aplauso de bem-vindo. No seu coração habitam brasas... Na sua boca um gosto torpe, pois ele bebe, em taça, veneno para depois vomitar falsidade.
...E o seu nome? quem é este que nos parece um bom vinho, que seu perfume em aloés se espalha e nos chega em algum instante de desolação?
... Ou quando morrias ele te chegou feito a salvação; um lobo, em pele de cordeiro... É ele o "falso amigo", o mesmo que te dá abrigo ou mata tua sede e te dá pão.

(Ednar Andrade).

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Vem!



Vem viver comigo um grande amor...
Um destes que vira papo nos botecos,
Na boca dos desocupados... Dos invejosos,
Dos mal-amados, vem vamos causar libido
A quem já não tem, aguçar a malícia mundo afora.
Vem, vem logo, sem demora.
Meu sangue, carne, corpo, tudo... Implora.
Vem beijar minha boca agora!
Vem tocar meu corpo como se fosse teu violino,
Vem tirar dele notas que escuto sorrindo
E não te importes e não me importarei,
Com o que dirão de nós ou do nosso amor...
Vem amado, vamos viver
Um amor tão grande e conturbado
Que deixa o mundo abalado
E desperte a morte dos que vivem sem ser amados.
Vem, vem criar falácias, zombarias,
Conversas para os que não têm inspiração de amar,
Para os que, covardes, não têm coragem de amar,
Vem, deitemos, rolemos, deliremos,
Partamos velozes nas asas do desejo,
Vem, vamos apagar ardendo em fogo
Esta saudade que nos une.
Vem, vamos, vamos a algum lugar,
Vamos fugir de tudo e de todos,
Vamos acordar no nosso sonho,
Vamos despertar à luz do Sol,
Cansados da ânsia que nos consome,
Vem, não me deixe aflita,
Escuta este sentimento que grita
E te chama, vamos viver um amor...
Um amor imenso que não caiba
Em nenhum lugar, além de nós.
Um amor sem medida, sem hora,
Sem virtudes, errante, errado,
Não importa em que adjetivo for classificado.
Vem, e numa praia bem distante, deitemo-nos
Num lençol de areia morna que nos espera,
Onde ali, rolaremos nus... Até o mar...
Para, num mergulho, banhar a alma e salgar o sexo,
Temperado com gosto de mar,
Vamos sorver com delícia
O sabor deste prazer tão raro.
Vem, que esta vida é uma quimera.
Vem, vamos escandalizar a carne, os olhos
De quem nos vir passar,
Vamos sair de mãos dadas, livres...
Parando nas calçadas, dizendo versos, cantando,
Brincando com as palavras, como crianças
Comendo os doces carinhos que saem de nossas mãos.
Vem, por que nesta tarde, meu coração espera
Que a noite caia mansa derramando esta canção.
Vem, por favor, vamos olhar na face da verdade,
Dizer para qualquer um que passar por nós
Que este amor existe, com tanta verdade
Que, dentro de nós, já não cabe.

(Ednar Andrade).

domingo, 1 de agosto de 2010

Reverência ao destino




Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.
Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.
Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.
Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer.
Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.
Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.
Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.
Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...
Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.
Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.
Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.
Fácil é ditar regras.
Difícil é segui-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.
Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.
Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.
Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.
Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.
Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.


(Carlos Drummond de Andrade).

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Hoje



Quero da noite o dia,
Quero da boca o beijo,
Da lucidez a loucura mais louca
Até que a fome desta paixão
Me deixe torpe
Que me confunda em delírio
E tudo desague num rio,
Que de mim, lave o prazer.
Quero o livre “negado”
Voar, voar, vida à fora.
Sem presente, sem passado,
Olhar pro simples mais lindo,
Prová-lo com um sabor raro,
Viver da morte deste morto,
Que eu celebre para sempre este velório,
Sentindo na cabeça o gosto que a língua desconhece,
Quero me entregar nua a tudo que sou carente.

(Ednar Andrade)*****.


quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Mare e Tu




Sentir em nós
Sentir em nós
Uma razão
Para não ficarmos sós
E nesse abraço forte
Sentir o mar,
Na nossa voz,
Chorar como quem sonha
Sempre navegar
Nas velas rubras deste amor
Ao longe a barca louca perde o norte.

Ammore mio
Si nun ce stess'o mare e tu
Nun ce stesse manch'io
Ammore mio
L'ammore esiste quanno nuje
Stamme vicino a Dio
Ammore

No teu olhar
Um espelho de água
A vida a navegar
Por entre o sonho e a mágoa
Sem um adeus sequer.
E mansamente,
Talvez no mar,
Eu feita espuma encontre o sol do teu olhar,
Voga ao de leve, meu amor
Ao longe a barca nua a todo o pano.

Ammore mio
Se nun ce stess'o mare e tu
Nun ce stesse manch'io
Ammore mio
L'amore esiste quanno nuje
Stamme vicino a Dio
Ammore
Ammore mio
Si nun ce stess'o mare e tu
Nun ce stesse manch'io
Ammore mio
L'amore esiste quanno nuje
Stammo vicino a Dio
Ammore

(Composição: Dulce Pontes / E. Gragnaniello).



terça-feira, 27 de julho de 2010

Para ser grande, sê inteiro





"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"


(Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa).

domingo, 25 de julho de 2010

Orquídeas




Um frio que aquece,
Uma saudade que enternece
A minha alma já tão sem certeza da prece
Que reza.
Volto, mas não há em mim sorriso,
Apenas o poema, o gemido da frase que digo,
Com vontade de ficar.
Uma eterna saudade do cantar das aves,
Do coaxar dos sapos, do murmúrio da cachoeira que rola,
Do simples silêncio da lagoa.
E volto e deixo lá a minha alma partida
E trago no meu corpo uma dor
Que me suprime, há tanta saudade...
Uma eterna vontade de ficar, sem partir.
E eu não sei o que reviver para não morrer.
É a memória das noites em que me deito
E como se fosse um barco, flutuo em pensamentos,
Memória viva, da felicidade que perdi.
É um querer-ficar, não ter que partir
É uma dor mais aguçada que um punhal,
Que invade meu peito e traspassa
O meu irreal.
Ai... Que choro e neste gemido
Há muito mais que uma simples dor.
Há um querer-estar na terra,
No abrir de cada flor.
Ai... Há uma tristeza
E uma inevitável certeza
Da felicidade que voou.
Ilhota, casa minha,
Pátria, ilhota,
Como sinto de ti, saudades.
Mãe-pátria, casa minha, como te quero
E como choro, este não-poder-ter-te em mim e voltar...
És a minha aurora, o meu melhor poema, "lual...",
Onde a noite nua, consagra-se com a Lua
E derrama no meu peito
Este afã, desejo de feliz-ser.
Ai, meu Deus, quanto sofrer neste meu calar,
Quanta vontade de ir e ficar,
Sem precisar jamais voltar.
"Verde" que tanto amo... Hoje vi que minhas orquídeas
Preparam-se, como que, numa solene exaltação da natureza,
Agonizam-se para ser vida em plena Primavera que virá.
Como quero, olhar-te vida, subindo pelos cajueiros.
Lilás, lilases sinais, de orquídeas florescidas no amor.
Ai... Como desejo que em setembro, que anuncia a vida,
Que no calendário do meu coração partido
A vida que soa em notas, como uma lilás canção.
Brisa mansa que passa por mim, trazendo memórias
De cravos, jasmins...
Como quero de ti, doce poema, ser a rima
Que em ti tudo encerra neste meu ser
Que vive de amor, em guerra.


(Ednar Andrade).