sexta-feira, 18 de junho de 2010

Homenagem a José Saramago (1922* - 2010†)


Foto pesquisada na web


Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.


Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.


Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.


Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.


Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


(José Saramago).


Foto pesquisada na web.

Na ilha por vezes habitada


Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.


(José Saramago).




Imagem pesquisada na web: José Saramago (1922* - 2010+).


“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos” (José Saramgo).



“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é so um dia mais” (José Saramago).


Imagem pesquisada na web
Espaço Curvo e Finito


Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.


(José Saramago).

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Fragmentos


Ei, estou aqui pensando em todo este silêncio;
"Silêncio que a minha boca rejeita".
O ontem tem hoje, nisso, uma parcela.
Ontem tanto, hoje nada.
E é o nada de hoje que me estrangula a quietude da alma.
É assim que você precisa me ver:
Andando absorvida deste jeito por mil pensamentos.
Pareço uma fera que ruge, presa.
Agora, por exemplo, a minha calma virou mar;
A minha lucidez foge totalmente.
Olho-me no espelho do meu quarto.
Minha fisionomia parece de uma mulher estranha,
Estranha demais para o sorriso dos meus olhos travessos.
Hoje eu queria o meu ontem. Que maravilha!
Repito minha frase: é quando pode dois, um ser.
Um pássaro, um pardalzinho desses, que tenho no quintal,
Que bom! Eu queria ser, pois só assim eu voaria para a tua janela.
Olhando nos olhos, no fundo dos olhos, eu te diria baixinho
Para ninguém ouvir que hoje me tiras a calma,
Da mão a palma, o riso, a razão, da voz o som.
Mas, diria também que tudo ontem foi bom.


(Ednar Andrade).

terça-feira, 15 de junho de 2010

Memórias de uma Copa


Escrete canarinho de 1982.

Começou mais uma Copa do Mundo... Vejo alguns jogos e penso: "não fazem mais copas como antigamente", uma frase um tanto batida e que se justifica, conforme Bial, porque tendemos exaltar os fatos do passado em detrimento dos fatos do presente e isso, talvez, por que envelhecemos e perdemos, com o tempo, o elã inicial do primeiro contato.

Minha melhor lembrança de Copa do Mundo é a de 1982, minha primeira copa (ou ao menos a primeira que guardo vívida na memória, uma vez que em 1974 e 1978 eu não entendia nada do assunto... Rsrs).

Lembro do primeiro jogo: a vitória da Bélgica por 1x0 sobre a Argentina, com gol de Van Den Berg. Mas, o que me interessava eram os jogos do Brasil. Vi uma partida inesquecível: Brasil 2 x 1 União Soviética. Levamos um susto com o Gol de Bal e pensei: "estamos fritos", pois Dasaev, o goleiro deles, nem brisa deixava passar; pegava tudo. Parecia uma defesa sólida, mas como diria Marx: "Tudo que é sólido desmancha no ar". Assim, dois torpedos, um de Éder e outro de Sócrates, derrubaram a muralha russa. Depois, goleamos a Escócia (4x1) e a Nova Zelândia (4x0) com atuações fantásticas da esquadra canarinho. Passamos à segunda fase da copa.

Recordo-me que a cada gol do Brasil, a meninada corria para festejar na rua. A rua, sem calçamento, virava o nosso Maracanã, ou melhor - já que a copa era na Espanha - o nosso Santiago Bernabeu, onde as traves eram de tijolos (um de cada lado) e a bola era de borracha e já surrada pelo tempo. A efémeride futebolística tinha  o condão de aproximar as pessoas, fazendo-as confraternizar. Bons tempos...

Veio a segunda fase, enfrentaríamos Argentina, então campeã, e a Itália. A Argentina tinha a base que fora campeã em 1978 (Fillol, Bertoni, Tarantini, Gallego, Passarella, etc) e um jovem, chamado Maradona. Mas, não foram páreos para Zico, Sócrates, Falcão e cia. Passeamos em campo: Brasil 3 x 1 Argentina (gols de Zico, Serginho e Júnior). 

O próximo adversário seria a Itália. Os italianos, na primeira fase tinham feito uma campanha marcada por empates (com Polônia, Peru e Camarões). O Brasil levava vantagem no saldo de gol, pois tinha feito 3x1 nos portenhos, enquanto os italianos só tinham vencido por 2x1. Assim, bastaria empatar e passar à semi-final.

