quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Palavra-muda


Saltando de galho em galho no cajueiro,
Leve como um pensamento...
Anum é seu nome.
"Estranha ave"...
Distraída canta...
Pela folhagem,
Bailando... Bailando... Vai...
Tudo me invade, 
Silêncio, música (sem saudade).
Nesta paisagem de verde tarde,
Descortinando  o tempo.
No olhar tenho um riso;
Na boca "palavra - muda”.
Me desnuda, me interroga,
Me  abriga,
Me  abraça,
Me enlaça... Respiro a vida.
Estranha  ave... Que, como  eu,
Canta seu canto...
...Eu? Planto flores,
Eu verso...
E  dela me encanto...
Me encanto...

(Ednar Andrade).


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Tolices


Eu dizia coisas que não sei mais dizer.
Acreditava em sentimentos
Que hoje chamo de tolices.
Amava com um jeito absurdo e inocente.
Chorava quando era pra cantar.
Algumas coisas duras,
Guarda-se na memória
De forma inevitável
E viva, como um vídeo-teipe.
Eu queria como quer uma criança,
O doce da vitrine ou a boneca mais linda,
A felicidade inexistente.
Chorava de emoção ao ouvir
Uma canção de amor
E pensava na vida como quem pensa
Num bosque...
Vivia a primavera como quem faz um poema
E beijava como um beija-flor,
Sugando da vida o néctar.
Um barquinho visto de longe,
Era como uma embarcação
Cheia de sonhos.
Aí, a vida chega, o tempo passa
E o que resta da festa
É o que a ninguém basta.

(Ednar Andrade).
(03.08.2011).

Entender




Não me cabe entender, talvez caiba, quero que caiba, preciso entranhar, desbravar desesperadamente este emaranhado de sentimentos luminosos e sombrios que me compõem. Entender porque nego o que quero tão veementemente, porque beijo este peito tão ferozmente, este mesmo retrato, este espelho. Este “eu” desconhecido, enigmático, este assombro, sombra, sombra. Gostaria de ser convidado a fugir e ir com ela, ser apresentado a este “eu” tão estranho, a descobrir o “eu” desconhecido, mudo, intenso, vestígios deste “eu” impresso em paredes antigas, paredes pedindo por sua descoberta e meu entendimento.


Tolo, acreditas mesmo que entenderás? A parede pede para ser entendida, decifrada porque buscas a ti mesmo, caças a ti mesmo, é atrás de ti que estás, por isso amargas, a incompreensão. É como fel, repulsa, não desce pela goela. Seria fácil soprar a névoa e ela se dissipar, mas assim como tu, teu ser é denso; neblina nos olhos, és assim: entradas, vísceras; és assim: tu mesmo, este espaço impresso no nada, este átomo, esta mistura química perigosa a vós, esta explosão cósmica irreprodutível,mais bizarra do que imaginas. Cabes em um mundo, mas não ele em ti, posto que és o infinito.

Esta poeira pensante, esta paisagem insensata, esta matéria indefinida, este bicho arredio que ataca monstruosamente por medo, simples, mesmo assim não há como explicar. Decodificável.

Temos medo do que não conhecemos por isso ficamos onde estamos.
o desconhecido nos assusta, nos retira deste estado permanente e denso de morte.

Cuspo na moral e bons costumes. À merda com ela, ela me matou no dia em que nasci. O medo é um quarto; conhecer é um horizonte... É noite, mas se tiveres paciência aparecera beleza com o amanhecer. A luz do desconhecido é o que quero, não quero a escuridão, a pútrida e sombria sobriedade. Ela me entorpeceu em meu nascimento, sinto que nasci hoje quando descobri a beleza do dissabor.

(Andrey Jack).

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Quase vinte e quatro



Corre no meu sangue
Um cheiro de veneno.
Vinte e três segundos mais
Sinto um germe
No meu cérebro.
Inquieta, tola, pateticamente
Canhota.
Um tique-taque na boca
Ou no pé, uma mensagem idiota
Atravessando o ouvido
E... Como de tudo duvido,
Egoísmo, possessão, não sei.
Quem sabe é insegurança? ...
Vinte e três e já não sei,
Talvez quem sabe na cama,
Essa coisa vai passar...
Seria bom dormir, sonhar...
Sonhar... Acho... Bom! (...)
Deixo escapar um flagrante
É o inconsciente safado.
Aqui todo enciumado...
Bobo, tolo, a mesma coisa.
Ai quanta besteira!
Ninguém tem nada,
Com nada.
Já é quase vinte e quatro,
Pra que essa confusão... (?)

