sexta-feira, 28 de maio de 2010

A Cara do Dia




Acordei, e como quem faz um texto; abri minha janela.
Rsrs... E lá estava ele; o Sol, lindo para mim, sorrindo...
Ai! Meu Deus!
Que alegria! Que contemplação!
Tão lindo!!! Iluminando a vida, iluminando o céu...
Me dand0 a certeza de viver para esperar... E crer, no amor.
Para respirar a poesia que há... Nesta manhã;
Intenso e quente como o fogo;
Vermelho como a paixão que há no amanhecer dos apaixonados;
Mágico como o coração dos encantados;
E tão secreto como o coração dos poetas que vivem um amor pagão.
Uma sede, um afã, um desejo, um beijo,
O Sol que é tudo: vida ou morte.
A vida vista da janela.
Meu dia claro, minha paz,
Mesmo sem razão, minha fé,
Meu raio de Sol,
Minha janela de onde vejo a vida.
(Aqui, deste cantinho, assisto)
Da saudade, a fresta.
Aqui do meu canto assisto este espetáculo que o Sol me desperta.
Respiro...
Fico feliz, pura emoção;
Este aconchego entre nós e a natureza.
Minha dúvida não tem certeza;
Meu sentimento, razão.
Já que para ser feliz não preciso dela... Rsrs
Razão, razão para que?
Eu quero é viver, amar.
Amar da forma que sei...
Ser feliz e gozar da felicidade de pertencer à poesia
E ela a mim pertencer.
Se sou louca ou desvairada não sei, não quero saber.
A vida e o tempo já não cobram de mim nada que não tenha dado, sentido ou doado.
O amor, este me rega as veias de uma forma sem tamanho.
Busco sempre encontrar o calor da minha verdade
E ela é tão ardente que me inspiro no Sol
E a comparo com a minha vida;
Meu maior deleite nas manhãs:
Abrir a janela e deixá-lo entrar;
Entrar e aquecer.
É como um soluço incontido,
Sai da memória manhãs tão lindas...
Olhando por sobre as janelas,
Vejo as montanhas altas de verdes,
Paraíso que é chamado, por ser assim, de Sol.
Me encanto, me encanta e canto
Em notas que desconheço
Esta música matinal,
Que me dá de presente tanta melodia e prazer.
Sou amante do Sol, sou a própria Lua
Que neste alvorecer fica nua
E vestida de tanto sentimento...
Viagem de emoção;
Minha respiração muda
E meu coração se contrai com mais força e compreensão
E penso numa canção do Roberto, onde ele canta: “Além do horizonte”.
Sorrio, faço um tour, vou até o meu paraíso,
Onde a passarada com alegria certamente desperta e canta.
O Sol, sempre tão belo,
Meu mensageiro do amor...
Minha, quase sempre, inspiração;
Eterna e doce visão.
Talvez, por isto, eu goste tanto das janelas...
Pois são elas a moldura das manhãs...
Aurora boreal, temporal ou arco-íris.
Mas eu, daqui, assisto ao Sol que me deixa tão excitada e sonhadora...
Do Sol, amante;
De calor, plena.
Olho em volta, tomo meu café feliz.
Nesta manhã em que meus olhos despertam, assisto tão belo cenário.
Obra de Deus;
Fruto da vida;
Excelência da natureza.
Vivo em meu ser, és magnífico, és o rei da manhã,
A fotografia real do Universo; da minha visão, meu pomar de luz,
Transbordante de raios que cintilam dentro e fora do meu peito;
Festa do meu olhar; oração que digo em silêncio;
Minha paisagem divina; meu Sol.
A cara da manhã.

(Ednar Andrade).

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Editando no teu Corpo


Foto encontrada na web.

