domingo, 22 de maio de 2011

Tua mão



“Dá-me a tua mão desconhecida,que a vida está me doendo,e não sei como falar - a realidade é delicada demais,só a realidade é delicada,minha irrealidade e minha imaginação são mais pesadas

(Clarice Lispector).


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Infância




Infância...

Idade de querer
Ser adulto.
Por exemplo:
Cozinhar,
Se vestir
Com roupas
De adulto,
Namorar,
Ter filhos.
Assim
É a infância.
É querer imitar
É querer fazer
Tudo
Que um adulto
Faz...
Mas,
Quando
Amadurecemos
Nos arrependemos
Do que queríamos ser.

ASSIM É A VIDA
E O TEMPO TAMBÉM.

(Ana Júlia).

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Camaleoa-olhar...

    Tela de Teresa Robalo.


Invento versos,
Como se fosse poeta , pintando as letras 
E dando asas, brinco de escrever,
Brinco de sentir saudades, de  não chorar...

De não querer,
De não amar,
De  esquecer...
Brinco de brincar:

"De não sofrer"...

Brincar com as flores ,
De infinitas cores e jeitos ,
Pálidas, violetas e rubras em versos de paixão
Invento alegria, ponho em teu lugar...

Ai... Também com as sombras e sons
Da lagoa em pranto e sussurros...

Invento no vento que vem me beijar,
Invento um canto triste e canto a lembrar,
Para não  esquecer esta "tristeza "de amar
Que mora em teu e no meu olhar,

Finjo crer nesta bobagem
Que queres que eu creia.
Faço cara de descaso para esta sen-hora...
Duvido  daquela dúvida ,...

Mas, seco o rio 
De tanto lavar o pranto.
Me banho... Não rio ...
Só, rio..., Rio... Quase mar...

Me escondo no verde ,
Sou camaleoa, rastejo sutil ,
Por entre as folhas Verdes
E sépias, caço..."disfarço",

Pinto de azul uma estrela,
* 

E a mirá-la permaneço olhando o céu...
Assim... Tão distraída, quanto a fria noite...

E tudo faço, tudo desfaço
E permaneço, e silencio...
Interrogo  o pássaro no seu calado ninho...
Ele como eu, não sabe por que ficou tão triste,

E perdeu-se no caminho.
Então, fazendo, do amor, o meu brinquedo,
Sigo-te amando ... E...
Desenhando versos...

(Ednar Andrade).

domingo, 15 de maio de 2011

Simplicidade



Uma simplicidade...

E como se fosse uma fazenda
Com cajueiro e animais,
O papagaio, mato e flores.

Uma rede na varanda,
Uma rede cheia de lembranças...
Era onde o meu avô cantava
Para ninar o bebê:
Ana Júlia.

Mato e...
Simplicidade...

(Ana Júlia).

sábado, 14 de maio de 2011

... O que não me podes dar...

Tela, Sebastiano Ricci.

Segundo as lendas que envolvem sua origem, Diógenes, desprezava quase tudo o que achava ser mundano, perambulava pelas ruas de Atenas vestido em trapos e carregando uma pequena lamparina, dizendo que estava à procura de um homem de verdade, um que vivesse por si só, que não fosse apenas membro de um rebanho. Foi capturado por piratas e vendido como escravo. Foi comprado por um nobre que o fez tutor da instrução de seus dois filhos.

Conta-se que Alexandre, o Grande, após conquistar as cidades gregas e entrar em Atenas, soube da existência de um sábio ateniense, o mais sábio dentre os homens: Diógenes de Sínope.

Ao saber do local onde Diógenes morava (um barril), o imperador foi ter com o sábio e numa tentativa inútil propôs-lhe um “mundo”. Assim falou Alexandre:

“Sou Alexandre, aquele que conquistou todas as terras. Peça-me o que quiser que eu lhe darei. Palácios, terras, honrarias, escravos ou tesouros jamais vistos. O que você quer, ó Sábio?”.

Diógenes, o olhou e secamente respondeu:

“Senhor, eu quero que saias da minha frente, pois eu quero ver o pôr do sol… Não tires de mim o que não me podes dar”.

Percebendo que não ganhara esta batalha, perplexo e admirado ante a sabedoria daquele simples homem nu, de alma e interesses materiais, diz-lhe:

“Se eu não fosse Alexandre, o Grande, eu queria ser Diógenes”

Retira-se e não mais retorna a Atenas.

