sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Noturno



Insônia...
E essa droga de dia
Que não raia!
Ao longe ouço um carro,
Quebrando o silêncio da cidade
Que dorme, cansada, fatigada...
E preguiçosa.
Somente meu cérebro,
Nesta madrugada,
É quem continua o trabalho
Estafante e incessante de pensar.
Penso em tudo...
Trabalho, relacionamento, futuro...
O preço do pão e a origem do universo.
As horas avançam
Sem minha avença.
O tempo não pára
Para ninguém.
A calmaria das horas
E o negrume da noite
Aliada aos silêncios das coisas
Não são suficientes para dobrar-me
O cérebro e fechar-me os olhos,
Os quais, olho no espelho,
E já os vejo vermelhos.
O tempo não pára,
As horas avançam,
Mas o dia não raia.
Segue, lenta e sem-vontade, a vida...
E como esta madrugada,
Continua, para uns, sem que o Sol brilhe.

(Danclads Lins de Andrade).




quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Sabor de Sal...


Um cheiro de verão,
Mornas tardes, sentimentos na mão.
São dias lindos... Inesquecíveis tardes em familia.
Onde o Sol se despede com preguiça... E faz manhã...
Tardes, frescas tardes...
Onde a felicidade tem um sabor de sal,
Um marinho sabor...
Um gosto temperado,
Comum... Nas tardes de sal...
Que já anunciam o verão.
Minha verde mata tinge-se de azul,
O meu entardecer fica dourado como o Sol que aqui mora....
Caminho sem pressa nas minhas memórias,
Tudo é sentimento...
E me banho nos sonhos da minha lagoa de águas claras... Tão azuis...
Belo poema tingido, me banho...
Medito; pergunto; insisto... Permaneço e suspiro...
Adentro a mata, os rumos dos meus secretos sonhos, não há como fugir,
Não sei mentir. Lá fora há um mundo que desconheço,
Minha paz mora neste regaço de poesia,
Sou feliz, desfruto da mais pura paz...
A Lua faz poesia, meu coração cita os versos...
Rezo, rezo por ti, por mim...
E o amor me toma nos braços da saudade...
E ternamente choro... E adormeço...
E sonho...
Com o verão que logo vem...

(Ednar Andrade).

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Erótica



Meu corpo se aperta, quero teu beijo...
Faísca, lampejo, carne, tesão...
Quero, tua boca, teu cheiro, tudo de ti quero...
Adoro, venero, suplico e espero...
Vem, me diz que és meu,
Que meu corpo é teu...
Que tudo desperta...
Nosso amor, nossa festa... Diz:
Que sou o teu porre,
O teu lúdico e grande amor sublime...
O amor da tua vida... Vem com tua voz mansa, me agita, me alcança...
Me envolve, me encanta, vem...
Me canta...
Me deixa tonta, alerta, elétrica querendo-te em mim...
Ai... Me pega, me arrasta,
Não nega, me farta com o teu prazer...
Hum... Que saudade de ti, de nós...
A sós... E de mais ninguém...
Nas noites, nos dias, nas horas vadias...
Quero-te cada vez mais... Bem mais...
Ser tua mulher,
Ser tua amante, de hoje de ontem...
E apenas ser, como quiseres,
Sem pudor, sem vergonha, na cama, no mato, onde puder ser...
Somente tua, Meu Sol, tua Lua...
No paraíso deste querer...
Me aperta, me abraça, com as tuas pernas me enlaça...
Com teu hálito me nina....
Me põe pra dormir...
Me farta, me aninha...
Me leva ao céu do nosso prazer...
Meu doce veneno, meu homem, menino...
Meu doce segredo,
Meu abismo, meu medo...
Meu amanhecer,
Meu Sol tão dourado...
Tem cor de pecado...
Não sou sem você.

(Ednar Andrade).