Deslizo poemas do meu idioma
No editor da tua pele
Rimas ardentes, quentes, estrofes rimadas
Harmonizando o “sol” em sua nota "la, sem dó" em versos da nossa música
Falo a língua do teu corpo com minhas mãos reproduzindo os teus gestos
Dormências dos dedos na grafia sonora
Respeitando teu ritmo e tempo no teclado musical
Poemas sem recatos escritos com as lavas do teu vulcão, em constante erupção
Rimas com o magma expelido em sons ungidos das tuas chamas
Poemas que cortam com seu fio de navalha teu decote e contornos
A figura de linguagem é a nossa do desejo
Grito a nossa língua em ardentes beijos


(El Brujo).

terça-feira, 25 de maio de 2010

Fins de tarde



... E à tardinha... Eles voltavam. Passavam em minha porta, chapéus rasgados, pés descalços, cigarro de palha... Um a um, olhavam para o meu sisudo pai que ali estava sentado em todos os finais de tarde, como quem fazia uma oração, postado à porta. Uma velha cadeira, como que saudando à tarde. Lembro-me do muro da minha casa, pintado em amarelo... Janelões protegidos por grades de ferro... De frente para o pôr-do-sol. Rua de areia, não havia asfalto e lá eles vinham... Eram os pescadores, que voltavam para o lar... Passavam um a um, nos cumprimentavam, com uma reverência incomum: - boa tarde, senhor! – boa tarde, sô – meu pai respondia.
 
Era um ritual que antecedia a Ave Maria de Gounod. Eu recostada no muro, achava maravilhoso aquele calor, para ver a tarde cair. Lá da cozinha, um perfume exalava... Batatas-doce, uma boa carne assada na brasa; um banquete nos esperava... Tia Zefinha, uma boa senhora que nos criou, companheira das lutas domésticas, fazia o café. Aquilo era como um incenso que sinalizava a noite... Meu pai, homem forte... Musculoso, bonito, cabelos lisos, bem-humorado – herdei dele o riso... Homem sério, homem calado. Parece que tinha o saber, para mim ele era o livro – havia nele um mistério, eu não conseguia ler. Mas era lindo o anoitecer. Ás vezes, ouvíamos um som, era o sinal, um aviso de que o navio aportado anunciava a partida. E ele me dizia sábio: “o navio está indo embora”. Relatos da minha vida, partes da minha história.
 
Este homem mudo e tão calado e falava dos astros, das estrelas, das estrelas cadentes e eu ficava contente; de tudo que ele dizia, era eu crente. Momento que não esqueço e quando assim, de repente, ouvia no rádio a canção mais bela, que até hoje escuto: “Ave... Maria... Maria, Maria...” Então minha mãe chegava à porta e anunciava o jantar. Ali começava uma ceia, meu pai, minha mãe, meus irmãos... Era uma comunhão que o tempo não vai apagar.



(Ednar Andrade)*****

domingo, 23 de maio de 2010

Na tua Geografia quero fazer Mestrado - Loucuras Geográficas

Imagem pesquisada na web.

Por Ednar Andrade

I – TESES DE MESTRADO EM VOCÊ

TUA GEOGRAFIA BIOLÓGICA I

Conceito, observação, olhos nos olhos, da tua geografia biológica, curvas, acidentes, temperaturas altas e baixas e a relação com outras ciências de intercurso, paciência ao interar-me dos organismos do meio. O aparecimento e evolução dos seres vivo, seus montes e picos em total elevação.

TUA GEOGRAFIA BIOLÓGICA II

Estudo zonal das paisagens biogeográficas nos teus vales. Os grandes biomas savanais, teus campos e desertos, períodos climáticos para tua colheita e estiagem. Estudo de toda tua vegetação, cerrado, savanas, selvas e zonas rurais. Descobrimento das melhores zonas... Irrigação das cavidades internas.

TUA GEOGRAFIA FÍSICA BÁSICA

Introdução, Sol na Lua, Terra no Universo. Orientação geográfica na tua rosa dos ventos. Novamente tempo atmosférico e clima. Estrutura da tua dinâmica das formas de relevo. Hidrografia, dos teus fluidos. Teus solos e tua flora tropical.

TUA GEOGRAFIA HUMANA E ECONÔMICA

Teus recursos naturais e seu aproveitamento completo. O aproveitamento econômico, economizando no teu-espaço, e gastando energia no seu interior. Caracterização e exploração das tuas grandes regiões sul e centro-oeste principalmente.