(Diógenes é considerado o maior dentre os filósofos Cínicos. Alexandre, o Grande, é considerado o maior conquistador da história e mesmo assim não conquistou Diógenes...).

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Doce memória



Um cheiro de charuto permeava o ambiente.

Um cheiro doce de cachaça, no canto do balcão, um vidro que girava e dentro dele deliciosas balas, de sabores, hoje, indecifráveis…, mas doces. “Algo penetrante que ia até vísceras”. Sem contar com um chão vagamente bordado pelas tampas dos refrigerantes. Aquilo tinha um perfume, porque por dentro da tampa havia uma suave camada de cortiça de inesquecível perfume. E eu as pegava e cheirava… Coisa de criança.

Lembro-me bem, haviam tranças de alho caindo do teto sobre o balcão, cebolas brancas e roxas, prateleiras decoradas por poeira e distraídas aranhas… Robustas mortadelas onde as moscas faziam um zumbido, mas de infecção intestinal ninguém nunca morreu. Uma corda pendurada com toucinho de porco, branquinho… Carne de sol, charque… Cachaças… Claro, que deviam ter vários nomes… Ali havia de tudo: balaios cheios de batata-doce, inhames, fruta-pão, jerimum, avoador (um peixe seco que nordestino descobriu para não morrer de fome). Festa no olhar… Poesia na minha inocência…

Um ambiente perfumado por álcool e conversas tantas de homens, de bêbados e também de senhoras e crianças… Entrar ali… Era algo como fazer uma viagem para um tempo que eu desconhecia, algo como hoje posso ler em sépia, que eu nem sabia da existência. Era um presente, um presente vivo da minha infância e me causava uma sensação de velhas fotografias. Um espaço tão vivo, tão autêntico, mas ali tinha algo de nostalgia, que na minha inocência não conseguia tocar. Um abstrato sentimento invadia a minha alma e aquele espaço. Por mim passavam sensações de prazer e medo.

Prazer pela diversidade das informações olfativas: papeis de balas pelo chão, pirulitos e alfenins e vez por outra algum distraído deixava alguma bala cair. Guloseima que eu apanhava calada e punha nos bolsos dos vestidinhos florais e saía para degustar.

Medo por olhar aqueles homens com falas enroladas, vestidos como quem vem da lida, cuspindo pelo chão em total desrespeito que é cuspir a casa de alguém – pensava. E eu os olhava e pensava na falta de higiene, cuspir assim ao pé do balcão… Palitos de fósforos pelo chão, como que decorando o arsenal. Vez por outra parava fixa, olhando para algum deles e já minha mãe me apertava o braço num código todo nosso, pedindo que eu desviasse o olhar.

Fumaças vindas dos charutos e eu com a intimidade que tinha com a dona da mercearia (velha amiga da minha mãe: D. Lenira. Ela tinha até um belo nome, difícil era digerir sem rir o nome do seu marido – como alguém poderia se chamar Lenira e ter um marido chamado Zé Buchudo?) pedia-lhe em segredo que guardasse para mim as vazias e perfumadas caixas de charuto, porque com elas eu faria caminhas para as bonecas. Não me furto a falar que bom mesmo era inalar o cheiro dos charutos que ficava impregnado nas caixas (hummmm…): iguaria de bêbado, pensava eu – aquela sensação de folha seca nas narinas, tabaco envelhecido, não sei definir. Hoje, acho que, por osmose, eu “cheirava charuto”, sem fumar. No chão, lembro-me ainda, feito do próprio tijolo branco que não havia como ser branco, de tanto que os bêbados cuspiam ou pisavam em dias de chuva ou qualquer estação…

Duas portas largas: sendo uma lateral, davam àquele espaço uma sensação de alma, algo quase palpável. Ao centro, um cesto, um antigo balaio coberto com um pano de linho branco, de onde saía um perfumado cheiro de pão fresco, alguns doces, um pão doce que não existe mais, com pedacinhos de côco e baunilha por cima, faziam daquele pão um manjar e uma deliciosa crosta tostada o decorava.

A isso minha mãe chamava de mercearia e eu chamava de festa.
Infelizmente, hoje, não vem à minha memória a música principal, mas sei que todas as vezes que ali entrei (com minha mãe ou meu pai) para fazer as compras, ouvia Nélson Gonçalves. Parecia que o dono da loja gostava apenas de uma música.
Hoje sei que a trilha sonora do ambiente era Nelson Gonçalves. Aqui, bem no final do texto, lembrei-me da música, que era “A flor do meu bairro”.