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Nem Lua, nem luar



Calma
Silêncio...
Solidão; não... Cansaço...
Pausa, ausência, fim de tarde,
Saudade, cheiro, pensamento...
Vida, lugar, sentimento, partida,
Dividida. É meio tarde, quase noite... Nas nossas vidas,
Cai a tarde, não há Sol, não há Lua, nem Luar...
Só as lembranças desta verdade nua, crua, minha e tua.
E neste sem-fim, em mim, mora o mais doce poema,
Nascido destas mornas tardes,
Em que descanso meus versos de amar cansados...
E aguardo...
Agora chega mais mansa, a noite...
E com ela, a suavidade, uma música no ar, um perfume,
O doce aroma das flores...
A quietude me aconchega, se achega,
Me faz pensar mais e mais...
Em tudo, em nós, no tempo,
No descontentamento turvo deste lamento,
Me encontro e busco a paz neste verso,
Um olhar que perdeu-se no tempo,
Um gesto que ficou,
Do tempo, as marcas,
Da vida, o amor,
A viva flor, o suspiro...
E o incerto...
E mais uma noite.


(Ednar Andrade).

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Os Amantes...


Ser amante é ter o sabor dos doces poemas escondidos...
É ser a musa do eterno desejo; a pura flor do querer.
Uma agonia que acalma,
Uma dor que dar prazer,
Um querer no outro querer,
Ser a "borboleta errante"
E vagar no jardim da emoção mais louca...
Ser rainha de um só rei*
É um amar permanente que encanta a alma e faz pungente...
(Dolorido) o Amor.../
Ser amante é perder o sono para sonhar com o objeto amado...
É ter os beijos mais doces do pecado,
Fingir sorriso, quando chora...
Buscar, na permanente ausência, o fragmento que fica,
Fazer-se feliz com alma aflita...
Dizer versos quentes com o corpo gelado...
Ter no coração um perfume e uma grande saudade...
Olhar para o oceano e querer ser o barco,
Cantar uma canção e desaguar num rio de lágrimas...
Ser a preferida, o doce e o fel...
Num elo sem mágoas, apenas amar...
Amar... Amar...

(Ednar Andrade).

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Momento de partir...

Foto de arquivo pessoal - Ilhota.

Olha em volta e respira fundo: vai ter que voltar. O coração aperta-se-lhe e os olhos parecem querer gritar, sob a forma de lágrimas, um apelo para ficar. A partida é certa, existem compromissos que a esperam, uma agenda a cumprir, trabalhos a executar. Mas, se dependesse apenas e tão-somente de sua vontade, do seu sentir, ficaria, com toda certeza do mundo, no seu Éden pirangíaco.

Pressentindo a despedida – que em verdade será breve – as folhas do cajueiro cessam o farfalhar; o Sol ameniza, como que entristecido, a ardência abrasante de seus raios; o vento cessa, como em respeito ao momento da ida e a lagoa, por um instante, deixa de produzir ondas.

É hora de partir, deixar para trás a leveza desse jardim de sonhos, onde a realidade contradiz com sua vontade.

Arruma as malas, as coloca no carro e dá uma última olhada em sua Pasárgada: verde, repleta de plantas, flores, árvores, mas, também, com uma lagoa e um morro. Os olhos represos lhes traem e deles saem uma lágrima sentida.

Entra no carro, bate a porta, fecha o vidro, olha pelo retrovisor a imagem de seu mundo diminuir até sumir na paisagem. O caminho se abre para si como uma serpente de areia a guiar-lhe para longe de sua felicidade.

No coração um único desejo: ficar. Ficar ali, onde o verde representa todas as cores, onde o cheiro das mangabas traz todos os sabores. Ficar... Ali onde as manhãs acontecem como magia e o Sol lhe bate na janela com um dourado sem par.

A tarde caía e o Sol pintava de rosa o céu... O rastro preto da estrada a afastava mais e mais de seu paraíso... E partia... Com o desejo de ficar, mas a certeza da volta...

(Danclads Lins de Andrade).


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Um brinde à vida!



Acordo reflexiva... 

