quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Meus passos


Venho de uma estrada longa,
Onde meu tempo não media,
Das minhas pernas, o tamanho
E os meus passos mediam
Os sonhos.

(Ednar Andrade).

A Poética na História

Foto: Rodrigo Sena


Por Yuno Silva
A busca pelo elo perdido que une História, poesia e cinema é o mote que impulsiona o lançamento dos dois novos livros do escritor e historiador Marco Silva. Professor de Metodologia da História da USP, o potiguar radicado em São Paulo está em Natal para apresentar as investigações que entrelaçam os assuntos e desembocam na transversalidade necessária para a construção do conhecimento. Sua passagem está dividida em dois momento: hoje, às 19h30, no auditório da Aliança Francesa, autografa a obra “Rimbaud ETC – História e poesia” (R$ 35); e na sexta-feira, às 11h, lança “Ver histórias: o ensino vai aos filmes” (R$ 48), obras que chegam ao mercado sob responsabilidade da editora Hucitec.
Historiador da USP e escritor potiguar Marcos Silva lança hoje, em Natal, na Aliança, e amanhã, na Cooperativa, duas obras que refletem sobre o papel da poesia na História e a influência desta no cinema
Enquanto o primeiro questiona a separação entre poesia e História, e encoraja historiadores a inverter o conceito difundido por Aristóteles ainda na Grécia Antiga; o segundo busca explicações históricas em produções audiovisuais e evidencia a importância de se considerar os filmes no entendimento da História mundial. Com a palavra, Marcos Silva:
Como o livro “Rimbaud Etc, história e poesia” cria essa relação entre dois temas separados ainda na Grécia Antiga?
A partir da filosofia de Aristóteles, que estabelece uma separação e diferencia as tarefas da poesia e da história. Vejamos, a poesia tem a tarefa de elaborar a invenção, a ficção, o que não existe; enquanto a História, tem a função de registrar o que aconteceu. Aristóteles defendeu esse formato, e os historiadores assumiram como tarefa deles tratar o acontecido de maneira avulsa. “Nada impede que a poesia trate do que aconteceu – vide Os Lusíadas -, da mesma forma nada impede que os historiadores e o conhecimento histórico reflitam sobre as potencialidades de uma época, projetos que não deram certo. A partir desse panorama, a poesia e a História se reaproximam – elas não são o oposto uma da outra, e é aí que está o objetivo desse livro: por um lado pensar como historiador sobre a poesia do Rimbaud e seus contemporâneos; por outro, refletir como um historiador sobre as potencialidades de determinada época.”Acredito que, desde o século 20, nós temos condições de repensar esse conceito: em primeiro lugar a poesia, encarada como experiência social, deve ser um objeto de reflexão dos historiadores.
E onde a poesia de Rimbaud se insere nesse contexto? Por que ele serve como elo e ponto de partida?
Rimbaud é muito lembrado biograficamente por sua vida sofrida, de grandes dificuldades de sobrevivência e por ter vivido na extrema miséria; e por outro lado é destacado por ter um caráter considerado transgressor na vida erótico-amorosa. Claro que tudo isso é importante para entender a poesia dele, mas sua poesia não se limita a essa ideia, ela é altamente transgressora com relação aos valores sociais – inclusive em relação à própria linguagem poética. Então o critério de escolha foi principalmente esse: a radicalidade de Rimbaud enquanto crítico social. Juntamos isso com a beleza poética de grande riqueza verbal e sutileza de imagens.
Você também disse que o livro traz novas traduções?
Isso, traduzi todos os poemas que comento no livro. Existem outras traduções muito boas, mas entendo que, no momento que traduzo, eu também interpreto. Além de Rimbaud, traduzo poemas de contemporâneos como Bodelaire e Verlaine, e de um poeta francês pouco conhecido – inclusive na França – chamado Albert Mérat, poeta parnasiano bastante convencional que escreveu um pequeno livro chamado ‘O Ídolo’, ainda sem tradução em português, onde reúne 25 sonetos sobre o corpo da mulher: os olhos, os cabelos, os seios, as mãos – acabei traduzindo os sonetos para inserir no meu livro, da mesma forma traduzo o soneto paródico de Rimbaud e Verlaine intitulado ‘Soneto do olho do cu’, que trata do que o livro de Mérat não trata. E não é de modo algum um poema agressivo, o escândalo é ser o cu – um lugar marginalizado e mal visto do corpo humano. Acho importante incluir essas comparações para compreendermos como funciona esse conflito entre a visão convencional e a extrema naturalidade.
Seu livro é voltado para acadêmicos?
De jeito nenhum. A princípio quero que ele seja lido por todo mundo, até por que Rimbaud é um grande poeta e todo mundo merece ler. Por outro lado procuro usar uma linguagem acessível, que seja analítica mas que não fique limitada aos acadêmicos. Não quero me dirigir apenas a eles.
O escritor norte-americano Henry Miller, estudioso da obra de Rimbaud, disse que o tipo do escritor francês deverá superar os estilos clássicos de comportamento estampados por personagens como introspectivo e inquieto Hamlet, de Shakespeare; e o desiludido e endemoniado Fausto, de Goethe…
Essa é uma questão muito interessante pensar nessa ascensão do arquétipo do jovem lutador, que enfrenta a sociedade e questiona os valores.
Amanhã (sexta, dia 9), você lança outro livro, desta vez investigando a interface entre cinema e o ensino de História. Como se dá isso?
“Ver história: o ensino vai aos filmes” trata-se de uma coletânea organizada em parceria com o professor Alcides Freire Ramos, da Universidade Federal de Uberlândia (MG), que comenta como os filmes podem participar desse ensino. Há uma seleção de uns 15 filmes, abordados por historiadores que enfatizam a riqueza da informação e da reflexão histórica.
São filmes pontuais?
Isso. “Narradores de Javé”, por exemplo, tem três comentários diferentes; “Cidade de Deus” tem dois comentários – os demais são comentários individuais de filmes como “Tróia”, “Limite de Segurança”, Dr. Fantástico”, “Terra em Transe”, “Casanova e a Revolução”, “Carlota Joaquina”, “O que é isso, companheiro?”, “A Odisséia”, “O quarto poder” e a animação “Fievel, um conto americano”.
Você comenta que filmes neste livro?
Em um único artigo comento três filmes: “Cidade de Deus”, “Cidade Baixa” e o “Céu de Sueli”; em outro escrevo sobre a comédia “Para Wong Foo, Obrigada por Tudo!”. Reunimos uma série de artigos de vários historiadores para mostrarmos como todos esses filmes ajudam a entender aspectos da História.
Raio-x
Marcos Silva
Idade
60 anos (nascido em Natal, RN)
Profissão
Historiador e professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – FELCH/USP
Livros
Um dos organizadores das coletâneas “Clarões da tela” e “Cenas brasileiras” (ambos da EDUFRN) e “Metamorfoses das linguagens: história, cinema, literaturas” (LCTE). Publicou individualmente “História: O prazer e poder em ensino e pesquisa” (Brasiliense); e em parceria com Selva Guimarães Fonseca lançou “Ensinar História no século XXI” (Papirus). Atua no Conselho Editorial da revista Projeto História.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Por tudo, enfim.




