terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Flamboyant


Era uma casa branca,
De muro baixo,
Na rua de barro ocre,
Com um flamboyant
De flores vermelhas
Á porta.
Era um menino,
Esperto e franzino,
A brincar de bola
No ocre barro
Da rua.
Era o tempo,
Que amareleceu
Todas estas imagens
E as levou na poeira...

(Danclads Lins de Andrade).


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Quase Natal*



Uma taça de vinho,
Uma saudade,
Um poema,
Mais uma taça,
Quem sabe?
Um verso,
Um alinho,
Um contraponto,
Um desalinho,
Um riso,
Uma saudade,
Outra de vinho?
Quem sabe?
Verdades,
Cantar,
Sonhar,
Rever amigos,
Abraçar,
O olho no calendário,
Já é dezembro,
Falam de festa,
De riso,
De cores,
Amores,
Desamores,
De idas e voltas,
De noite,
Deslumbres,
(menos do menino).
Vislumbro:
O tempo... A vida...
O hoje, a noite...
... Os pensamentos,
Quase natal,
Dizem.
A vida é um sonho,
Suponho.

(Ednar Andrade).

domingo, 5 de dezembro de 2010

Beija-flor: autorretrato


Era assim tão pequenina,
Tão frágil,
Borboletinha saltitante,
De flor em flor,
De beijo, em beijo...
A todos abraçava,
E o sorriso, sempre foi
A sua expressão maior...
Pequenas mãos,
Pequenos gestos...
De tão pequena,
De beija-flor,
Assim lhe chamava,
Sua mãe...
Haviam aqueles
Que, de sabiá,
Lhe chamavam.
Pois, desde menina
Gostava de cantar.
Cantava, desde menina,
Criava versos...
Versos de menina...
Fáceis de soletrar.
Tão amada!
Com asas coloridas,
Pintadas pelos sonhos;
Assim era feliz!
Doce menina...
Hoje, lhe dizem
Que a sua sutileza,
Transformaram-na
Num poema.
“Poema anônimo”,
Com versos,
Com rima,
A vida lhe fez.
Deixar de ser menina,
Ser mulher, viver.

(Ednar Andrade).

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Leve...


Pegar a nuvem,
Pegar carona, na nuvem...
Ir, até o espaço,
Infinito,
Onde de lá,
Assistiria a beleza
Que é existir.
Subir mais alto,
Mais alto...
Cada vez, mais alto...
Ir para tão longe...
Tão alto,
Que de lá,
De nada sentisse, eu,
Saudades... Ou pesar...
Depois, cair no espaço
A flutuar, flutuar,
Flu-tu-ar...
Tão leve,
Assim... Como, uma pluma...
Quem sabe, cair, cair...
Cair... Suavemente...
Nos braços da felicidade,
Da felicidade, disse?
Pois é, quem sabe,
Se ela existe?
Mas, pra que saber?
Então, continuaria caindo,
Caindo,
Até... Cair.
... E... Feliz, então, sorrir...
E continuar sorrindo
E agradecer
Pela felicidade de
Viver.

(Ednar Andrade).       

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Feito um Cão


Bate o meu coração
Assim como um louco,
Assim como um trovão
E eu ouço um gemido de agonia...
Meu sangue e carne esfriam,
Como mergulhados no gelo,
Como se perdesse o controle, 
Em tamanha emoção.
Bate meu coração
Dilacerado, aflito
Feito um cão;
Um cão que uiva na noite
E a escuridão.
Há um alarido neste som magoado
Que só escuta o meu coração.
É sangue, dor, saudade;
Saudade viva numa ave morta.  
E um âmago aflito.
Alma agônica,
Um paiol de saudade.
Existem em vão
A sempre-viva, amarela, morta,
Cristal, transparência, que não vejo
Em meio a constatação.
É uma presença errante;
Uma flecha que parte,
Para por outra no chão.


(Ednar Andrade). 