As chamadas aos dias, aos tempos, o natural calendário da memória me mostra, me faz viver e reviver... Naturalmente refaço a cama, que por sinal, bem desfeita, um hábito que não analiso de dormir em muitos lençois. Um jeito exagerado de enroscar-me neles (um aconchego aos travesseiros), um jeito manhoso que trago comigo. "Sorrio"; isso me dá um certo trabalho... Fazer ou refazer uma cama destas leva alguns minutos... E às vezes dá uma certa preguiça...Prossigo enquanto penso em muitos dias , que longe vão...Os dias desiguais, as portas e janelas da casa têm design diferente, assim como a vida e o seu passar como as linhas "varicor" que desenhavam e tingiam os bordados antigos dos panos da casa (REFLITO COM CERTA VAIDADE E SATISFAÇÃO), como se buscasse não a justificativa das coisas e sim uma concreta visão da vida (Agora).

Da vida (PRESENTE  SEM PAR), passagem de sonho, cheia e repleta de alegrias e sem faltar e com certeza as grandes ou pequenas, mas sempre tristezas... Destas, somos todos agraciados, não há quem delas escape, não há como fugir; este ruído nos segue sem que saibamos onde ou quando nos dará um abraço que preferimos nunca sentir... E como tudo nos serve de troféu... Abracei os meus e hoje os olho com uma lembrança de momentos que trazem consigo o crescimento e a destreza que a todos deve seguir (Experiências), e assim, O CAMINHO DO HOJE SERÁ SEMPRE... O HOJE, Costumo dizer (...)... E sigo, olhando de frente, observando os lados, vislumbrando, vez por outra, o que  deixei ou o que ficar para trás... Sem remorsos ou assombros com a alma alva dos perdões e gratidão, que a mim dou, porque é preciso que nos perdoemos, pelas falhas, pelos nossos apelos errados que nos põe diante da incessante procura do acerto.

(DAS EXPERIÊNCIAS) Delas e para elas o meu aplauso... Tornei-me mais forte, melhor em tudo, e assim a todos deve suceder... E neste contexto tudo conta e a vida encanta, como nas magias das inocentes crianças, nos proporciona uma viagem sem igual, repleta de horizontes que, sem eles, não saberíamos galgar... (Experiências) são os louros inevitáveis e bem vindos sempre, custe o que custar. São elas que nos empurram na direção da consciência e do real sentido do ser. São as grandes amigas, aquelas que nos mostram quem somos sem nos poupar com mentiras e afagos falsos... Aliás, falsos são os amigos que só sim dizem, e quando precisamos de um não eles caramelizam de um falso doce, nossos defeitos...  Elas não, elas SERVEM EM BANDEJA DE OURO NOSSAS FALHAS E IMATURIDADES PARA NOS TORNAR  CRISTAL VERDADEIRO... Assim sendo, são fundamentais na busca do melhor de nós. Imperfeita e aprendiz, sigo, penso... E vasculho os meus recantos dispersos e escondidos, na constante e transparente visão do meu "eu".

Sinto-me bem. Um garantido conforto borda-me a alma com linhas coloridas ainda que com desiguais tons (linhas varicor)... E vou tecendo este trabalho que é fazer a ordem voltar ao ambiente que considero "sagrado": o quarto, onde descansamos, a cama onde amamos ou sonhamos... Um lugar onde o carinho da paz nos visita.

(DAS LEMBRANÇAS... E dos prazeres, assim como  os bons vinhos, os melhores perfumes, que ficam impregnados na alma)
São os amores (que me perdoem os fingidos); não existe um apenas... Eles são ou foram tantos... Mas, alguns ficam presos na lembrança e vivos, latentes nos sentimentos... E nos chegam como suave perfume e nos sacode e acode nas viagens tão perfeitas que ficam perto o suficiente para sentirmos o perfume do objeto amado... E lembrar com precisão, o menor gesto, pequenos detalhes, sutilezas, que na memória não se dispersam... Ainda do perfume, falando, aquele amigo que partiu numa viagem sem volta... Aquele amor que, sem despedida, apenas se foi... E ficou. As amizades, a esta rendo minha homenagem e digo que - creio no amor das amizades; os amigos, falo de amigos verdadeiros, aqueles que nem o tempo, nem a distância, nem as diferenças os faz indiferentes ao tempo e a tudo. Vivos, habitam nos silêncios e na plenitude do sentimento mais profundo; aqueles que por toda vida nos seguem e nos seguirão, guardados na caixinha do coração, onde nem o tempo, nem a oxidação do fútil os corrói, quando expostos ao tempo e/ou aos temporais, onde nem as adversidades os faz distantes. "Vivos, permanecem", como patrimônio na sua essência. Pérolas, tantas vezes, pedra rara, são os amigos, que ficam como patrimônio na memória, bem real que segue conosco, enquanto dura o Sol da vida (tenho alguns assim)(...) 

