domingo, 1 de agosto de 2010

Reverência ao destino




Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.
Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.
Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.
Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer.
Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.
Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.
Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.
Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...
Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.
Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.
Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.
Fácil é ditar regras.
Difícil é segui-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.
Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.
Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.
Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.
Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.
Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.


(Carlos Drummond de Andrade).

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Hoje



Quero da noite o dia,
Quero da boca o beijo,
Da lucidez a loucura mais louca
Até que a fome desta paixão
Me deixe torpe
Que me confunda em delírio
E tudo desague num rio,
Que de mim, lave o prazer.
Quero o livre “negado”
Voar, voar, vida à fora.
Sem presente, sem passado,
Olhar pro simples mais lindo,
Prová-lo com um sabor raro,
Viver da morte deste morto,
Que eu celebre para sempre este velório,
Sentindo na cabeça o gosto que a língua desconhece,
Quero me entregar nua a tudo que sou carente.

(Ednar Andrade)*****.


quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Mare e Tu




Sentir em nós
Sentir em nós
Uma razão
Para não ficarmos sós
E nesse abraço forte
Sentir o mar,
Na nossa voz,
Chorar como quem sonha
Sempre navegar
Nas velas rubras deste amor
Ao longe a barca louca perde o norte.

Ammore mio
Si nun ce stess'o mare e tu
Nun ce stesse manch'io
Ammore mio
L'ammore esiste quanno nuje
Stamme vicino a Dio
Ammore

No teu olhar
Um espelho de água
A vida a navegar
Por entre o sonho e a mágoa
Sem um adeus sequer.
E mansamente,
Talvez no mar,
Eu feita espuma encontre o sol do teu olhar,
Voga ao de leve, meu amor
Ao longe a barca nua a todo o pano.

Ammore mio
Se nun ce stess'o mare e tu
Nun ce stesse manch'io
Ammore mio
L'amore esiste quanno nuje
Stamme vicino a Dio
Ammore
Ammore mio
Si nun ce stess'o mare e tu
Nun ce stesse manch'io
Ammore mio
L'amore esiste quanno nuje
Stammo vicino a Dio
Ammore

(Composição: Dulce Pontes / E. Gragnaniello).



terça-feira, 27 de julho de 2010

Para ser grande, sê inteiro





"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"


(Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa).

domingo, 25 de julho de 2010

Orquídeas




Um frio que aquece,
Uma saudade que enternece
A minha alma já tão sem certeza da prece
Que reza.
Volto, mas não há em mim sorriso,
Apenas o poema, o gemido da frase que digo,
Com vontade de ficar.
Uma eterna saudade do cantar das aves,
Do coaxar dos sapos, do murmúrio da cachoeira que rola,
Do simples silêncio da lagoa.
E volto e deixo lá a minha alma partida
E trago no meu corpo uma dor
Que me suprime, há tanta saudade...
Uma eterna vontade de ficar, sem partir.
E eu não sei o que reviver para não morrer.
É a memória das noites em que me deito
E como se fosse um barco, flutuo em pensamentos,
Memória viva, da felicidade que perdi.
É um querer-ficar, não ter que partir
É uma dor mais aguçada que um punhal,
Que invade meu peito e traspassa
O meu irreal.
Ai... Que choro e neste gemido
Há muito mais que uma simples dor.
Há um querer-estar na terra,
No abrir de cada flor.
Ai... Há uma tristeza
E uma inevitável certeza
Da felicidade que voou.
Ilhota, casa minha,
Pátria, ilhota,
Como sinto de ti, saudades.
Mãe-pátria, casa minha, como te quero
E como choro, este não-poder-ter-te em mim e voltar...
És a minha aurora, o meu melhor poema, "lual...",
Onde a noite nua, consagra-se com a Lua
E derrama no meu peito
Este afã, desejo de feliz-ser.
Ai, meu Deus, quanto sofrer neste meu calar,
Quanta vontade de ir e ficar,
Sem precisar jamais voltar.
"Verde" que tanto amo... Hoje vi que minhas orquídeas
Preparam-se, como que, numa solene exaltação da natureza,
Agonizam-se para ser vida em plena Primavera que virá.
Como quero, olhar-te vida, subindo pelos cajueiros.
Lilás, lilases sinais, de orquídeas florescidas no amor.
Ai... Como desejo que em setembro, que anuncia a vida,
Que no calendário do meu coração partido
A vida que soa em notas, como uma lilás canção.
Brisa mansa que passa por mim, trazendo memórias
De cravos, jasmins...
Como quero de ti, doce poema, ser a rima
Que em ti tudo encerra neste meu ser
Que vive de amor, em guerra.


(Ednar Andrade).

sábado, 24 de julho de 2010

Seu Nome




Quando essa boca disser o seu nome, venha voando
Mesmo que a boca só diga seu nome de vez em quando
(repete)
Posso enxergar no seu rosto um dia tão claro e luminoso
Quero provar desse gosto ainda tão raro e misterioso do amor...
Refrão:
Quero que você me dê o que tiver de bom pra dar
Ficar junto de você é como ouvir o som do mar
Se você não vem me amar é maré cheia, amor
Ter você é ver o sol deitado na areia
(repete)
Quando quiser entrar e encontrar o trinco trancado
Saiba que meu coração é um barraco de zinco todo cuidado
(repete)
Não traga a tempestade depois que o sol se pôr
Nem venha com piedade porque piedade não é amor
(repete)
Refrão 2x
(Composição: Vander Lee; intérprete: Luiza Possi).

