domingo, 9 de setembro de 2012

Fugitiva



Todos dormem.
A quietude é como lei.
Eu burlo este sussurro,
O pensamento
E a razão.

Tudo sossega...
No meu desassossego,
Habito o deserto
Da desarmonia.
A vida parece um filme,

Onde assisto
O desenrolar
Do imperfeito
Sentido meu.

Há um descompasso
Que sigo passo-a-passo.
Há uma incerteza
Que me impulsiona
Para a certeza que me habita.

Não há guerra.
Há, apenas
E tão somente,
Uma certeza latente

De que tudo é
Quando não parece ser e estar.
E eu, fugitiva
Dos mais vários sentimentos,

Refugio a agônica
Alma transcendente
No que calo
Para suportar.

(Ednar Andrade).

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Poesia



diante da palavra
espelho arte fato
fazer-se verbo
o deus em cada
oração sem sujeito
nem silêncio
em busca de quem ouça
além de mim
ecos de ecos
primeira vez
norma riscos
porque poesia
seção descontínua
seleção cultural
aprender no em si no
era uma vez
talvez outra
navegar o nunca

(Marcos Silva).

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Primavera Azul



Daria a ti o azul turquesa que nos fascina
E as flores desta nova primavera,
Seriam, sim, feitas de todos os tons de azul...
E da verde esperança que alimenta nossa espera.

É mais uma vez primavera
E o lilás, ainda enfeita a memória das últimas orquídeas...
Dos últimos sorrisos, os sons dos florais... Segredos nossos...
Sussurram na espreita do amanhecer cheio de sóis...

Giram Sóis - em sonhos - dourando as tarde e os seus fins...
A natureza espera pela aurora que virá,
Trazendo o perfume de cada sonho e o sal de cada dor sentida.
...E o oceano será sempre nosso amar...

O primeiro dia será sempre o impulso vital para as novas floradas,
As incertezas e o tempo; uma busca infinita do real...
E entre o mar e seus tons verde e turquesa, uma única certeza:
Sépia, nunca será a cor da primavera nossa.

(Ednar Andrade).

sábado, 1 de setembro de 2012

Homenagem póstuma

Adeus sem despedida



(Francisco Balbino da Costa: 1926 - 31.082012).

Não foi o Sol que te assistiu quente;
Foi a Lua que se despediu de ti
E te entregou de volta à mãe natureza.
Naquela tarde tua garganta não cantou,
Tua boca não sorriu,
Tuas mãos não acenaram,
Não respondestes ao adeus.
Naquela tarde eu voltei só
E te deixei ali para nunca mais voltar.
Levastes contigo os teus segredos,
Levastes do meu coração os anseios
Todas as saudades sentidas,
Todos os desejos não realizados.
Deixastes em mim
Esta saudade sem fim
E o meu olhar se despediu de ti junto com a Lua
E do teu amor minha alma ficou nua
E por tua ausência vou sempre chorar.

(Ednar Andrade).

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Memória doce


  
Naquelas tardes frias, D. Zefinha cantarolava, enquanto passava a roupa. As tardes eram mornas, como uma colcha de algodão. Um cheiro perfumava o ar: carvão ou madeira no forno de lenha

Havia algo de mágico ou de conto de fadas naquela história real... Vindo da cozinha um cheiro de batata-doce cozido em fogão de lenha, tapioca que anunciavam a véspera de um café fresquinho. Lembro-me, a rua deserta, um chão de areia batido com nervuras deixadas pela enxurrada. E eu olhava pela janela com uma vontade quase incontida de tomar banho de chuva. Ah! Como eu sentia inveja da meninada molhada, descalça, jogando biloca ou desenhando peixe na areia já sequinha... Só brincavam meninos; isso não era coisa de menina. Enquanto as meninas brincavam de agasalhar as bonecas, pois pensávamos que, também elas, sentiam frio.

Havia uma rede no alpendre, com varandas tão longas, quase arrastando o chão. Meu pai, com costumes ciganos, nunca me deixou claro se eu precisava de outro mundo ou se bastava o aconchego do lar. De frente para o fogão, uma mesa disposta da forma mais rústica e simples, com canecas em ágata, com florais tatuados (canecas azuis, verdes e brancas), com bancos construídos da forma mais simples: madeiras e pregos, que meu pai fazia. Penso que ele aprendeu tal arte no seu ofício de pedreiro, pelas andanças nas obras e construções.  

Um cenário de inverno... Tardes cinzas. Íamos à gaveta, na aventura de encontrar algo mais quente e nada havia. Nordestino, naquele tempo, quase não sentia frio ou talvez, quem sabe, penso hoje, fosse a delicadeza na qual o contexto da minha família vivia que não nos deixava ter casacos como iguarias.  

Eu me encostava à mesa naquelas tardes de inverno para ouvir o que ela e minha mãe segredavam e eu usufruía do calor do ferro, enquanto Zefinha borrifava água e uma gosma fina sobre as peças que passava... Uma mistura de goma levada ao fogo e mexida, dava às peças uma textura estática, como se fosse tecido envolto em gesso. Os lençóis eram bordados por minha mãe, ao bastidor, com muito esmero, em florais azuis.