(03.08.1984).
(Ednar Andrade).

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Jaz



Os dias passam lentamente...
Na minha lente embaçada.

Neste muro de cal
Vejo a bandeira da interrogação
E a procissão dos mortos.

De vagar, caminham sombras
Tão lentamente que o que se move
Não tem vida.

Neste muro de cal, areia e sal.
De noite é dia, de manhã; ontem
E a tarde jaz.

(Ednar Andrade).

domingo, 31 de julho de 2011

Tristeza doce


Me bateu uma tristeza,
Em volta olhei a mesa:
Bananas, canela e açúcar...
Eis aqui um poema doce.

Receita  para não sofrer... Rs...
Corte as bananas,
Açúcar-"misturinelas"
Não esqueça: por canela.

Depois, leve ao fogo brando...
Vá fazendo da dor um verso,
Que a vida fica docinha...
...E O REVERSO UM VERSO...

(Ednar Andrade).

sábado, 30 de julho de 2011

Agosto

   William Blake - Fiery Pegasus

Vem montado em um cavalo forte,
Vestindo surpresas, espalhando lendas...
Em redemoinhos, fazendo festa,
Vem, soprando a orquestra

Dos varridos sonhos,
Seresta nas frestas,nas noites longas
E uivantes lobos...
No chocalho das cobras... Esvoaçante crina.

Vem, em forma de azar,no jogo de amar,
No desencantar de um sonho errante...
Feliz cavalgar nas luas do luar,
No  credo do medo, dos bruxos ou lílites.

No  amor dos amantes
Nas tardes molhadas, tu és ventania.
A primavera, tu vens  anunciar,
Teu nome é  encanto...Teu nome é sonhar 

(Ednar Andrade).

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Amor Perfeito



O meu amor vê teu amor assim
Assim como um jardim
De flores novas
Por teu amor
O meu amor sem fim
Plantou dentro de mim
Um "pé de trovas"
E cada verso
É um botão de flor
Anunciando o amor
A primavera
Que faz do tempo uma quimera
E a nossa vida mais sincera
E o nosso amor, um grande amor
Teu coração
Jardim dos meus jardins
Me cobre de jasmins
Cravos e rosas
Meu coração
Teu carrilhão de sons
Te enfeita de canções
Versos e prosas
Cada canção é feito um beija-flor
Beijando o meu amor
Em nosso leito
Fazendo um ninho em nosso peito
Um ninho amor, de amor perfeito
E desse amor
Perfeito amor...

(Composição: Ivor Lancellotti / Paulo Cesar Pinheiro).





terça-feira, 26 de julho de 2011

Invasão


Às vezes o amor
Me chega como uma tempestade;
Queima, arde, invade...
Faz alarde ou mudo;

Como um vulcão  que desperta em chamas... Chega.
...E INDIFERENTE  DEVASTA O "DENTRO" ...
Do meu- ser-
Toma meus sentidos, desperta-me a euforia..

Depois de queimar tudo, 
Ainda pisa nas cinzas ,
Deste meu desabrigado  coração...
Fico como uma ré detida,

Dispersa, deitada sobre a dor... Desta  tortura
Como um ditador, ele vai e vem...
Em outas me chega sussurrando...
QUASE GEMENDO  DE TANTO SENTIMENTO E SAUDADES...

Pede para entrar,
E faz morada,
Fica e demora... Como se para sempre fosse
Cedo, noite, já bem tarde...

(Ednar Andrade).

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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Eu


Estou morta:
 Em mim...
Não escrevo,
Mas penso...

Penso tanto...
Não canto,
Nem me encanto,
Também não bebo pranto

Destilo alma,
E desencanto...
O que vem de mim é uma sombra
É um "sem riso".

Estou mar, estou profundo...
Sinto-me fora do mundo
Mundo- IMUNDO,
Pano sem fundo, abismo sem fim,

Nem começo,
Mundo...
Apenas como uma pena, flutuo...
Não estou triste,

Estou – só - "comigo".
Pisando areia...
Com pés descalços,
Sem pressa,

Eu.
Pele molhada,
Água & Sal..
Cabelos ao vento,

Sossego solto...
Liberdade,
liberdade...
A dor morreu.

(Ednar Andrade).