Aquilo fazia parte
natural de um cenário vivo.
Cada centímetro de
memória brota ainda nos finais de tarde, como um azulejo, na parede do quintal,
os minutos espreitam a hora mais suave da Ave Maria*
O Sol parecia nos
convidar para uma festa, acompanhados pela passarada, ouviam-se todos os
cantos.
Do bem-te-vi ao
rouxinol, uma festa ardia, numa melódica canção de pi, pi, pis… Uma algazarra
rotineira, por toda parte. Aguardo a noite, que logo virá como nos romances
entre folhas secas e florais em sépia.
Sentados como parte
da paisagem, olhando em volta os pequenos ruídos e murmúrios das águas da
lagoa, observávamos a natureza sabiamente pintando o céu em tons de azul e
vermelho, tingindo de outonais cores e brilhos, o anoitecer.…………….
Respiro, sentindo na
boca um sabor delicioso de pitangas maduras. As cercas são feitas de avelós,
não existem portas, nem trancas em nenhuma parte.
Tudo é tão simples,
tudo tão sereno, a mata vai silenciando e trazendo, no vento, um cheiro doce
das mangabas caídas entre as folhas cor de sonho (sépia) por toda parte, e um
prolongado canto de cigarras a ciciarem, elegem o canto da última sabiá
buscando no ninho, o aconchego dos filhotes.
Agora a calmaria
quase me mata e morre em meu silêncio, sou como uma prece que faço sem dizer
palavra, apenas com o olhar quase em mantra, me aquieto também.
Não fico triste, mas
a estes momentos, guardo um sentir tão profundo, um respeito de quem vê a mãe
no abraço do anoitecer. E penso com um sorriso de felicidade em tudo que
permanece como está, mesmo quando não estou por cá.
Puxo uma cadeira e
sento-me, agora estou no meu abandonado jardim. As flores andam desbotadas e
tão frágeis, como quem sente falta dos olhares que as faz serem belas. O
jasmineiro morreu, as orquídeas resistentes aguardam uma nova primavera. Uma
taça de vinho, quem sabe outra…
A natureza desnuda
com desvelo e graça as fruteiras do quintal e um cheiro de folhas molhadas,
pela última chuva, anuncia um novo outono; tudo é como antes e nada é igual.
Olhei, buscando
algumas imagens, como quem garimpa uma pepita de saudade. Ela está em toda
parte, onde todos os detalhes estão postos como num cenário projetado para
sonhar.
(Ednar Andrade).