DO TEMPO, aqui falo, expresso, está contido em toda extensão do meu pensamento - HOJE. 

*E a ele tenho total devoção*. 

DAS SAUDADES, estão contidas no contexto lembrança e nos servem em taças, como vinhos, o doce contentamento, de haver vivido momentos bons, sorrisos doados, sem restrições, "amados e vividos", não cobram de nós, nada. Acariciam o coração para demonstrar que continuamos vivos e, se algumas vezes, permeiam nosso espírito, nos trazem doces contentamentos; ingrediente indispensável para produzir emoção.

A SAUDADE é companheira. Em casos isolados, faz companhia, pois traz consigo as imagens e o contentamento do que se viveu. 

(Então, da vida, as experiências; 
Das lembranças, os prazeres; 
Das experiências, a lapidação e os louros;
Do tempo, a estrada para o hoje será sempre... O hoje;
Das saudades, o contentamento e a felicidade de haver vivido).  

CONCLUSÃO, viver é bom! É divino! Não há, em mim, espaço para mágoa, não tenho tempo para rancores; o amor me consome, o amar me diverte e adverte: "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã" (Renato Russo).

Aplausos, ao dom da vida! E, em especial, a alguns, todo o meu carinho, todo o meu apreço... 

Tim, tim!

(Feliz).

(Ednar Andrade).


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Jogo da Vida


O jogo da vida,
O jogo da fantasia...
Curiosamente,
As pessoas participam

Do jogo da maldade.
Também temos um jogo
Que todos passam por ele:
O jogo do faz- de- conta.

De conto de fadas;
O vestido da Cinderela,
Feito de seda;
O cabelo da Branca de Neve,

Da cor da noite.
As fadinhas que rodeiam
A nossa vida,
Em torno do Mundo.

Naquele tempo,
Mas depois
As fadinhas se desmancham.
E um dia,

Nada disso vai existir,
Não vai existir
Para umas pessoas.
Mas para outras...Não

A felicidade não vai existir
Para umas pessoas,
Pois vão ser jogadas
No caldeirão da Bruxa

E as outras da felicidade
Vão viver em águas cristalinas,
Sentadas em nuvens
De algodão doce.
Assim é o mundo.

(Ana Júlia).


* Ana Júlia é minha neta, minha grande companheira das travessuras, com criatividade à flor da pele e cria seus textos e faz poemas...Que, aos 6 anos, já se diz escritora e eu dou fé... Rs

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Grandiosas miudezas



“A estrada que leva ao hoje será sempre... O hoje” (Ednar Andrade).


Parou em frente ao espelho e se surpreendeu: viu no rosto uma imagem de mulher... Já com rugas, mas que, mesmo assim, guardava uma juventude desafiadora da cronologia: aparentava muito mais nova do que realmente o era. O tempo pareceu ser-lhe generoso e ela sentiu um acréscimo maior de auto-estima. Quis certificar-se de que os anos tinham passado e recorreu à sua “cápsula do tempo”: um pequeno baú que continha lembranças, objetos, testemunhas de um tempo ido e vivido.

Reminiscências... Fotos já em sépia; cartas com bordas arabescas escritas em caligrafia impecável, digna dos palimpsestos medievais; um relógio de algibeira com o vidro quebrado e os ponteiros congelados no tempo; cartões postais de onde esteve e as datas neles postadas indicavam a severidade de Cronos; e outros objetos amealhados ao longo de quase... Bem, a cronologia é dispensável, o que importa não são os anos acumulados, mas a vida aproveitada, o “carpe diem” levado a efeito.