INTRODUÇÃO ORAL A TUA GEOMORFOLOGIA

Exploração da tua natureza, teus elementos e fatores geomorfológicos. O controle estrutural, tectônico e tátil-no-teu-cônico nas geoformastologias do teu prazer. A tua influência climática no controle litológico dos meus beijos. Processos dominantes nas vertentes dos teus lábios verticais. Beijos em processamentos nas tuas formas fluviais, troca de fluidos salivares, com suores e outros líquidos. Pesquisa dos teus rios e afluentes, bem como das correntes.

SISTEMAS DE INFORMAÇÃO DA TUA GEOGRAFIA

Informações especiais avaliadas no tato, mapas e sistemas de informação geográfica dos teus conceitos em nossas relações. Funções vitais, no vital momento, pra isso uma breve leitura da previsão do teu tempo. Coleta dos teus dados, feita visualmente ou através do estudo e contato do falo, geocodificação e tratamento do que tem dado, como e quando, e das contrações da superfície e das cavidades profundas. Gerenciamento de tuas informações geográficas e estruturas de suporte, suportando e se entregando do jeito que gosta (O quanto suporta e como suporta). Sistemas: aplicações e introduções lentas e rápidas na sua profunda cratera interior.

GEOGRAFIA DA NOSSA CO-PULAÇÃO

Bases teóricas, PRÁTICAS e conceituais da geografia da Co-pulação. Métodos e técnicas em práticas táteis, orais-corporais. Dinâmica de toda tua geografia em ritmos de entrega. Estrutura e crescimento dos relevos na excitação. Políticas de pulsos e impulsos e processo de procedimentos invasivos com instrumentos nas tuas cavidades, para colher teus dados científicos e obter o máximo de informações dos teus recursos naturais.

TEORIA NAS REGIONALIDADES DO TEU CORPO

Fundamentos epistemológicos regionais das tuas curvas e relevos. Métodos osculares em todas as regiões. Critérios clitórioso das sensações durante o tráfego palatal, conforme seus prazeres. Ocupando teus espaços linguisticamente.

(El Brujo).

Liberdade


A liberdade conduzindo o povo, quadro de Delacroix

Por Ednar Andrade

E ele estava ali! Cabisbaixo, olhos cravados no chão, mãos para trás: a representação visual da infelicidade e da vergonha. Seu advogado tinha falado em transação penal (um tal de prestação de serviços à comunidade, frase que de tão comprida e pomposa, terminou decorando) que o livraria da prisão. Mas ele continuava ali, sendo julgado por seu ato impensado, uma "tolice" (pensara antes de fazer), mas agora via a gravidade do mesmo. É certo que não foi um delito dos mais complexos ou comprometedores, mas ele, que nunca tinha experimentado uma situação assim, perdera bens mais preciosos que qualquer riqueza material: paz, liberdade, tranqüilidade, dignidade.

Absorto em seus pensamentos, lembrava-se do que seu pai dizia: "Com responsabilidade, você tem a liberdade para fazer tudo que quiser e puder". Então, ele começou a ouvir, ao longe, uma voz falar-lhe: era o juiz que estava a fazer uma síntese dos fatos para, depois, dizer-lhe dos benefícios da tal "transação penal" e só então indagar-lhe: "O senhor concorda?" Sua resposta durou o tempo que os neurônios levam entre o despertar para o fato de estar sendo perguntado e a pronúncia das palavras; respondendo (após este intervalo para o cérebro processar as ideias): "Sim". Um monossílabo que ainda não o demovia da angústia interior de ter errado; sentimento próprio dos homens honestos.

Pronto, agora assinara um acordo na Justiça e iria mensalmente trabalhar como carpinteiro - ofício que bem desenpenhava - em uma instituição de caridade, como punição por seu erro.

Para com a sociedade ele iria se redimir; mas de sua consciência, quem o absolveria? Que advogado seria tão brilhante a ponto de livrá-lo de seu próprio julgamento? Sabia que aquela assinatura não o eximiria da condenação de sua consciência ou, pelo menos, que um bom tempo seria necessário para o seu tribunal íntimo conceder-lhe o benefício de uma liberdade condicional: a aceitação de que, com o erro, crescemos.

