sábado, 26 de março de 2011

Renasço


Perdida,
Busco
A luz
Da tua
Cega
Faísca.
Sou como
O vento:
Vagueio,
Sem porto,
Sem tempo
E sem hora.
Sou como
O cão:
Farejo,
Sinto.
Sou como
A cobra:
Rastejo,
Busco,
Guardo
Veneno.
Sou como a rosa:
Amanheço,
Apago,
Durmo,
Morro,
Renasço.

(Ednar Andrade)
(27*02*2011).

quarta-feira, 23 de março de 2011

Poesia


Até parece sonho,
A verdade que componho...
Alma transparente,
“Pele nua”, traduz meus sentimentos
Sem nenhum pudor.
Como verso, pura quimera... Diriam...
... E a vontade de viver.
A rima é o contra-verso... E o re-verso.
Se é para falar, silencio...
Se é para rir, choro...
Se tiver saudades, canto...
Se vier o medo, sigo...
Sem olhar para os lados.
Meu pássaro alado,
Meu mais velho invento...
Assim sigo, segues
Como irmãos e filhos,
Mãe e pai do tempo,
Aprendizes, somos.
Vagos de incertezas;
Plenos desta prosa;
Pobres de ilusão.
Coragem,
Loucura,
(Coração de poeta),
“Corpo de mulher”,
Sentimento em universo.
(Solto dentro da prisão
Abstrata do amar...)
Parece sonhar o poeta,
Quando diz
A mais pura flor da verdade
Em seu sonho.
Esbarro, num caudaloso rio de mim
E, não me banho...
Meu leito vira rio
Para o deleite do espanto (...)
A minha melhor prece é a poesia,
Onde planto versos
E colho rimas.

(Ednar Andrade).

terça-feira, 22 de março de 2011

Cigarra


Cai noite,
Canta cigarra,
Chora meu peito,
Deságua mágoa.

Chora teu canto,
Te desfazes em poema
Te desnudas em  noites claras....
Clara é a Lua

Escura é a mágoa
CANTA OU CHORA CIGARRA?
Se cantas, choro
Se choras , guardo... Aguardo...

Espero.
O  desencanto, a noite, o mistério
Meu doce e sempre
Como és ,canto ...

És sonho, és noite
De escuro céu,
Desabrigo
Em clara noite

CIGARRA;
Deserta mágoa,
Cantar noturno
cantas, eu choro...

(Ednar Andrade).

Retalhos


Hoje… Só a boca fala,
Só o acaso resume
Sobras de alguma alegria.
“Pedaços de partes perdidas”.

Hoje, talvez, as feridas,
Feito um cão, dando lambidas,
Procurando, talvez, sará-las,
“Diminuí-las”… Curá-las.

Retraços deixaram traços,
“Fizeram-se marcas vividas”
Em páginas de minha vida
Tenho um olhar bem marcado,

Manchas que a água não lava
Que nada consegue por luz.
“São sobras de tanta ausência”,
São noites pra sempre perdidas,

Lágrimas gravadas no pano,
Pedaços de tantos sonhos,
Olhar perdido no verde,
Retalhos da minha vida.

(Ednar Andrade).

sábado, 19 de março de 2011

Gaivota

    Quadro Gaivotas, de Jorge Marcovitch.

Infeliz gaivota
Que voava errante,
Perdida no céu...
Sem ter,
Não deu amor.
Mas hoje, velha ave
Que fraqueja:
És triste
E é triste
Ver-te assim:
Lânguido,
Sofrido,
Pois já não voas.
Como uma cobra,
Rastejas.
Lamentas triste,
Perdeste a beleza
E já não cantas,
Nem és sonhador.

(Ednar Andrade).

sexta-feira, 18 de março de 2011

Ablaze



This love 
Burns. 
It is like fire; 
It's missing ... 
Want, 
Needy ... 
Thus: 
Without reason 
Emotion 
Passion 
My love ... 
My man 
My secret 
My silence 
My fear 
Wish 
Noise 
Beast 
My wolf 
My male 
I am your female 
In the flesh that burns 
Groaning and wants you ... 
What dreams, hopes, loves you 
Devour me 
Come ... 
Come .... because I'm yours 
Anytime ... 
Anywhere 
When you want ... 
In bed 
In the dream .... 
Groaning, wishing you here. 
In my own sex, burning ... 
Loving in the night ... doing ... 
I even shed 
... get rid of our enjoyment ... 
  
(Ednar Andrade) 
.