Obrigada Senhor,
Pelo perfume,
Pelas flores,
Pelos beija-flores,
Pelas cores,
Pelo azul do mar,
Pelas estrelas,
Que no infinito há.
Obrigada.
Obrigada natureza
Madre minha,
Pelas uvas,
Pelo vinho,
Pela noite,
Pelo ninho,
Pelo canto,
Pela voz,
Pela mão,
Que, com a minha,
Segue,
Pelo riso,
Por meus olhos,
Pela dor,
Pelos poemas,
Obrigada.
Pela Primavera,
Pelo Outono,
Pelo Inverno,
Pelo Verão,
Pelo Sol,
Por tudo
Que é verde,
Pela vida,
Pelas águas,
Pelas aves do céu,
Em seus ninhos,
Obrigada.
Pelo amor,
Pelo carinho,
Pelas pedras
Do meu caminho,
Pelo meu teto,
Pelos filhos
Pelos netos,
Pelo meu lençol quentinho,
Pelo que agradeço,
Pelo que esqueço,
Pelo que finjo esquecer,
Obrigada.
Pelo silêncio,
Por esta noite calma,
Pelo dia que amanhece,
Pelo Sol que me aquece,
Enfim, por tudo,
Obrigada.

(Ednar Andrade).

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Porque: ...