O Brasil entrou em campo tentando cadenciar o jogo, tocando a bola e "gastando o tempo". Entretanto, esta postura foi responsável pelo primeiro gol italiano: Cerezo tenta um passe lateral e Paolo Rossi intercepta, avança e marca na saída de Valdir Perez. O jogo começa a ficar mais disputado. O Brasil vai para cima, a Itália responde e assim vai até que Sócrates, de dentro da área, chuta cruzado e empata. Mas, a defesa novamente falha e Paolo Rossi marca para a squadra azzurra. Terminou o 1º tempo: vantagem deles. Recomeça a partida, o Brasil avança, mas esbarra em Scirea e Gentile, defensores italianos. O jogo prossegue aguerrido até que Falcão manda um "tiro" indefensável para Zoff, empatando e reacendendo as esperanças do Brasil. A alegria toma conta da rua. Faltavam poucos minutos para o jogo acabar. Nos estertores da partida, a Itália consegue um escanteio. A defesa sai para fazer a linha de impedimento; Júnior fica plantado e Paolo Rossi marca 3x2 e elimina o Brasil. A rua ficou vazia; os meninos não jogaram naquele dia...

É fato, ficou para a história do futebol: não fomos campeões em 1982. Mas, guardo na memória os lances geniais de uma seleção injustiçada que fez do futebol uma arte e dos dias de jogos do Brasil, uma oportunidade para confraternizar.

(Danclads Lins de Andrade).

Brasilllllllllllllll!!!!




BRASILLLLLLLLLLLLL!!!!!!

“Uma terça com cara de domingo... Aos 07:00 do 1º temp0 o arrepio; aos 10:00 do 2º tempo o êxtase”


(Ednar Andrade)

sábado, 12 de junho de 2010

Sonho




Sonhava com teu corpo nu,
Te sentia tão quente ao meu lado,
Um sonho de azul bordado,
Entre sussurros ...
Me pedias, como querias ser tocado.
Oh meu amor! Estavas lindo!
E te beijei com profundo desejo...
E tu gemias de prazer descontrolado.
Ah! Eu também, meu homem amado.
Deste meu sonho de irreal pecado,
Era a saudade que estava ao meu lado.
Tu me abraçavas tão forte,
Tão cheio de volúpia...
Roçava teu corpo no meu,
Rolamos loucos e descompassados,
Num frenesi medonho e descarado.
Tua boca quente percorria meu corpo
E eu o teu...
Entre gemidos e silêncios gozados,
Fomos ao céu.
Deste inferno de paraíso;
Amor pagão.
Mas, de repente, acordo;
Não estás comigo,
Tudo era sonho...
Tudo era sonho no sexo deste abismo.


(Ednar Andrade).

Infinito no verso (reverso).

Imagem pesquisada na web

... Tentando criar um verso para o infinito ou configurando uma dor.


Minha alma está doente... E a cura só vem quando declamo, quando rasgo a dor com poesia... Ontem, de tão triste, o meu peito abriu, e num descuido meu coração partiu, despencou da prateleira do amor, fiquei gemendo... Deitei-me no chão da minha saudade... Com tanta dor... Que o mar, o vento, as estrelas, todos os astros, vieram ao meu socorro... Quando tudo que eu precisava era ver e sentir o calor do Sol... Deixar meu corpo se banhar da sua luz... Iluminar os meus desejos com seus raios em fogo. Beijar a boca da carne nua e por, dentro de mim, a sedução daquele olhar que não vejo. Ai... Ontem uivei como uma loba perdida dentro da escura noite. Engoli meu pranto para não acordar o meu segredo e chorei baixinho; abracei o meu lençol... Havia nos meus olhos uma ferida aberta; uma fenda que deixava escapar um rio transparente de agonia. Como desejei que fosse dia... Dia de correr no campo como um bichinho brincalhão, uma borboleta livre, pássaro cantante dentro da mata, ver passar o dia como que mirando as águas de um rio que conheço e deságua em minha emoção, levando na correnteza as mágoas e o frio da espera infinita de ti. Dia de ser o teu barco náufrago e, nestas águas mornas, ficar em tuas mãos como um pequenino barquinho. Dia de ser viçosa como a flor bela da manhã, ser como a aurora que se mistura ao dia. Ser singela como a flor do campo, que alguém descobre sem saber o nome e ser apenas silenciosa... Nos ruídos do amor e no seu contentamento, ser profundamente amada na relva dos teus desejos. Como sonhei com o carinho mudo que de tua boca viria me fazer chover de emoção, de felicidade e de paixão, mas a violência da saudade mata a realidade sem perdão, sem escrúpulos e sem permissão. Cruel castiga o peito, fustiga, faz escorrer um fel dos olhos que desce e atravessa a garganta e vai até o lugar mais fundo da alma, o lugar mais escondido do amar... Invade-me como uma espada dentro da noite a rasgar-me as feridas feitas das lembranças... Sento-me no pó deste inferno, para tecer a trança infinita deste sentimento algoz e íntimo, num duelo de constatação.

