sexta-feira, 12 de março de 2010

Johann e Maria (Parte I).

Imagem da internet.
  
Chegara então aquele dia, que tanto esperara. Acordou cedo, o Sol ainda não tinha tanto calor; lá de fora vinha um silêncio da mata densa. Abriu a porta, foi até o jardim; pegou com graça uma flor e ficou mirando. Havia uma orquestra habitual da passarada que cantava em notas já, ao seu ouvido, tão familiares. No meio desta canção matutina, um sabiá da mata. Maria, com sua silhueta fina, traços alongados, com músculos visíveis e toda uma graça no olhar. O seu sorriso era como uma moldura cintilante.

Maria sorria com graça, tinha algo de frescor naquela manhã. E ali ficou perdida em pensamentos e ansiedade; como seria aquele tão esperado encontro? – Deu voltas em torno de si, seu olhar parado; esticou-se na cadeira branca do jardim. Seu vestido colorido era um floral com florzinhas miúdas que mais pareciam um cenário inglês. Davam, àquela leve e elegante criatura, um ar de fada. Seu olhar parecia querer-lhe trair de tanta ansiedade. Respirou... Esticou-se mais, fechou os olhos como que, ainda, sonolenta, perdendo-se na entrega da paisagem matinal. Olhos fechados; o Sol banhava-lhe os cabelos, tornando-os mais vermelhos.

Por tantas vezes, Eleonor lhe havia falado deste ser tão iluminado. Mas agora chegara dia em que ele visitaria a sua amiga. Maria então preparava-se para um evento cheio de surpresa: conhecer Johann, seu príncipe encantado e platônico. Enfim, chegara o dia!

Entrou, deixou para trás os florais, o canto dos pássaros. Agora era hora de ficar linda para conhecer Johann. Abriu a torneira, observando a banheira que enchia com o frenesi da turbulência da água. A curiosidade era tamanha e aí imaginava como era o seu príncipe, que olhar teria o seu príncipe, como seria? Que cor teriam seus olhos? Em que momento da vida ele se fez tão importante? Ela não sabia. Tomou banho, foi até o penteador e usou o seu melhor perfume. Entre ela e Johann não havia sequer vírgulas, reticências ou qualquer gesto, pois entre eles nada existira antes, apenas uma fantasia de tanto que ouvira Eleonor falar-lhe. Agora pronta, perfumada, sem saber o que estaria por vir.

Maria embevecida de esperanças; vestiu-se de sonhos; fantasiou-se de ilusão. Este nome “Johann” latejava em sua mente como uma canção antiga. As horas passaram-se normalmente e aquela expectativa continuava latejante. Chega enfim Eleonor e Johann.

Maria, coração pulsante, olha – instante em que a emoção e a surpresa a dominam – e diante dos seus olhos, enfim, encontra-se Johann. Olham-se, entre o instante e a emoção habita o silêncio... Johann ali está: olhos escuros, cabelos lisos, olhar penetrante, braços fortes, pele morena. Johann, o sentimento mais platônico que experimentara Maria. Inquieta, buscava palavras, tremia, estava comovida; a emoção tomara conta do seu ser. Passou entre ela e aquele instante o desejo comovido de tocar-lhe: o que esconderia aquele olhar tão reticente? Seu semblante como se fosse luz fluorescente irradiava aquele instante. Um manancial de poesia, um berço largo de emoção.

Johann passava-lhe uma imagem sedutora; uma voz mansa; o seu falar era como um poema... Pausado e ao mesmo tempo sensual; um espetáculo que deixava Maria a flor da pele. Saíram para uma caminhada: Eleonor, Johann e Maria. O verde combinava com o momento matinal. Maria, aquela mulher, sentiu uma necessidade quase palpável; quase incontrolável de tocar-lhe a pele. Falavam de coisas amenas. Houve um instante em que os olhares se encontraram e disseram coisas que calaram. Um interminável instante como que perpetuaria aquele momento. Entre silêncios e pausas, reticências. Olhares intensos falaram coisas que até hoje pensam.