(Danclads Lins de Andrade).  

sábado, 22 de maio de 2010

Caminhos e descaminhos



Para chegar aonde cheguei é preciso caminhar, pisar descalça no chão até ferir o pé (...), furar a sola com espinhos, fazer bolhas, criar calos; nunca calar; calar, não calo! Cantar chorando, dizer versos ao inverso, ser repentista de repente, ter um olhar no infinito e ir além... (Do horizonte). Rasgar a mata com dor, ouvir o lamento dos galhos que a foice corta sem dó. Ter no peito, em vez de rosário, um trançado de "nós". É preciso, além de tudo, viver a vida urgente, antes que o tempo chegue, a boca cale e os olhos silenciem a prece. Para chegar onde cheguei, minha tristeza deixei esquecida nalgum lugar. Segui trilhas solitárias, sem medo, esta navalha acariciei. Fiz de tudo, ainda faço, para viver neste regaço, onde a dor é o rouxinol e o labirinto trançado. Para pisar o que pisei, nem precisa ter chão, porque borboleta voa... Para pisar onde quis ir, fui até onde não pude. Ficar é que não fiquei.

Para chegar onde cheguei, subi montes, desci serras; fui ao pó, estive no inferno; comi o pão que o diabo não tocou, fiz da dor minha alegria; semeei neste deserto as sementes do querer, reguei com lágrimas todas para vê-las florescer. Os meus dias foram noites, noites sem boemia, sem encanto, luar sem poesia, carnaval sem fantasia. Para chegar aonde estou, morri e nasci para o amor e que ninguém me pergunte o que é ser como sou.

(Ednar Andrade).       

quarta-feira, 19 de maio de 2010

(O jiló da vida)



...E já disse o “velho e sempre novo” Chico Buarque: “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.”

É o jiló da vida que, por vezes, te faz vomitar as entranhas, revirar o estômago com nojo. Abrimos os olhos para ver a boca do dia, e ver “tudo”, parece inevitável, tudo azeda, tudo amarga, pois o dia-a-dia é um manjar cheio de surpresa, está sempre entre o doce e o fel, entre o amargo ao acre, entra pelos olhos, passando pela boca e sem pedir licença vai até a garganta em direção ao nosso coração que nada tem de intimidade com esta pimenta... Neste dia tudo parece ter um único sabor; salada de perguntas, questionamentos tantos, que o café que poderia ser doce e suave recebe um açúcar com porção de areia, que te faz travar até os dentes... Uma refeição feita de sabores escondidos que sabemos ter no armário, mas, sem jamais querer provar, fingimos não saber, ficam ali as doces frutas. Parece que tem olhos e tu as olhas, como se te traíssem ou omitissem, nada dizem, o seu doce aroma perde-se no jiló desta hora em que num segundo tudo é vomitado, e se abres a janela para respirar o dia, não está com cara de feliz, até o Sol, conspira contra ti... É quando percebes que o banquete está amargo, alguém errou na dose deste café desencantado, sais da mesa, atravessas até a sala; uma olhadela no jornal... Tentativa de leitura, nada diz-nos nada, quem sabe cala quem omite faz cara de bom, e nenhuma borboleta, nesta manhã sem graça vem te visitar, concentro-me no que tento em vão ler. Quem sabe hoje pelo menos lerei algo de novo, quem dera algo bom aconteça em outro lugar, a mesma bobagem, o mesmo governo, as mesmas intenções, tudo continua podre... Muita mentira, pouca ou nenhuma verdade, rs. VERDADE que palavra é esta que já não existe... Que virou sorvete, Maria mole, doce de coco - coco com acento no ultimo “o”-, que, de delicia, nada tem-, tudo enlatado, tudo mofado, química mal elaborada, contagiante, contagiada, de maldades recheada, segue esta mentira, que agora aliviada por “Dunga”, conversa do momento, a anestesia com longa duração, o bálsamo das próximas horas diante da tela (nada contra a copa), digo pois que ela talvez seja o ”refresco” que todos beberão para esquecer ou mudar o sabor deste jiló. A copa vira pão na mesa dos que não comem, melhora o capital e as capitais, continuam no caos e eles dizem que no âmbito geral desta mentira tudo melhora toda esta euforia vira motivo para aumentar o alcoolismo, crianças nascerão e terão nomes famosos (nomes de jogadores). Nos dias de jogo, macarronadas maravilhosas, regadas por “vinhos que alguns não beberão”.
E a vida vai assim, pintada com cores transparentes, hoje parece que “entender e ler a vida” é beneficio dos cegos, pelo fato de fazerem leitura em braile, só eles sentem no tato a leitura, só eles tocam as palavras com tamanha sensibilidade e prazer... Só eles podem acreditar no verde destas matas (extintas) já sem tintas verdes que as pintem com emoção (...).(Brasil!!!!!)...
...Fecho o jornal, encaro a porta, lá fora quem sabe ávida esteja a vida colorida. O amargo fique doce, mas antes volto à mesa tomo um café sem açúcar, por que hoje fiquei “P” e sei com descontentamento que nem eu nem tu, nem ninguém pode adoçar o jiló ou deste sapato apertar o nó, é como querer Sol em dia de CHUVA; é não ter pé e querer usar sapato, ou como diz a velha e batida frase é “correr atrás do vento” e o cordão dos condenados cada vez aumenta mais...