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Em algum lugar




Você que não sei agora,
Você que já foi embora,
Você que eu não sei se dorme
Ou mesmo se está acordado.

Você que eu amo um bocado
Que me faz escrever agora,
Pensar assim com saudade,
Perder o sono...

Você que está ao meu lado,
Você que eu não pude esquecer,
Você que integra meu sonho,
Mas nunca está presente

Me faz sofrer pra danado.
Sentir-me um ser transviado.
Você que me tira do sério
Me faz sentir saudade.

Mentira por que é verdade.
Sorrir, mesmo estando só.
Por tudo que é você,
Talvez eu seja o que sou

E acredito no amor
Que inspira em mim, você
Você, é verbo pra todo lado,
Talvez no dia da morte

Que me ajude a dona sorte,
Seja você o culpado
Da minha causa de morte:
Você.


(Ednar Andrade).

domingo, 18 de julho de 2010

Saber-me não sei, diga-me quem sou



Digam-me, quem sabe,
Quem sou eu afinal. Sabes tu?
Sou por acaso, quem?
Fui ou serei o que ainda nem sei se sou?
Sou tua imaginação fértil,
Sua desgraça ou sorte
Que o tempo abortou.
Sou ciranda, serpentina,
Inquieta, bailarina, sabes tu?
Dizes quem sou.
Não sou de nada,
De ninguém,
Não fui, nem vou,
Além do além.
Diga-me, então se souberes
O que quero ou o que queres.
Sabes tu o que não sei?
O que não digo, nem direi?
Digas-me tu o que não sabes
Deste meu ser o que não cabe
E se derrama nas levadas,
Nos escombros, nas madrugadas
Que me leva a alma errada.
Diga-me, pois não direi
O que até agora não sei.
Estou no vento, na chuva,
Nas flores, no teu olhar escondido,
Num poema esquecido,
No que é morno, no que é feio,
No que dizem bizarro, não sei...
Sou profana, alheia, noite, tarde,
Estou no seio da verdade,
Não me escondo, não sou maldade.
Mas, mesmo assim, não sei,
Sabes tu? Digas, quem sou...


(Ednar Andrade).

sábado, 17 de julho de 2010

Memória (Memory)



Meia noite, nem um som da rua
A lua perdeu sua memória?
Ela está rindo sozinha
Na luz das lâmpadas
as folhas secas se recolhem aos meus pés
e o vento começa a se afligir
Lembrança, totalmente sozinha a luz da lua
Eu posso sorrir nos dias passados
A vida era bonita então
eu me lembro
do tempo que eu conheci o que era felicidade
Deixe a lembrança viver novamente
Todas as lâmpadas da rua
Parecem piscar
Um aviso fatalista
Alguém murmura
E as lâmpadas da rua se apagam
E logo será de manhã
Luz do dia, eu devo esperar pelo nascer do sol
Eu devo pensar em uma nova vida
Eu devo partir
Quando o amanhecer se aproxima
Essa noite será uma lembrança também
E uma nova vida começará
Queimar os fins dos dias esfumaçados
O frio envelhecer cheira a manhã
As lâmpadas da rua morreram
Outra noite se acabou
Outro dia está nascendo
Toque-me, é tão fácil de me abandonar
Sozinha com uma lembrança
Dos meus dias no sol
Se você me tocar
Você entenderá o que é felicidade
Olhe, um novo dia começou.


(Andrew Lloyd Webber).


Tradução de Memory, por Barbra Streisand.

Homo Lupus Homini.



Lobo, perdido na noite...
No eternal inferno
Mora o homem,
Devorando-se e devorando
A tudo e a todos,
Comendo e vomitando
A própria sorte.
Terrível exterminador
Da própria sombra,
Dos recantos vis
Da própria alma.
Poeta, como quem faz versos
Arquiteta a chacina trágica
Da traição.
Este animal que fala,
Beija, sussurra
E diz que ama,
Jura amor,
É réu confesso
De si mesmo é traidor.
Transita entre
A sorte e a paz,
Mas busca a guerra
- Manjar sangrento
Que parece correr-lhe
Nas veias.
Bebe em taça
Coquetel de fel
E brasas de inquietação.
Lobo que uiva (!!!!!!!!!!!!!),
Procurando, no tempo,
Aconchego ao coração.
Vagueia, buscando o nada
Ou encontra-se
Em total devassidão.
Lascivo, busca fora de si
O que não vê ter
Dentro do peito.
Engendra, transgride,
Aflige-se, tudo faz a si.
Dentro da sua noite,
Escura maldade.
Embriaga-se e bebe
A própria sina.
Para depois
Morrer da própria desgraça.


(Ednar Andrade).