Continuo no próximo Capítulo.

(Ednar Andrade).

quinta-feira, 11 de março de 2010

Assim...


Foto do meu arquivo.

Assim nasceu uma menina;
Assim cresceu... solta, feliz
Nas tardes onde o Sol pintava
Uma tela que ninguém pintou.
Assim cresci, solta, pés na areia,
Sal no vestido, cabelos longos,
Tranças desfeitas, feliz, sonhadora.
Da vida, crente; feliz, saltitante;
Bichinho alegre, correndo feliz.
Assim cresci, menina livre,
Sorriso largo, nas tardes mornas;
Praia do Forte; assim voltava
Feliz para casa... vestes molhadas,
Cabelos soltos, de pés descalços.
Assim me achava dentro da vida,
Uma flor perdida no caminho da volta.
Assim cantava e acreditava no amor,
No verso... Assim amava o silêncio,
O mar, as gaivotas, os barcos, as pedras,
As dunas... Assim voltava.
Assim, como até agora, menina, senhora,
Amando o mar; amando a vida.
Vida, que vida? se tudo é agora
Assim cresci, formei-me, fiz da vida um poema;
da saudade o tema;
Do amor a bandeira, onde tudo mora.


(Ednar Andrade).

domingo, 7 de março de 2010

Foto do meu arquivo.

On line & Off line

O amor traz em si algumas coisas que levam a outros patamares da existência. Confunde, modifica, encaixa, ajusta, gera,embeleza.
Como se fosse um software que liga o espiritual e o físico,é uma das manifestações da grandeza de um Criador, cujo compreender nos foge ao domínio. Pode não ser entendido na sua plenitude ou nas suas regras malucas, mas é a configuração da perfeição.
É um hacker que invade sorrateiro as nossas vidas. Modifica nossos sistemas; muda nossos programas e redireciona a seu bel-prazer os nossos rumos. Zomba da lógica, ignora o tempo e manipula o impossível. Foge de nós e se mostra travesso. Rebelde aos nossos comandos – brinca feliz – mostrando janelas jamais imaginadas; exibindo pop-ups indecentes. Instala-se sem volta e sem opções. Tira-nos a configuração, o verme! (ou vírus?) Depois de rastrear, fisga dois corações desprotegidos e expostos. E coloca-os on-line, insensível a qualquer resistência ou apelo. A cada instante, uma química se faz e refaz. Corpos sedentos de amor e de junção, num download sem fim. Uma busca insana; eterna sede. Insaciável sede que toma conta. Idéias que urgem ser trocadas, palavras e palavras se multiplicando como células. Milhares delas, misturadas sem parâmetro. Cabeças confusas, descontrole de tudo. Sensações nunca experimentadas. E ficamos perplexos, tentando explicar tudo; buscando na sensatez uma cura que não vem. Nem virá.
Criando pretextos e nos mostrando ingenuamente protegidos, pensamos em nos livrar, como quem procura a cura para a felicidade. Procuramos uma vida por ela e quando localizamos seus arquivos, temos medo de abrí-los. – Irônico, não?
Só que na vida, não tem como se mostrar off-line. A mente não tem esse menu. É um adware sem volta no coração. Por mais que as bocas venham a negar, por mais que dissimulem, ficarão contaminados para sempre. Os dois, por mais que se enganem e busquem outros amores terão em si, uma insistente mensagem: – Impossível excluir o arquivo “euevc.exe”. Arquivos com esta extensão não podem ser removidos! Estão protegidos!
E se um dia o destino resolver colocar-nos off-line para sempre ou que os caminhos da vida nos separem, vamos saber que esses arquivos estão compartilhados; ainda que ocultos. Intactos. Incorrompíveis.
Então vamos entender que: – Se o tempo é o senhor da razão, o amor desconhece o tempo...