(Ednar Andrade).

segunda-feira, 17 de maio de 2010

(O velho amigo) Como um velho casaco jeans assim vivia...

 

Já conformado, marcado pelo tempo, esquecido de si mesmo, ali morava ele dentro da caixa, sem a memória real do seu valor. Ali ouvia histórias da vida, lembrava momentos, carregava no seu cheiro de guardado segredos e confissões, não havia nele novidades para contar; a vida o fez assim jogado, esquecido de sonhar... Foi já tão amado, tanto amou, tanto viveu... Agora seu universo era apenas um armário, portas que se abriam, pessoas que nem o olhavam, por ele passavam sem lhe tocar... Seria ingratidão assim pensar que foi esquecido? Ou, o seu valor mudara? e agora tantas outras coisas aconteciam... O que o fazia ali está esquecido, descartado? Foi companheiro de sonhos, deu tanta festa, doou muita euforia, via-se esquecido agora, dizia-se amarrotado, sem graça, um leve desbotar já anunciava que tudo era menos sem cor. Quem sabe no vai-e-vem das horas alguém poderia dele lembrar... Pura ilusão; descontentamento, e então... Lamentos, recordação, muita saudade. Saudade da felicidade de crer no sonho, de ir em busca do novo acontecimento, e assim olhar na cara da covardia, sair do seu lugar seguro, colocar-se à prova do desconhecido... É preciso recomeçar, pensava. Com muito medo quase morria no armário, na dor, todo perdido; vivia sem respirar... Até, que numa bela manhã, levado pelo descuido do seu destino, viu a fresta que o levaria para a sua liberdade, num gesto brusco e magoado sai da caixa; olhou em volta de si, há vida.

La fora, tudo é diferente... Mas nada é tão mudado que eu não possa retomar a minha já “suposta” (perdida felicidade). Fora do armário o dia tem outro cheiro, o Sol brilha e dá sentido à minha respiração, pulsa, remete, alerta-me a alma fraca quase doente... Olhos atentos, nas mãos os sonhos, uma vontade imensa de sorrir, alguém, por favor, conte-lhe uma boa piada, faça-o voltar a sorrir, pois é urgente ter vida, perder esta poeira que o tempo deu-lhe como uma camada protetora e falsa. Esteve tanto tempo renegado, renegando-se, perdendo-se da magnífica palavra: “LIBERDADE”, liberdade sim! De ver-se vivo, de ir ou ficar, e apenas por querer ser o que é, sem dar explicação, com a cabeça sobre os ombros, sair do esconderijo, as ervas daninhas dos seus caminhos já tão batidos do seu tempo... Um tempo que jogou fora com tamanha ignorância da tal felicidade (felicidade? Que palavra é esta que já não me é pão?) Pensava , chorava, gemia na sua nova busca de viver. Nascera agora, passava pelo fogo da desilusão, para chegar ao frescor da aceitação do real (Realidade), palavra que a alguns assusta, pois ela trás consigo a pura flor, o direito de ser como ela se apresenta, sem pedir licença instala-se na vida , que por vezes lutamos em rejeitar.