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Escrever, desenhar... Pensamentos...


                                                      Escrever 
                                                         É  
                                                            Desenhar 
                                                              O
                                                                Pensamento 
                                                
                                                                  (Ednar Andrade).

Simples assim


Simples assim, como tudo que é grandioso pode ser muito "simples", não precisa ser grande, basta ser "grandioso."

Tão infinitamente supremo como o amor, sentimento que não se explica. Falo do "amor", não de amor... De amor falamos ou falam todos, confessam, pintam, bordam... Mas, simples e "grandioso" sentimento, anda em falta.

Nas prateleiras, camisinhas estão à venda e há quem chame sexo de amor, quem veja ou tenha com elas afinidades, eu, sem drama e sem pretensão, prefiro amar, a ter ou não razão. Simples assim, é preciso ter simplicidade para ter ouvidos.

Assim (nesta manhã) concluo: é preciso ser grandioso para não ser apenas grande.

Olhar em volta e sentir-se amado, e grandiosamente ser feliz, feliz como as ondas que vão e vem num balanço desigual, sem questionar.

Apenas ser grandioso e feliz, fazer também.

(Ednar Andrade)*****

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Movimentos e versos



Olho-te,
E assim permaneço
Por longo tempo a pensar...
Tua beleza é ímpar,
Teus verdes braços
Para mim, acenam...
Induzindo o vento
A me beijar a face...
Num doce balanço
Em que tuas palmas
Parecem crinas...
Em teu tronco
Agitas o vento,
Numa dança toda tua,
A natureza te fez
Para por vida
Na vida,
Teus movimentos são versos,
Poemas, acalanto...
Num indispensável balé
Teço estes versos
Que careço,
Para me sentir livre.
E mandas que o vento
Passe por mim
E deixe uma carícia...
E fazes gestos
(Parecem feitos para mim)
Que leio com saudade.
Velhos companheiros,
A tudo assistes
E persistes:
Ao frio,
Á seca, ao deserto,
Ao apelo de tudo.
E neste teu movimento,
Me amparo.
Tua sombra é o refrigério
Da minha alma...
Do teu som,
Saem notas verdes
Dentre a folhagem...
Coqueiros...
Seu balanço me anima,
Me aninha, me acalma.
De ti, vem um sussurro
Que me acaricia a alma,
Das tuas palmas;
O palco que pintas
E uma harmoniosa natureza,
Singela beleza que amo mirar.  

(Ednar Andrade).



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Infinito no verso (reverso)



Minha alma está doente... E a cura só vem quando declamo, quando rasgo a dor com poesia... Ontem, de tão triste, o meu peito abriu, e num descuido meu coração partiu, despencou da prateleira do amor, fiquei gemendo... Deitei-me no chão da minha saudade... Com tanta dor... Que o mar, o vento, as estrelas, todos os astros, vieram ao meu socorro... Quando tudo que eu precisava era ver e sentir o calor do Sol... Deixar meu corpo se banhar da sua luz... Iluminar os meus desejos com seus raios em fogo.  Beijar a boca da carne nua e por, dentro de mim, a sedução daquele olhar que não vejo. Ai... Ontem uivei como uma loba perdida dentro da escura noite. Engoli meu pranto para não acordar o meu segredo e chorei baixinho; abracei o meu lençol...  Havia nos meus olhos uma ferida aberta; uma fenda que deixava escapar um rio transparente de agonia. Como desejei que fosse dia... Dia de correr no campo como um bichinho brincalhão, uma borboleta livre, pássaro cantante dentro da mata, ver passar o dia como que mirando as águas de um rio que conheço e deságua em minha emoção, levando na correnteza as mágoas e o frio da espera infinita de ti.  Dia de ser o teu barco náufrago e, nestas águas mornas, ficar em tuas mãos como um pequenino barquinho. Dia de ser viçosa como a flor bela da manhã, ser como a aurora que se mistura ao dia. Ser singela como a flor do campo, que alguém descobre sem saber o nome e ser apenas silenciosa... Nos ruídos do amor e no seu contentamento, ser profundamente amada na relva dos teus desejos. Como sonhei com o carinho mudo que de tua boca viria me fazer chover de emoção, de felicidade e de paixão, mas a violência da saudade mata a realidade sem perdão, sem escrúpulos e sem permissão. Cruel castiga o peito, fustiga, faz escorrer um fel dos olhos que desce e atravessa a garganta e vai até o lugar mais fundo da alma, o lugar mais escondido do amar... Invade-me como uma espada dentro da noite a rasgar-me as feridas feitas das lembranças... Sento-me no pó deste inferno, para tecer a trança infinita deste sentimento algoz e íntimo, num duelo de constatação.