... Porque contigo sinto-me calma,
Do que a pluma bem mais leve.
Suave, mais que a leve brisa;
Mais fresca que a do mar.
... Porque contigo, viro criança.

Amada, docemente amada.
Eterna, nunca cansada.
... Mas, não é só isso:
Contigo deixo de ser mulher.
Não ligo se me viro em pedaços...


Morreria neste abraço,
Na nossa harmonia,
No esmago de um beijo sem “fim”,
... Só contigo sou verdadeira.
Duas horas contigo:


Valem uma vida inteira.
... Contigo, porque, contigo...
Foi que aprendi a amar
Sem sofrer,
Ganhar e perder,


Perder para ganhar...
Renunciar para viver.
Sorrir, que é melhor que chorar.
... Contigo eu nem sequer ligo, se sou,
Como dizes: doida...


... Porque, o que me deixa doida,
É me misturar ao teu corpo morno
E me perder nos teus perigos.
Beber prazer... Contigo...
Até ouvir um trem no ouvido.

(Ednar Andrade).
(04.05.1984).

Silenciar



O que dizer “quando”?
Sentir o que no “instante”?
Nada a fazer, por que...
Nada preenche, “lacunas”
De espaços tão bruscos.

Silenciar precise, talvez, a boca.
Pra sentir o tamanho da dor
“E gemer apenas, sem mais”!
Mesmo sem querer,
Ou por não poder até...

Até que se morra,
Até que tudo derrame.
O que dizer “quando”?
Sentir o que no “instante”?
Silenciar precise, talvez, a boca...

(Ednar Andrade).
(19.04.1983).


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A chave de tudo




Me aguças, me atiças,
Fico assim... Querendo, querer-te
Me enfeitiças...
 
Me levas ao inferno do teu céu...
*
Me queimas, incomodas...
Tens a chave do meu sossego... Do meu desatino,
Do meu des-tino
Verso que, com saudades,
Rimo
*
Tens, do compasso, o meu coração...
Do meu calendário, o tempo
Do meu amar, a  certeza
Da vida, o tema (teorema)
*
O absurdo: paradoxal,
Contraditório,
Sem razão...
Contra-senso.

(Ednar Andrade).

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Quase noite


Quase noite,cedo ,
Ainda é tarde.
Quase dia -quase ,noite...
São  como ventos, os sonhos.
Brisa mansa bate  na face,
O Sol se despede; é ,quase noite...
Um cheiro no ar...Aroma de flores
Jasmins ,cravos e rosas...
Saudade no peito ,
Silêncio, sussuros, tudo se aninha;
Nesta hora plena,sagrado instante...
Faço uma prece, por ti rogo(...)
Encanto, magia,a vida  descansa; Ave Maria*...
Suave presença ..".Mãe -natureza ,"
Quanta beleza ,quanta...
Luz de vagalume ,
No céu  "uma estrela ,"
O amor anuncia, 
Promessa, carinho,
Ave Maria... (Hora nona, hora de oração). 


Ave Maria!!!!!
(23/08/2011).

(Ednar Andrade).

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Maria



Então, sentindo o corpo cansado, esticou-se na velha poltrona verde e pôs-se a refletir... Olhando o nada, olhando através da displicente e torcida posição da veneziana  deteve os olhos no balanço regular e ritmado  da natural paisagem à sua frente, atenta aos chocalhos que pareciam instrumentos  pendurados na folhagem densa .Sem remorso ou tristeza, pensava, em como há grande diferença entre, ESTAR ou SER SÓ.

Há um conforto todo particular e uma felicidade indiscutível e incompreendida por muitos, coisa que em momentos de total maturidade pode ser sorvido como manjar: estar consigo; ter a capacidade de sentir satisfação  "nesta viagem interior"... Desfrutar da sua total fidelidade, da sua nudez  em corpo, alma e pelos. Ouvir o som do próprio ar obedecendo apenas ao apelo  das suas vontades, sem relógio, sem pressa ou compromissos. Ter uma relação verdadeira com a "verdade", este diadema de contas que nos faz contar em cada conta toda uma vivência com o que há de intenso dentro de cada um; seus medos, seus segredos, avaliar-se sem criticas alheias, examinndo com cuidado E HONESTIDADE o calendário da sua existência  em companhia da  total consciência da fragilidade existente em nós.