Assim, e vestido de uma tentativa de reviver, saiu, abriu a porta, pegou o seu antigo jeans, deu-lhe umas batidas de saudação, pediu-lhe desculpas pelo abandono, sorriu para o velho amigo, e disse-lhe com um sorriso novo: “agora virás mais uma vez comigo, já não estaremos sós, direi e ouvirás, calarei e entenderás, pois nesta vida quem não precisa ter fora do armário um velho casaco jeans?” Limpou-lhe os cantos, arrumou, cheirou, vestiu e saiu buscando os novos caminhos. Descobriu portas, janelas, e reviu tantos rumos... Foi correr de encontro a tudo que deixou no desencontro, jogou sobre os cansados ombros o velho companheiro e partiu, agora consciente da inércia em que vivera, olha-se no espelho, põe na mochila a coragem e segue com a força e a certeza de que é preciso trilhar esta estrada: VIDA, sem olhar para trás, sentir-se bem-aventurado e seguir na direção do horizonte que o espera.

(Ednar Andrade).

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Johann e Maria (Parte VIII)

Foto encontrada na internet.

Como é bom amar! Não importa... em que contexto o amor se apresenta. O amor pode submeter à escravidão, pode ser profano. Em nome do amor pode-se cometer enganos; acreditar numa felicidade que, de tão desejada, passe a ser o alimento para alguns corações; fonte inesgotável de vida; santificado pão que do anseio desta necessidade, vivem todos os seres. O amor, um sentimento que copula sem parceiros; o amor é erótico em si mesmo; palavra que ninguém... pintou em vermelho; liberdade que aprisiona; prazer que faz doer; o ar que nos impossibilita de respirar... a saudade que adoece e que cura a solidão.

É este o sentimento que agora invade Johann e Maria; este sentimento que brotou do nada, invade suas almas com uma intensidade que assusta. Assim, como náufragos, buscam na dualidade deste sentimento salvarem-se desta tormenta que os deixa desorientados, sem paz; avalanche de emoção que os sacode para qualquer lado; fragiliza; transpõe; modifica; lucidez e loucura; sanidade, doença sem cura; ponto, contra-ponto; certeza e medo; luz e calor; querer como um cego tocar o invisível; saber o sabor e o odor de um sentimento abstrato; isto é amar? O que é o amor? O desejo natural do homem de não estar só? ou uma necessidade de permanecer no outro?

O amor é sentimento único, mas não é igual. Isso o faz um monstro terrível e ao mesmo tempo desejado. Torna o homem masoquista, egoísta. É tão forte que desmascara o individualista. Quem nesta vida pode ser tão rico sem ter um ser amado? Que delícia teriam as águas do mar se fossem insípidas? Que beleza teria a noite sem ter o céu de estrelas bordado? Que fascínio teria abrir, ao amanhecer, uma janela se o Sol não fosse dourado?  E no campo a Primavera sem os apaixonados querendo flores para colher? Que suavidade há no olhar dos que não amam? Que certeza há nos corações dos que não crêem no amor? E quantas dúvidas moram, perpetuam-se nos corações dos que amam? É o doce e o sal, o amor; o veludo mais áspero que a minha mão já tocou; é a ferida que mais arde e que parece não precisar de cura, porque se ela cicatriza vem com ela a morte do amor. É preciso que doa para permanecer vivo, é preciso que lateje - não basta ser latente -, incomode, tem que ser mesmo forte, irreverente, cruel, um carrasco que castiga, causando prazer em vez de dor.  Só assim pode ser amor; inquietante, barulhento, dentro da alma. Mesmo que às vezes a boca cale, o amor precisa ser uma tormenta dentro do coração. O amor vive da guerra dentro da paz que proporciona. Alimenta-se do desejo contínuo de permanecer... Indecifrável, indefinido. O amor me faz entender de amar; não de amor. 