...É desta dor que me habita, que me alimento e respiro, bebo, nesta fonte “indesejada que desejo” (e quero tanto...). E morro e vivo, para renascer plena de todos os suspiros e sussurros que me faz este sentido, que ora beija, ora bate na face de forma escancarada e contida; diálogo mudo que travo com o mundo; frases escritas com saudade e medo num desespero que me arrasta calmo, que empurra ao tudo, e ao mesmo tempo ao nada que podemos... Assim, com o coração em fragmentos, sigo, segues, como que juntando os destroços em total tristeza; a carne em lamentos, querendo tanto este querer permanente em mim e em ti. Não sei se há nele bênção ou maldição, mas sei o quanto nos queremos sem pensarmos na razão. Somos conduzidos pela mão suave e perigosa com infinita paixão algumas vezes lascivo, cheio de luxúria carnal, ardentes e céticos de outros sentidos, não há neste sofrer lamento mais gemido do que a dor deste querer... Um querer errante, pagão, maciço, barulhento como é, fez-se trovão, e acordou em nós, partindo o coração, maré, enchente desperta na noite, sai pelas narinas em forma de ar... Perfumando as rosas, fechando ou abrindo abismos, nos faz, deste olor, amantes... Sublimemente perdidos. Não há como medir, só sentir, e mergulhar cada vez mais... E de tanto querer, almas sem juízo, sem juiz que o julgue, viver com verdade este delito, sem culpas, ilhados na cumplicidade tocar a carne quente dos que descem ao inferno, para chegar ao céu do amor sonhado.

(Ednar Andrade).

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Pátrilhota


Sinto inveja da Lua
Que mergulha naquele mar;
Banha-se na lagoa.
- Ai como quisera agora estar...
Ao frescor desta noite
Mirando, sentada na grama,
O canto de alguma coruja
Ou o piar de algum pássaro
Perdido que, distraído, caiu do ninho.
Como quisera eu agora,
Na penumbra do terraço
Olhar pro chão e ver o bordado
De prata com os efeitos da Lua.
Como quisera sentir o cheiro
Do mato, o arrepio do frio,
A solidão da sala, a luz apagada.
Como quisera neste instante voltar
Como num filme a vida mansa,
Ter a presença dos que já não tenho;
Ouvir do cão, o latido.
Aquele cão, tão pequenino,
Que cuidei como menino.
- Ai como minha alma sofre
E sente e quer a felicidade
Que o destino levou de mim de forma bruta (meu irmão e meu pai).
-Ai como gostaria de armar a rede e cantar
Até que um certo anjo adormeça em meus braços (Julinha).
Um anjo magrinho, de braços longos, olhos pretinhos,
Cabelos lisos e da cor do Sol e sorriso belo.
Ali, no mesmo lugar, onde vi crescer o meu anjo Gabriel
- Ó Lua, tu que me vistes nua!
- Ó vento, tu que trouxestes em teus redemoinhos
O perfume das flores silvestres,
Vem nesta noite para meus sonhos
E me faz crer que a felicidade continua.
Que o meu sofrer nada tem de verdade;
Que tudo isso é só saudade e que logo vai amanhecer.

(Ednar Andrade).