(Texto de Paulo Moreira).

sábado, 6 de março de 2010

Ponta Negra


Morro do Careca, na praia de Ponta Negra.

Desliza sereno no mar,
Um barquinho pequenino
Por este azul embalado,
Qual uma canção de ninar.

Meu olho, preocupado,
Viaja, além de onde está.
Passo as tardes mergulhada
Neste paraíso de ninguém.

Ponta Negra dos meus dias...
Negras são tuas noites;
Claras minhas manhãs.
Ponta do meu coração;

Areia do meu caminho.
Daqui da sacada, te vejo.
A Lua se mira no mar;
O Sol se banha nas águas

Em cada dia que amanhece
E nesta saudade que cresce,
Quero cada vez mais te amar.


(Ednar Andrade).

Um grande amor


  Gif usado neste texto de propriedade da web

Como crianças, assim como parceiros nesta dança, estavam lá. Mãos dadas, pés na areia, calças arregaçadas, pés molhados.

Amigos, lembram de um tempo vindo das valsas, do amor... Dos sonhos, daquele distante paraíso da mocidade. Ele com o olhar distante, me contava sobre um tempo em que aquele amor ainda era menino.

A vida os arrastou por outros caminhos; não foi desamor, talvez, quem sabe, o destino.

Ainda muito moço, partiu, foi em busca da sorte, do pão; converteu em glória a saudade. Assim José deixava-se levar sem olhar para trás. Do passado só carregava no coração aquela imagem de mulher: sua musa. Homem bonito, forte. Sempre viveu para o seu dia mais lindo. Viveu com sabedoria a sua mocidade, com todas as responsabilidades; um bom nordestino, fiel às suas raízes; homem simples que teve que ir à guerra... Nunca tirou do peito este escudo: a saudade da sua amada. Viveu para este encanto que seria o dia em que a boca daquele homem diria, por certo, palavras guardadas. Mãos cansadas... carregavam muito carinho nos seus cabelos brancos. Mas, vermelho era o coração de um amor todo bordado. Assim viveu José; corpo de homem, cabeça de menino, por ser isento de maldades e coração bom... Olhar puro, sincero. Olhava parado, como que falasse neste olhar. Olhava para mim sorrindo, demonstrava por mim um carinho lindo e falava do amor por “Raqué”. Falava-me como era lindo o amor por aquela mulher, buscava em mim, José, o refúgio que só um náufrago buscaria em alto-mar; alguém ou algo que o mantivesse vivo, por haver ele, José, compartilhado comigo seu grande segredo, em suas poucas viagens, visitando a terra natal; berço que nunca esqueceu, veio um dia de tão longe, tão longe... Só queria abraçar, colar o rosto e beijar a boca da sua princesa, dona de toda pureza, que nunca lhe foi mulher. Vê-los como os vi... Foi tão lindo! Foi como assistir a um filme romântico; eles apaixonados, felizes, encantados. Sem calendário, longe do tempo. Ali, tudo que contava era aquela euforia...............................................

- O amor é um sentimento estranhamente conhecido, ele não se perde do objeto amado; ele até te confunde. Ele pode te deixar bobo.

- Pode o homem viver no mundo sem tal sentindo abençoado? Como viver? Como senti-lo e não reconhecê-lo?

Para mim bastava-me olhar para aquele olhar calado para ver e entender que ali estavam mais uma vez felizes, sem tempo ou idade; conversando, para, quem sabe, o grande prêmio: uma noite, apenas. E caminhavam lado a lado, com silêncios falados pela boca da emoção contida. Tanto amor, tanto carinho negados.

Ele: um senhor, assim como descrevo: feliz, risonho, buscando no contar das horas um correr contra o tempo...

Eu confesso, olhava para o outro lado como que para poupá-los da exposição. Não queria constrangê-los... Notava-se, na palidez da pele o traço, as marcas do nada generoso tempo. Mãos envelhecidas, cansadas, um tremer na voz dos enamorados. Fico imaginando quantas noites ficaram acordados, rezando, pedindo a Deus este encontro tão desejado.