Para entender de amor, morri. Até jurei desamar ou nunca mais amar, mas com este poderoso, quem pode? Vira e mexe, você xinga o mundo, desfaz-se em pranto, risca, rabisca sentimentos, pensa que chegou ao mais profundo e, de repente, você submerge e emerge das águas profundas deste sentimento um outro amor. Amores são amores, divergem tanto e não poderia ser diferente.  Por ser universal é único, não é comum; tem personalidade; chega diferente a cada um. O amor... A dor que ninguém rejeita; a poesia que todos querem cantar; o profundo mar; o abismo que todos querem velejar; o obscuro; o negro; o transparente; o claro sentimento da vida. Nele tudo está contido. Tudo há. Não há falta de razão no amar, no amar de cada um. No modo de dizer que sente, ama ou de sentir. Ele é permanente. O eterno sentimento... Sem face, sem cheiro definido, sem lugar-comum; nasce nos becos, no gueto, na lama, em sodoma, em gomorra, onde quer que ódio morra, nasce o amor. Eu desconheço sentimento mais profundo, nem o vinho mais caro, nem a uva mais rara, nem o manjar mais doce tem o seu sabor. Um sabor tão raro, doado pelos deuses, presente divino; anjo sem rosto; um céu cheio de inferno; e fogo; que nos consome; purifica e dá vida.

Assim, é o amor... Doce mistério da minha vida, da tua, de todos; quem não carrega consigo a larva desta borboleta tão mutante com asas plenas? um viajante sem pouso certo habita nas noites, até nos sepulcros; no coração daqueles que mesmo enterrados foram, levando consigo um segredo de amor; os mistérios noite a dentro nos cemitérios, quantos partiram pobres sem provar o seu sabor? No coração da prostituta, que a carne doa sem pudor, nela também habita o amor; este sentimento que me move, te move, conduz o mundo; do santuário ao profano ele é a mola que move, que faz vibrar, que pulsa e faz jorrar sangue ao órgão mais vital; vício; adrenalina; pulsante coração cheio de amor habita em todo ser que ama. Será assim o amor? Tenho amado tanto... Tento entender o amor. Não existe no mundo este professor. Todos já tentaram traduzir, tentam tingir de alguma cor. Muitas tentativas e ele será sempre mutante, errante, perpétuo, imperfeito, frágil, sutil , assim como as estações: chuvoso, nublado, outono perfumado, quente como o Sol, num dia de Verão, com seu aroma de Primavera, inconfundível; o seu colorido possui cores tão cintilantes, tão diferente; ninguém consegue pintar um quadro com a verdadeira cor vinda do amor.

E agora, Maria e Johann deparam-se com esse tratado: fugir? encarar? aceitar? adotar este querubim? ou este demônio? E agora Maria pergunta porque um sentimento tão lindo nos tira a paz? nos arremessa contra o rochedo no meio do mar? Assim, como náufragos, navegam lado a lado; seguem sem a bússola que é o porto inseguro que os fará aportar com um sentimento alado. 

(Ednar Andrade).      

quinta-feira, 25 de março de 2010

Johann e Maria (Parte VII).


Foto pesquisada na web.

Maria, fechou o piano, foi até a sacada, colheu um jasmim. No bilhete que recebera de Johann, havia, no rodapé, o número do seu celular. Por vezes, Maria sentiu-se atraída, com imensa vontade de ligar. Faltava-lhe apenas coragem para ligar e dizer para o seu amado que a saudade a incomodava tanto... Discou o número que esgotou todas as possbilidade de ser atendido, por certo Johann dormia. Mas, como não resistiu, deixou-lhe um recado na secretária eletrônica: amigo, saudades... Chamava-o de amigo, pois entre eles nada existia. Apenas em seus momentos silenciosos, dentro da madrugada, chamava-o de meu amor.

