sábado, 19 de dezembro de 2009

Vou-me Embora pra Pasárgada




Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei


Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá um Existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive


E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei nenhum pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando cansado Estiver
Deito na Beira do Rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada


Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir uma concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei --
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


(Manuel Bandeira)

Texto inspirado em conversa com Paulinha.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Uma Festa Dentro de Mim




    Foto de Danusa Leão, na Revista Contigo!


Resolvi dar férias para as dores, 
tristezas e decepções. 
Cansei de ficar reclamando, de achar 
culpados para a minha angústia. 
Resolvi mandar tudo plantar batatas e decidi: 
vou fazer uma festa dentro de mim! 
Prá começar eu vou para o espelho 
ensaiar o meu melhor sorriso, 
vou retirar essas marcas da minha testa, 
vou jogar fora essa máscara de dor 
que me acompanha há tantos dias, 
e preparem-se: eu quero é ser feliz, 
quero conhecer pessoas como você que é alegre, 
pra cima, alto astral, pra falar a verdade, eu também era assim, 
até que uma decepção me jogou para baixo. 
Mas, hoje eu não quero falar de tristeza, 
quero saber é de coisas boas, quero ir ao cinema, 
sabe há quanto tempo eu não vou ao cinema ? 
E tem mais, eu vou escolher o filme, chega de "gente" 
ficar escolhendo o que eu quero. 
Hum ! Acho que vou passar no cabeleireiro antes, 
vou pintar os cabelos, cortar umas pontas, 
vou me agradar, só para o meu prazer. 
Engraçado, agora que eu falei nisso, 
sabe que eu estava em um relacionamento 
onde eu fazia tudo para agradar a pessoa que estava comigo, 
fazia isso, não fazia aquilo para não magoar, 
não usava aquela roupa, usava aquele perfume, 
tudo para acertar, para manter o "clima", 
para fazer o gosto da pessoa e resolveu o quê? 
Ganhei um pé no traseiro, e perdi a vontade de viver. 
Você sabe onde eu errei ? Hoje eu sei ! 
Eu errei na hora de anular os meus desejos, 
em transferir a minha vida para as mãos de outra pessoa, 
e é lógico, quando eu percebi que era o fim, 
fiquei sem chão, sem mundo, sem vida. 
Mas, hoje é dia de festa 
e só para o meu prazer vou tomar um banho demorado, 
e vou fazer de conta que 
a água do chuveiro é água de batismo 
e vou "renascer para a vida". 
Sai da minha frente que eu quero viver !!! 
Quem quiser que me acompanhe.


*Danusa Leão*





terça-feira, 15 de dezembro de 2009






Por que te amo

Te amo
te amo de uma maneira inexplicável
de uma forma inconfessável
de um modo contraditório
Te amo
Te amo , com meus estados de ânimo que são muitos
e mudar de humor continuadamente
pelo que você já sabe


o tempo
a vida
a morte

Te amo
Te amo, com o mundo que não entendo
com as pessoas que não compreendem
com a ambivalência de minha alma
com a incoerência dos meus atos
com a fatalidade do destino
com a conspiração do desejo
com a ambigüidade dos fatos
ainda quando digo que não te amo, te amo
até quando te engano, não te engano
no fundo levo a cabo um plano
para amar-te melhor.

Te amo
Te amo , sem refletir, inconscientemente
irresponsavelmente, espontaneamente
involuntariamente, por instinto
por impulso, irracionalmente
de fato não tenho argumentos lógicos
nem sequer improvisados
para fundamentar este amor que sinto por ti
que surgiu misteriosamente do nada
que não resolveu magicamente nada
e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada,
melhorou o pior de mim

Te amo
Te amo com um corpo que não pensa
com um coração que não raciocina
com uma cabeça que não coordena

Te amo
Te amo incompreensivelmente
sem perguntar-me porque te amo
sem importar-me porque te amo
sem questionar-me porque te amo

Te amo
simplesmente porque te amo
eu mesmo não sei porque te amo


(Anjo Chris).

Canção na plenitude





Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.



(Lya Luft)


O texto acima foi extraído do livro "Secreta Mirada", Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151.

Mulheres Possíveis






'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você
quer saber se isso é
possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a
Miss Imperfeita, muito
prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer,
como boa
profissional, mãe, filha e mulher que também sou:
trabalho todos os dias,
ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o
cardápio das refeições,
cuido dos filhos, marido (se tiver), telefono sempre
para minha mãe, procuro
minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago
minhas contas, respondo a
toneladas de e mails, faço revisões no dentista,
 mamografia, caminho meia
hora diariamente, compro flores para casa, providencio
os consertos
domésticos e ainda faço as unhas e depilação!

E, entre uma coisa e outra,
leio livros.

Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.

Por mais disciplinada e responsável que eu seja,
aprendi duas coisinhas
que operam milagres.

Primeiro: a dizer NÃO..


Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer
NÃO. Culpa por nada,
aliás.

Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois
inclua na sua
lista a Culpa Zero.

Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da
maternidade e lhe
apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento
você seria modelo para
os outros.

Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa
expectativa: tudo o que
desejaram é que você não chorasse muito durante as
madrugadas e mamasse
direitinho.

Você não é Nossa Senhora.

Você é, humildemente, uma mulher.

E, se não
aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye
vida
interessante. Porque vida interessante não é ter a
agenda lotada, não é ser
sempre politicamente correta, não é topar qualquer
projeto por dinheiro, não
é atender a todos e criar para si a falsa impressão
de ser indispensável. É
ter tempo.

Tempo para fazer nada.

Tempo para fazer tudo.

Tempo para dançar sozinha na sala.

Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.

Tempo para sumir dois dias com seu amor.

Três dias.

Cinco dias!

Tempo para uma massagem.

Tempo para ver a novela.

Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora
de produtos de
beleza.

Tempo para fazer um trabalho voluntário.

Tempo para procurar um abajur novo para seu
quarto.

Tempo para conhecer outras pessoas.

Voltar a estudar.


Para engravidar.

Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um
dia será editado.

Tempo, principalmente, para descobrir que você pode
ser perfeitamente
organizada e profissional sem deixar de existir.

Porque nossa existência não é contabilizada por um
relógio de ponto ou
pela quantidade de memorandos virtuais que atolam
nossa caixa postal.

Existir, a que será que se destina?

Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra..

A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se
não for super, se
não for mega, se não for uma executiva ISO 9000,
não será bem avaliada. Está
tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.

Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar
cada pedacinho de
si.

Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!


Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que
ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito
mais livre para ir
e vir.. Desde que lembre de separar alguns bons
> > momentos da semana para
> > > usufruir essa independência, senão é escravidão, a
mesma que nos mantinha
trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.

Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer
a bolsa Prada, o
hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da
M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter
tudo isso,
francamente, está precisando rever seus valores.

E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha
rústica à beira-mar
e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem
ser prazeres cinco
estrelas e nos
dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida
interessante'

(Martha Medeiros)


Obs.: Texto na Revista do Jornal O Globo.