Casa pobre


Era uma casa de pobre
(Ninguém tinha um sonho “nobre”)
Amor... Lá isso tinha,...
Um alpendre, onde à tardinha

Via-se o Sol morrer,
A cajazeira... De frutas docinhas...
Um tapete de folhas no chão;
O olhar perdido no verde,

Tempos... Que longe vão...
Que ninguém pode esquecer,
Vida (“já foi viver”)

A harmonia desses dias,
Caminhar longe do hoje.
Onde está a casa pobre?

(Domingo, 03.08.1984).
(Ednar Andrade).

quinta-feira, 17 de março de 2011

Borboletas...


Jardins e margaridas, quintais, beija-flores, borboletas e poemas. Corria com total euforia, inconsciente fantasia que a fazia aprisionar borboletas; uma escura intenção (uma não clara evidência), elas chamavam-lhe a atenção.


Coloridas, belas, livres. No seu coração não havia o perverso instinto da prisão.

A vida entrava e saía pelas narinas numa perfeita harmonia de “ar e liberdade” e, por tantas vezes... Sentia uma angústia, um desconforto incompreensível por elas: asas, liberdade, vida, vôo, porque prisão? Porque aprisionar o belo? Para que tornar inerte, sem vida, um ser tão belo?

Mas, entre flores e quintais, estavam lá as suas presas, não que quisesse matá-las, mas uma necessidade de tê-las, de admirá-las, também traduzi-las, entendê-las, quem sabe... Aprender, com elas, o segredo de ser livre? E, por isso, as surpreendia. Olhava-as com uma certa dó, até pedia desculpas.

Não sei se por amá-las tanto ou por não saber como frear estranho sentimento de posse.

Borboletas: sinônimo de liberdade, sinônimo de belo.

Num gesto rápido, trêmulo, frenético, segurava a presa. A borboleta debatia-se e ela, angustiada, pedia-lhe calma. Depois, no inconsciente movimento, dirigia-se à estante, abria um livro e ali depositava aquele poema, porque era um poema. Nunca entendera o movimento de tal comportamento. Por que não deixar livre coisinha tão bela...?

Depois, passadas horas, voltava ao livro, retirava de lá aquela pérola e a admirava... Era como um poema, conversava com ela, num gesto “quase esquizofrênico”, dizia-lhe coisas nunca dizíveis, nunca reveláveis a alguém. Entre ela e a borboleta, ela sabia havia um sentimento comum: a vontade de ser livre. Pobres borboletas que, sacrificadas, viravam poemas...

Ali moravam, dependendo da sorte, com Drummond, dependendo da sorte, com Vinícius... Dependendo da sorte... Um mundo tão encantado, onde se misturavam a dor e a poesia. 


Felizes borboletas...

Sacrificados poemas...    


(Ednar Andrade).

Sol & Lua

  

Eras uma dor,
Eras uma mágoa,
Uma tristeza
Profunda
N’alma.
Mas, tu
Eras o Sol
E só raiavas
Ao dia.
Então,
Eu, na noite
- Lua sem companhia -
Sempre esperei
O raiar
De um novo dia.
És a sombra,
Chegas-me
Sorrateiro,
Sem avisar,
A qualquer hora
Do dia.
Afloras
Na minha guerra,
Na minha ausente paz.
Chegas-me como a bandeira
Flamejante em chamas,
Em luz
E eu, pequena estrela,
Rendo-me à tua forte,
Flamejante luz.
És como o dia:
Grandiosa aurora,
Airosa,
Rósea,
De cores mil.
Decifras
Em tons
Minha paz,
Meu eu,
Meu nada,
Meu sempre,
Meu eterno
E sempre ser.
Ser como sou.
Ser como queira ser.

(Ednar Andrade)
(27*02*2011).

quarta-feira, 16 de março de 2011

Sobre teu peito



Chegou  sem bater.
Abriu a porta da minha manhã,  entrou.
Entrou roubando  o brilho do Sol.
É como um vento Sul "bem Norte"...

Desnorteando tudo...
Todos  os desabrigos do  ser,
Arrasta , impele, remete...
Ao calor do teu peito quente
E ao aconchego da tua respiração...

Juro, deitaria e isso hoje bastaria: 
Olhar teus olhos,
Ouvir tua voz,
Beijar tuas mãos...

Depois em total silêncio, sentir teu abraço
Ouvir teu coração
Sentir-me assim suave...
Sem  saudades e sem razão...

(Ednar Andrade).