quarta-feira, 27 de abril de 2016

Livre


Voou para o infinito
Um pássaro aflito,
Fugiu da prisão.

Voou, bateu asas,
Deixando a saudade
Nos corações.

Pássaro alegre
Cantava.
Cantava chorando,
Chorando, cantava.

Vai pássaro alegre,
Vai para o infinito.
Teu medo, teu grito,
Deixastes também

Agora só cantas
Com os anjos no céu.
Sem dor, sem sofrer,
És livre, então.

02/11/2015*


(Ednar Andrade).

Tolices


Eu dizia coisas que não sei mais dizer.
Acreditava em sentimentos
Que hoje chamo de tolices.
Amava com um jeito absurdo e inocente.
Chorava quando era pra cantar.

Algumas coisas tristes,
Guarda-se na memória
De forma inevitável
E viva, como um vídeo-teipe.

Eu queria como quer uma criança,
O doce da vitrine ou a boneca mais linda,
A felicidade inexistente.
Chorava de emoção ao ouvir

Uma canção de amor
E pensava na vida como quem pensa
Num bosque…
Vivia a primavera como quem faz um poema

E beijava como um beija-flor,
Sugando da vida o néctar.
Um barquinho visto de longe,
Era como uma embarcação

Cheia de sonhos.
Aí, a vida chega, o tempo passa
E o que resta da festa
É o que a ninguém basta.

(03.08.2011).

(Ednar Andrade).


Nada é igual*


Aquilo fazia parte natural de um cenário vivo.

Cada centímetro de memória brota ainda nos finais de tarde, como um azulejo, na parede do quintal, os minutos espreitam a hora mais suave da Ave Maria*

O Sol parecia nos convidar para uma festa, acompanhados pela passarada, ouviam-se todos os cantos.

Do bem-te-vi ao rouxinol, uma festa ardia, numa melódica canção de pi, pi, pis… Uma algazarra rotineira, por toda parte. Aguardo a noite, que logo virá como nos romances entre folhas secas e florais em sépia.

Sentados como parte da paisagem, olhando em volta os pequenos ruídos e murmúrios das águas da lagoa, observávamos a natureza sabiamente pintando o céu em tons de azul e vermelho, tingindo de outonais cores e brilhos, o anoitecer.…………….

Respiro, sentindo na boca um sabor delicioso de pitangas maduras. As cercas são feitas de avelós, não existem portas, nem trancas em nenhuma parte.

Tudo é tão simples, tudo tão sereno, a mata vai silenciando e trazendo, no vento, um cheiro doce das mangabas caídas entre as folhas cor de sonho (sépia) por toda parte, e um prolongado canto de cigarras a ciciarem, elegem o canto da última sabiá buscando no ninho, o aconchego dos filhotes.

Agora a calmaria quase me mata e morre em meu silêncio, sou como uma prece que faço sem dizer palavra, apenas com o olhar quase em mantra, me aquieto também.

Não fico triste, mas a estes momentos, guardo um sentir tão profundo, um respeito de quem vê a mãe no abraço do anoitecer. E penso com um sorriso de felicidade em tudo que permanece como está, mesmo quando não estou por cá.

Puxo uma cadeira e sento-me, agora estou no meu abandonado jardim. As flores andam desbotadas e tão frágeis, como quem sente falta dos olhares que as faz serem belas. O jasmineiro morreu, as orquídeas resistentes aguardam uma nova primavera. Uma taça de vinho, quem sabe outra…

A natureza desnuda com desvelo e graça as fruteiras do quintal e um cheiro de folhas molhadas, pela última chuva, anuncia um novo outono; tudo é como antes e nada é igual.

Olhei, buscando algumas imagens, como quem garimpa uma pepita de saudade. Ela está em toda parte, onde todos os detalhes estão postos como num cenário projetado para sonhar.

(Ednar Andrade).


Lúdibre


A vida?
Já não me engana.
Ela é uma cama de espinhos,
Onde deitei meu corpo são
E despertei chagas e medo.
A vida?
É um espelho que ilude e brilha
Ludibria
Poção viscosa de morte.
Taça doce de veneno e fel.


(Ednar Andrade).

Quietude


É como um vago que não habito
E estou.
É como um riso que choro
E dou.
É como a quietude…


(Ednar Andrade).

(In-Sanidade)


Bendita a loucura
Que rasga meus poros
E o peito
E me derrama
Sobre a mentira real.
Bendita seja
A fome desta agonia
Que, como um bordão,
Ama e maltrata
Noite e dia.
Bendita seja
A insanidade pura
Desta santíssima
Mão vazia.
Sejam benditas, sim,
Todas as sombras
De ti que há em mim.
Que eu coma, respire
E viva louca.
Encontre-me perdida
Sem nunca encontrar a volta.

(Ednar Andrade).

Entardecer...



… Mas tu sumistes
Na multidão dos felizes
E eu debrucei-me a mirar
O pôr-do-sol
Da minha janela.

(Ednar Andrade).

Poema das 24 horas



… É que nos ponteiros de mim,
amanhece,
anoitece.
… Amanhece,
… Anoitece
… Sem hora.

(Ednar Andrade). 

Somos



…Um poema em carne e osso
Mãos carregadas de gritos
Versos; silencioso pranto
Tanta vida, tanto desencanto …
Tu e eu nesta vida.

A vida e nada, além do nada ser;
Somos.

(Ednar Andrade).

Desvarios



Aqui pra nós: ando com as flores meio desbotadas. Por isso tão lenta…….

Mas tudo passa. Desculpe-me as demoras, as paradas da estrada >>>>. Nem tenho escrito, nem reparado nas flores; as pedras, vez por outra, atrapalham os caminhos, machucam nossos pés, ainda mais eu, que costumo pisar descalça pela vida. Me pego com o olhar preso no cinza das chuvas, sem notar que brotam no campo de tantas várias cores; novas flores.

Há um desvario que se faz rumo e quando este fenômeno me acode, destono dos meus acordes, dos meus sons, então como uma valsa descompassada, me desalinho até nos cabelos. E desço mar a fora feito rio fora do leito, acidentando tudo pelas vielas. Deslizo como o lodo e me escondo no verde musgo da minha morada secreta e profunda, sem me suster do risco e dos perigos vastos e paro nas encostas dos meus desabrigos, juntando-me aos veleiros aquieto-me, calo e sonho com o Sol que torna luzente o negro das noites caladas .

Eu sei, alguém já me disse que o meu sem som, chega ser glacial, que meu sem luz, acende o medo e a interrogação, talvez cause espanto, pois tudo que parece abismo me é refúgio no meu habitado mundo de ausentes calendários e remotos vagares.


Para mim, é tão e apenas um inevitável e quente travesseiro, onde deito o corpo cansado e adormeço as ausências de cores.

(Ednar Andrade).