Esta seria uma noite que ela presumira, de paz, depois da visita de Eleonor, pois ela deixara consigo a sensação de suavidade. Entrou abriu as janelas, deixou aquelas brisa mansa da noite. As cortinas transparentes batiam-lhe na face como se fosse um carinho. Maria sentiu um aperto, veio-lhe de súbito uma vontade de chorar. Parece que seu corpo todo ardia de desejo por aquele homem nunca tocado, pois a única certeza de tocá-lo fora aquele abraço, quase que ousado, que demorou segundos, quando sem querer suas bocas quase se tocaram. Era a sua sensação de haver beijado aquele homem; sua memória única de intimidade com aquele rosto iluminado. Hoje a saudade deste momento veio-lhe visitar. Queria tanto beijar pela primeira vez aquela boca, sentir o seu hálito, sentir qual aroma sairia daquela boca, daquele beijo. Desejava ardentemente ser abraçada por aqueles braços fortes de homem. Segurou os seios e os apertou como que oferecesse a Johann, num gesto mímico. Apertava-se, sentia-se contraída. Da sua boca saíu um sussurro. Ela disse: "Johann, meu amor, como te quero"... Maria estava, pela primeira vez envolta por uma sensualidade ímpar. Agora tinha a certeza que, da alma, passava à carne aquele anseio. Como a incomodava aquele homem, aquele quase estranho. 

Sentia um descontrole na carne. Rolaria naquele tapete com Johann, até o raiar do dia; ofereceria a Johann seus seios como o néctar do amor. Imaginava aquela boca quente a beijar-lhe o corpo. Estava neste enlevo, quando seu telefone toca. Num gesto impetuoso corre. Na sua alma havia uma certeza: - Era ele. Achou até que seus pensamentos haviam chegado àquele coração tão distante. O seu desejo viajara para tão distante que o fez acordar e desejá-la também. Atravessou a sala, o telefone ainda estava sobre o piano. Não era Johann. Alguém ligou errado. Maria entristeceu e o seu desejo de ouvir aquela voz,como uma tempestade, evoluiu e ela ligou para Johann. Uma voz rouca e mansa disse-lhe: - Alô! Johann reconheceu a voz de Maria. - Alô Maria, eu precisava tanto ouvir a tua voz; a saudade me consome. O silêncio fez o texto. Entre sussurros de felicidade, fizeram confissões, disseram coisas lindas, como queriam este momento que, com certeza, definiram no inconsciente desde o primeiro encontro.

Maria diz-lhe segredos que guardava durante todo este tempo. Confessa por ele o seu amor platônico. Johann, por sua vez, confessa: - Tu também me incomodas tanto Maria, quero o teu amor a cada dia. Não sei medir o quanto; só sei que te quero, que te quero tanto... te quero mais a cada dia. Como te desejo, Maria, como quero beijar-te a boca quente; dizer sussurros de amor ao teu ouvido. Meu corpo te quer; és como a água que a minha sede de amor mataria.

Maria silencia e chora; uma lágrima não de tristeza, mas de satisfação, pois agora conclui que seu amor é correspondido.

O amor para Maria e Johann chega assim de forma súbita. Como no poema de Ednar Andrade:

O Amor


O amor dorme/
No leito de um rio que corre dentro da alma de quem cala/ (...)
Vagueia ...e delirante nos ofusca/
Diz que não ama, mente/
Faz com que as nervuras das águas molhem corações/
Mente...minto, mentes.../
Mas calma , apenas sinto/
O amor desperta/
Quando o sol da vida encontra uma fresta/
Invade irreverente/
Ele apenas chega/
Assim chega as vezes sutil/
te pega , te deixa/
Abre ou fecha a porta/
Mas é o amor/
Nada a mais importa/
Quando ele chega *

(Ednar Andrade)



Nada mais importa para Johann e Maria a não ser viver com intensidade esta chama de amor. Esta loucura que muitas vezes transforma-se em luxúria em seu sonhar. Querem-se tanto; desejam-se tanto; como é bom amar...