Maria  sentia uma  sensação de liberdade, em que o instante que no passado lhe assustaria, hoje  dá-lhe-paz... Uma certeza já tão batida e discutida - a que um dia, felizes ou o  contrário- em certo ponto da vida, estaremos sós .

E no contexto final  poder sem medo deste presente; a confiabilidade que só os anos e as experiências trazem numa bandeja às suas mãos.

Maria estica-se um pouco mais... Faz um ruído de risada, esfrega  a nuca  e depois de uns goles de água, dispersa-se na segunda reflexão...

SER SÓ(?).

É não ter com que conferir o riso, não ter com quem tomar uma bebida ,com quem compartilhar uma tristeza, dividar alegrias(a)
chorar sozinho, falar com ninguém.

Ter a mão na própria mão"  se não há da sua uma irmã, e nas frias tardes, mesmo que aconchegantes, olhar em torno do silêncio e não deseja-lo  perto.
Por a mesa para dois e tomar só o café  com creme; não há açúcar que adoce. Olhar em volta de si e ser um "ser sozinho" , além de muito triste  é como não  respirar, se não há para quem, se não há quem amar. 
Amor receber, compartilhar é um sentir sagrado .

A vida é um dom , um acontecimento ímpar  de uma beleza inexplicável... Os contos da vida escrevem-se sozinhos? Ou os escrevemos lado-a -lado?(???) Não são para todos, iguais, os caminhos desta vida. Para cada um existe uma história, um conto, bem ou mal narrado
....(...) Como  acordando de um sonho ruim, Maria levanta-se abre a janela, feliz sorri e constata  o seu nome inscrito na primeira lista.

Estar só é maravilhoso. Escrever os contos da vida e ter personagens vivos ... Não tem preço.

(Ednar Andrade)

(15/08/2011).

Ser-tão simples...



Não há... Não há, não...
Coisa mais singela, mais bonita e sincera
Como este nosso "ser-tão" simples, verdadeiro.
Do amor amigo; da amizade irmão.

Não há....
Não há, não...
Como tão bem disse Catulo: "não há..."
Aqui neste lugar belo e esquecido,

Também eu quero morrer...
Onde a tarde a sururina
Canta e o silenciar tudo rima,
O que me desanima...

Não há... Não há, não!!!
Lua mais bonita, detrás do morro a me olhar...
Maior melodia que esta que aqui há.
Coisa mais bela!!! Mais  linda do mundo...

Onde mora minh'alma
Aqui quero viver, ser feliz amar morrer,
Nas manhãs poder cantar livre, como um sabiá,
Vestida de natureza... Não há.

Pés descalços, mão na terra
Fazer castelo na  areia...
Me perfumar de lagoa,
Me temperar de mar...

(Ednar Andrade)

(17/08/2011).

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Palco da Vida



Você pode ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não se esqueça de que sua vida é a maior empresa do mundo. E você pode evitar que ela vá à falência.

Há muitas pessoas que precisam, admiram e torcem por você. Gostaria que você sempre se lembrasse de que ser feliz não é ter um céu sem tempestade, caminhos sem acidentes, trabalhos sem fadigas, relacionamentos sem desilusões.

Ser feliz é encontrar força no perdão, esperança nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros.

Ser feliz não é apenas valorizar o sorriso, mas refletir sobre a tristeza. Não é apenas comemorar o sucesso, mas aprender lições nos fracassos. Não é apenas ter júbilo nos aplausos, mas encontrar alegria no anonimato.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da  própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Ser feliz é deixar viver a criança livre, alegre e simples, que mora dentro de cada um de nós. É ter maturidade para falar “eu errei”. É ter ousadia para dizer “me perdoe”. É ter sensibilidade para expressar “eu preciso de você”. É ter capacidade de dizer “eu te amo”. É ter humildade da receptividade.

Desejo que a vida se torne um canteiro de oportunidades para você ser feliz… E, quando você errar o caminho, recomece, pois assim você descobrirá que ser feliz não é ter uma vida perfeita, mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância.

Usar as perdas para refinar a paciência.

Usar as falhas para lapidar o prazer.

Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.

Jamais desista de si mesmo.

Jamais desista das pessoas que você ama.

Jamais desista de ser feliz, pois a vida é um espetáculo imperdível, ainda que se apresentem dezenas de fatores a demonstrarem o contrário.

Pedras no caminho? Guardo todas… Um dia vou construir um castelo!

(Fernando Pessoa).