... É desta dor que me habita, que me alimento e respiro, bebo, nesta fonte “indesejada que desejo” (e quero tanto...) e morro e vivo, para renascer plena de todos os suspiros e sussurros que me faz este sentido, que ora beija, ora bate na face de forma escancarada e contida; diálogo mudo que travo com o mundo; frases escritas com saudade e medo num desespero que me arrasta calmo, que empurra ao tudo, e ao mesmo tempo ao nada que podemos... Assim, com o coração em fragmentos, sigo, segues, como que juntando os destroços em total tristeza; a carne em lamentos, querendo tanto este querer permanente em mim e em ti. Não sei se há nele bênção ou maldição, mas sei o quanto nos queremos sem pensarmos na razão. Somos conduzidos pela mão suave e perigosa com infinita paixão, algumas vezes lascivo, cheio de luxúria, carnal, ardentes e céticos de outros sentidos, não há neste sofrer lamento mais gemido do que a dor deste querer... Um querer errante, pagão, maciço, barulhento como é, fez-se trovão, e acordou em nós, partindo o coração, maré, enchente desperta na noite, sai pelas narinas em forma de ar... Perfumando as rosas, fechando ou abrindo abismos, nos faz, deste olor, amantes... Sublimemente perdidos. Não há como medir, só sentir, e mergulhar cada vez mais... E de tanto querer, almas sem juízo, sem juiz que o julgue, viver com verdade este delito, sem culpas, ilhados na cumplicidade tocar a carne quente dos que descem ao inferno, para chegar ao céu do amor sonhado.

(Ednar Andrade).

sábado, 5 de junho de 2010

Mulher sem Idade


Por Danclads Lins de Andrade

O tempo não diz de ti;
És atemporal; ultrapassa-o...
Mulher sem fronteiras;
Mulher sem idade;
Atrevimento da natureza
Que a cronologia não explica
E espanta a humanidade
Que desafia os anos...
Brincas com a eternidade
Teu nome?
Ednar Andrade.


(Danclads Lins de Andrade).


Em homenagem a mulher que amo, minha poetisa Ednar Andrade.

Você



Por Danclads Lins de Andrade


Um sorriso largo e encantador
Que te fecham os olhos;
Uma tez macia
Em um corpo escultural;
Um cérebro de sábia
E uma elegância Real;
A maturidade de mulher
E um jeito de menina;
Uma "Afrodite" humana;
Uma "Leila Diniz" divina!
1 metro e 68 centímetros
De singular grandeza;
Cinqüenta e um quilos
De força e beleza.
Assim eu te vejo...
Entre o humano e a perfeição;
Tens o teu lugar reservado,
Cadeira cativa no meu coração.


(Danclads Lins de Andrade).

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Dança do amor


Foto: El Brujo

... E ela dança...
Com seu corpo nu...
Na lua "cheia de amor”,
Para dar...
E pulsa em rodopios incontidos...
Sangue nas veias,
Paixão...
Emerge do fundo do mar com seus lábios rubros,
Agora sem véus...
O ventre incendeia em desejos,
Num incessante prazer, amar...
Beija, com boca salgada...
Beijos com gosto de mar.


(Ednar Andrade).

Total Deslize


Foto de propriedade de El Brujo

Deslize total,
Sem bloqueios ou freios,
Versos que transbordam...
Na loucura rimada da paixão,
Ardentemente alterados e alagados...
Loucas estrofes
Que fazem doer a carne
De quem sente e os olhos de quem lê.
E assim as letras rasgam os sentidos da libido
E levam ao prazer
Neste cântico profano...
Tocas a boca, os seios e a face com desejo,
Dando sentido ardente qual fogo,
Com um ritmo que a pele tatua.
Transbordas... E escreves como quem toca um instrumento,
Invades, deixas sem calma os invadidos de paixão.


(Ednar Andrade).