Talvez seja isso, aquela voz que me causa, até hoje, a memória viva dos doces e dos charutos. Havia pensamentos que me incomodavam: de onde viriam aqueles homens? Por que bebiam? Que prazer teria beber com euforia e gozo um copo de cachaça que eu a julgava amarga? – Mas hoje sei que é doce. O doce que aquelas vidas consolava, seus tédios aplacava. Para entender da vida, é preciso viver.

É preciso inalar não só o cheiro dos charutos, mas também sorvê-la e comer com a boca da emoção o sentido da vida. Degustar o amargo que há nos “incompreensíveis doces”, doces manjares que a dor dos que ali permaneciam a beber e cuspir as mágoas, etílicas mágoas…

São fugitivas as lembranças, são vivas na minha história. E posso sentir com uma alegria de mulher que não se perdeu da menina.

Um tempo lindo, um mágico tempo onde até os vícios disseram poesia.

(Ednar Andrade).


terça-feira, 10 de maio de 2011

Canção do amor-perfeito


Eu vi o raio de sol
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo 
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
já não padeço.

Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço. 

(Cecília Meireles).

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Poesia fria...





...Navalha fria
De fino fio
E corte de mestre.
Rasgas com irreverente corte
................

Este instante de inverno e frio...
E como ficam amargas tuas gotas "doces "
De gota em gota encharcas-me o peito
E molhas a lama que transparente envolves...
É FRIO ESTE INVERNOSO TEMPO
Em que me deito na espera da noite
Para fugir do arrepio
Que o silêncio traz...(atrai)
São imensos, os vagos que me abres nas veias,
São negros, os fios dos meus cabelos...
São como os sorrisos que perdi
As rugas que me decoram hoje a face e dizes ser belo,
Enquanto a solidão da poesia é pão
...E para de mim longe foram...
As certezas.
Deito-me ,descrente, sem rezar...
Seca, como se não fora inverno...
Se durmo não sonho...Tenho pesadelos...
Ao travesseiro confesso que já não há luz ...
As reluzentes horas, por horas... Cinzas são...
Um gotejar em cântico faz a sinfonia,
Meu sentido coração ficou, do teu, ateu...
Se do amor digo, é para continuar fazendo versos
E doando neles os meus sentimentos;
Pois a tempestade deste instante raro, me é muito caro
Soletro o calendário...
Pinto de alguma cor vibrante o que seria felicidade.
As horas passam tarde. E da janela do quarto miro o verde
E a ave que se perdeu do ninho...
Ela é tão triste... Tão triste...
E também sente imenso o frio
Que por aqui passeia em contraditória festa natural no verde.
E as gotas e gotículas caem sobre as flores,
Que tremem como eu,
Como um batismo "nada cristão", pois ao tocá-las, as matam...
NUMA ASFIXIA DE EMOÇÃO E LÍQUIDO.
Liquidifico e bebo a dormente calma que me cerca
Em taças escuras de bronze e desatino...
Deito-me sobre a cruz deste calvário e sigo...
Sem redenção, sem a pretensão do sacrifício, sussurro...
Sussurros, coisas pagãs, inconfessáveis...
Para que o amor não escute e ainda, em mim, creia .
É fria e afiada a lâmina que me corta...
Só as águas mornas em que me banho
Me aquecem e envolvem a carne cinza,
O inverno é poesia cega e fria de busca e espera
Dorme em mim a primavera.
E UM OUTONO SEM FIM...

(Ednar Andrade).

domingo, 8 de maio de 2011

Meu Paraíso


A fiel fotografia do Paraíso sem fim

Mãe



É o teu semblante manso
A fiel fotografia do Paraíso sem fim,
Onde tudo é divino
E tu és angelical.
Flor divinal, pérola rara.
Digna de ser rainha,
No reino celestial.
És tão pura, tão sensível;
Um verdadeiro cristal.
Devo a ti minha vida.
Dívida que nunca cobraste.
És sincera, és justa,
És também uma heroína
Numa guerra triunfal.
Cândida criatura
Que se desmancha em ternura
Para me cobrir de amor.
Mãe, esta é uma forma humilde
De agradecer-te
Este cargo amargo que transformaste
Em doçura.

(Ednar Andrade).