Ah! E o que estas grandiosas miudezas testemunharam? Viagens, tanto no interior do país, como no exterior; seu casamento, dia feliz...; seu trabalho; pessoas que lhes foram importantes e que ela nunca mais verá... Isto a fez pensar, também, que a sua vida – como a vida de qualquer pessoa – nem sempre lhe passou em tons “rosáceos”, claro que a vida lhe reservou momentos duros que a tornaram mais realista e madura. Aprendera, ensinara e... Cansara. Agora extraía da vida os louros da experiência; um quase-nirvana que a despojara do que era inútil e vazio, deixando-lhe, apenas, o que é essencial.

A axiologia extraída das vivências lhe ensinara quais são os verdadeiros valores que devemos considerar. Amor, paciência, prudência, persistência, dentre outros tantos, se mostraram mais valiosos durante esta viagem temporal.

O rosto, ainda pouco macerado pela passagem dos anos, lhe empregava uma serenidade própria dos sábios que a distinguia dos demais com quem convivia. Sabia que a contagem dos anos, das décadas, por si só, não conferem às pessoas maturidade, experiência, sabedoria; é necessário ter “radares” capazes de captar e traduzir com leveza e precisão, e por que não com arte?, os ensinamentos de tudo que vivemos e reverter em nosso proveito. “O homem quer viver e viver bem”, pensara. Este pensamento socrático a seguiu durante sua vida, norteando-a. E conseguira até ali um acordo com o tempo, extraindo dele o melhor e sabendo que não seria cobrada do que a vida não lhe tivesse dado.

Pensou em tudo isso e resolveu recolher suas lembranças, seus “portais temporais” e encarou novamente o espelho, mas, desta vez, com menos espanto e mais satisfação, pois tinha a certeza de ter contribuído para ser tão cúmplice do seu espelho e sem mágoas que a fizessem sofrer, olha-se, sorri, perfuma-se e sai num passeio matinal feliz, e sem olhar para trás... Pensou e disse em baixo tom de voz uma frase, para ela bem familiar:

“A estrada que leva ao hoje será sempre... O hoje”.

(Danclads Lins de Andrade).




domingo, 17 de outubro de 2010

Casquinha de limão




Casquinha de limão,
E uma presença viva
Em mim.
Dá para sentir o cheiro
Do forno de lenha,
Onde ali assava...
Um bolo,
Que maravilha de bolo!
Que sabor inesquecível!
Casquinha de limão...
Farinha,
Manteiga,
Gemas,
Açúcar,
Leite quente,
Casquinha de limão...
Claras em neve,
E depois de tudo batido,
A disputa pela bacia em ágata,
Lavrada em verde,
Para lamber,
Para degustar,
Não sei se era melhor
Que o próprio bolo.
Um troféu e a colher de pau,
Hum... Deliciosa colher,
Delícia, lembro...
Onde Tia Zefinha
Batia o bolo.
Depois do bolo pronto,
Eu olhava para aquela delícia...
Hum...
Um cheiro de limão no ar,
Com passas esparsas,
Quase um sorteio,
Um bolo pronto,
Passinhas no bolo,
Um dourado,
Como contracapa,
Mais parecendo moldura,
Um dourado inesquecível.
Ali estava posto,
Saía daquele forno
À lenha.
Família reunida,
Café no bule de ágata,
Café da tarde.
Doces tardes,
Tardes dominicais
Que até hoje me trazem
Do limão,
O cheiro da casquinha.
Casquinha de limão...
Bolo amarelinho,
Agora em fatias,
Enfeitando a mesa,
E todos comiam
E alguns queriam mais
E a velha tia dizia:
“Chega”.
Quem não tem na lembrança
Momentos assim,
Não viveu,
Nem foi criança.
Bolo batidinho, feito à mão
Com casquinha de limão.

(Ednar Andrade).