Agora, gestos vagos, uma vontade de voltar para o tempo perdido. Estavam os dois ali, nem mais amantes, em comunhão, cúmplices, amigos... A noite já ia longe; a carne já não respondia com tanto vigor a tanta emoção. Eu os observava com muita discrição. Eu fingia olhar para o outro lado, mas não podia deixar de saborear um momento tão lindo; um amor tão raro. Cúmplice, ali, daqueles dois. Era natural notá-los cansados. Eles juntos somavam mais de cem anos; somavam, multiplicavam e não se dividiam. Cada um em sua estrada, uma história fazia. Bem, poderia ser um conto ou um filme com direito a avançar ao ponto de partida ou voltar. Mas, com uma sabedoria que só o passar dos anos dá, eles tinham um único e feliz momento, sem ali se importar se haveria um outro encontro. Como meninos no dia da Festa do Amor Divino...

Raqué – nome abreviado por José – era mulher forte, de corpo franzino, estatura baixa, pele muito terna, tinha um olhar contido, falava pouco, talvez com medo de deixar partir a alma.

Vinha do mar um perfume especial, feito de sal e algas que, misturados aos nossos perfumes, produziam uma espécie de incenso no ar.

Eu usava um floral forte que, soprado pelo vento, era como um prêmio naquele momento. Na mesa, batatas assadas em forno grelhado... Tudo era perfume. Voltavam então do passeio, Raqué e José; voltavam de mãos dadas, mais pareciam meninos. A felicidade estampada na boca, no olhar, nos gestos, parecia rejuvenescê-los, quase que santificados pelo divino instante deste reencontro sublime. Senti que estavam cansados, pois caminhavam mansamente; olhavam-se; davam risadas. Enfim, voltaram à mesa. Sentaram-se ali, do meu lado. Pergunta alguma fiz-lhes, mas ele me agradeceu. Disse-me assim José:

Ficamos ali, sentados, falamos de coisas banais, falamos de coisas amenas, pois qualquer coisa, além do que eles falaram não teriam de fato valor. Até porque, a única voz que o vento poderia ouvir era a voz daquele amor. A noite estava tão linda; era noite de lua, lua cheia. Nós estávamos sentados tão perto da praia que parecia que as ondas queriam molhar nossos pés. A espuma branca em que eles pisaram era como que um tapete bordado que a natureza fez para recepcioná-los. Ficamos então satisfeitos... Todos, eles e nós que fazíamos companhia a este sacramento, pois na verdade éramos cinco: Raqué e José, eu e mais dois amigos. Existia entre nós uma cumplicidade e nada, assim como a história de José, nada, nem o tempo, nem a tristeza me fará duvidar do amor. Saímos dali, os cinco, cada um para o seu destino. No caminho de volta, todos em silêncio como que reverenciando aquele momento ímpar. Eles estavam já bem cansados, haviam caminhado muitos anos de vida e luta árdua, mas nunca mataram no peito a certeza de que um dia, com tamanha e real alegria, o amor que julgavam haver perdido para eles voltaria.

Esta é a história real de Raqué e José. O tempo passou... José voltou ao seu reduto, forçado reduto, pois ali só morava o corpo; a alma e o sentimento ele depositou no coração de Raqué. Ás vezes José me escrevia, passou a viver das lembranças doces que eternizou desta noite, pois não houve uma segunda noite. José foi ficando mais velho, mais cansado... Veio-lhe a impossibilidade pelas doenças... Raqué também guardou consigo esta tão grande felicidade:

*uma noite com José!*

Tempos atrás, não tão distante, José partiu para sempre, deixando no meu coração uma saudade que não finda e um exemplo vivo que alimenta em mim a certeza dos que amam. Sei, leitor que você pergunta: e Raqué? Te prometo que no próximo capítulo falo de Raqué.



(Ednar Andrade)*****.

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*Nota da Autora: Este texto, de forma autêntica e na íntegra, é fato real*.


sexta-feira, 5 de março de 2010

Petulante




Petulante, dizem?


Digam qualquer coisa,
Falem do meu olhar,
Do meu silêncio.
Resmunguem, ladrem;
Ladrem o cão
E uivem os lobos.
Podem rir ou dar risada,
Chamem-me de nada.
Eu não ligo,
Eu não ligo!
Digam... que sou notícia;
Que sou um escândalo;
Rabugem, reclamem,
Briguem entre si.
Percam seu tempo,
Inventem até o que ninguém quer saber.
Finjam, lamentem.
Por que aqui, o que importa
É o que meu coração sente;
O que minha boca não diz;
O que meus olhos calam
E o que o ouvido (des)diz.


(Ednar Andrade).

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Como te amo?


Imagem do casal Elizabeth Barrett Browning e
Robert Browning, autores de uma linda história
de amor.

Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido - quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.


(Elizabeth Barrett Browning).
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Sinopse

Londres, durante a era vitoriana. Corria o ano de 1845, quando em Wimpole Street, o carteiro da região tirava de sua sacola mais um volume relativamente grande de correspondências. Nada extraordinário neste fato, a não ser que naqeuele dia ele, o carteiro, teria uma pequena participação em uma das mais belas histórias de amor, pois uma carta, que ali se encontrava, mudaria a vida de duas pessoas sensíveis: os poetas Robert Browning e Elizabeth Barrett Browning.

Aguardem novas postagens amigos, sobre esta emocionante história de amor.

(Postagens de e-mail recebido de um amigo, com fotografias e textos pesquisados na web).

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Chá


Fotografia criada para este texto.

Chá... Não cura tristeza;
Não cura dor, nem desamor...
Chá... apagaria apenas o reflexo
Tão pequenino desta dor.
Chá? Não é remédio; remédio é amor.
Amor que não tenho, amor dos que amo.
É tanta incompreensão, tanta saudade...
No meu peito só saudade.
Tanta saudade de um tempo
Em que o amor era o pão;
Em que o amor era só emoção.
Agora nada que vem de mim presta.
Sou apenas da porta a fresta
Que vê o amor.
E assim não sou nada,
Apenas uma deserta estrada
Que é mais importante que o amor que doei.
Não sou Fernando Sabino, mas se ele disse
Que de tudo restaram três coisas,
Sem querer plagiá-lo,
Eu digo, de tudo restaram três coisas:
A dor, a ingratidão e... a dor.


(Ednar Andrade).

Nenhum Verão


Foto do meu arquivo. Imagem solar vista do Morro da Ilhota. 

Esse sol, porque tinha de tanto brilhar
Anunciar no meu peito o amanhã pra depois sumir
E deixar tão mais negro meu céu, minha noite
Porque foi minha boca beber, se embriagar da tua boca
Pra sobrar tão mais amargo o gosto de vazio, de solidão
Meu coração prefere acreditar nessas promessas
Mesmo essas que só fazem abrir minhas janelas
Pra nenhuma, pra nenhuma, pra nenhuma paisagem
Ah, porque me invadir como doce canção
Pra depois me ferir, me queimar com ardor de toda paixão
Eu assim te acolhi sem nenhuma defesa
Como nova estação quando chega, um belo dia, uma certeza
Um vinho dado à minha mesa
Uma palavra, um abraço de irmão
Meu coração prefere acreditar nessas promessas
Mesmo essas que só fazem deixar na minha pele


(Maria Bethânia).


Ai, Quem me Dera


Ai, quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto simples e sem fim
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai, quem me dera ver morrer a fera
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor
Ai, quem me dera uma manhã feliz
Ai, quem me dera uma estação de amor

Ah, se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem casais

Ai, quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E, finda a espera, ouvir na primavera
Alguém chamar por mim


(Vinícius de Moraes).