D. Zefinha passava cantarolando aquele ferro em brasa, peças e peças de linho, lenços bordados em pontos-cruz com iniciais SH, que significavam o nome do meu pai: Severino Honório. Eu não entendia porque as cuecas do meu pai mais pareciam camisolas de murim branco, tecido do qual eram compostas as cuecas dos homens e as calçolas das mulheres. Eu olhava para aquelas peças sem a certeza de que poderia fixar o meu olhar ou estava fazendo algo desaprovado pelos adultos. Na mesa de passar, as peças íntimas eram como segredos queimados e eu imaginava mil coisas.

A tarde, como um manto, ia descendo numa lentidão que, para mim, tinha algo de apocalíptico e tudo o que eu sabia é que era inverno.

Vez por outra, Zefinha largava a roupa e ia ao quintal soprar um orifício no ferro, fazendo assim com que a brasa acordasse. Meu pai acordava da sesta. Abria a boca num bocejo sonoro, tomava um café fresquinho, fazia um cigarro de palha e soltava um riso. Zefinha recolhia o cenário. Reuníamos-nos à mesa. Agora chegava a noite e um aconchego mudo juntava a família (pai, mãe e filhos) e nos levava ao salão, onde cantávamos juntos ao som de um acordeom...

Assim eram as tardes e as noites de inverno...

Penso que as famílias eram mais felizes e mais aconchegantes as noites frias.

Boa noite.......

(Ednar Andrade). 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Desejo



Arda e ferva com o fogo da minha sanha.
E, em brasa, eu fico queimando em teus beijos.
Nas lambidas doces e atrevidas, desfalece...
Recebe-me em no cálice da rosa, fenda úmida...
Em rubras loucuras quero fundir-me.
Teu corpo, gostoso que me enlouquece...
Te tomo e te sinto, parece absinto...
Te beberico e te degusto...
Ah, esse teu gosto...
Me excita em brasas e quenturas tantas...
E, nessa tortura, nos vem as torrentes de lavas indecentes.
Liberto-te em fera, a fêmea exaspera em êxtase e malícia...
Dá-me teu corpo, que se enleva em primícias.
E no mais profundo desejo:
Tornamo-nos um único corpo.
Somos etéreos...
E teus gemidos histéricos!

(Rock El Brujo).

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Canto



Deixe que o tempo
Apague as minhas
Rimas sem cérebro.

Deixe que, no silêncio
Da noite, o ruído dos besouros
Organize uma orquestra
Para acompanhar meu desalento.

Deixe que eu diga
Todas as palavras
Que já não cabem
No meu desvario.

Deixe que eu transforme
Dor em beleza.

Deixe que o vento arraste,
Para bem longe, este silêncio
Que não quer calar.

Deixe que eu diga
Ao meu travesseiro
Segredos que só ele
Pode escutar.

Que eu cante,
Como quem chora,
Para me fazer dormir,
Uma música esquecida
Que só eu posso ouvir.

Deixe que eu escute uma ave
Atrapalhada com a alvorada,
Que lá fora já canta
E o dia nem chegou.

Deixe que, na quietude
Da minha cama macia,
Eu perceba, vindo de longe,
O marulhar do mar
Que ouço agora.

Sente, fica quieto
Para que possas contar,
Uma a uma, do meu coração,
As batidas e da noite fria, o vão.

(Ednar Andrade).

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Banquete



    (Imagem de arquivo pessoal).

Na mesa, o banquete:
Um prato de chamas.
Os olhos famintos de luz
Bebem a escuridão.

É tarde e no vago da noite,
O sonho apago, queimo a ternura;
Incendeio a ilusão.

Se há brilho na prata da Lua,
Não vejo a festa pagã dos astros
Que derrama-se sobre o verde inerte.

E também, perdido
Dentro do caldeirão da noite,
Vagueiam os olhos dos bichos.

Em cintilantes cores
Os verdes olhos dos gatos
São tristes como a fagulha
Que pinta os meus.

Há uma estrada deserta e escura:
Poema feito de gemidos.
Fecho a janela dos olhos,
O sono foge e os versos são negros
Como os mistérios da noite.

O frio, vezes, chega.
Encolho-me, aqueço-me,
A madrugada aproxima-se,
Ela é desconhecida
Como um estranho;
Nada me traz de alento.

Das mãos cálidas
Transbordam gestos vazios
E a chama arde como uma louca
Inquietante dança que assisto
Com os olhos fechados.

Uma estranha calma...
O desassossego repousa
Na dança da folhagem...

(Ednar Andrade).

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Clareira




Entre o meu,
O teu e os teus tus,
Abriu-se uma clareira.
Clareira, deserto, abismo
De sentimentos.
Deserto sem código,
Sem direção, sem rumo.
Deserto.
Silêncios, lacunas...
Sem sentidos certos.
Um vazio invadiu a calma;
Rasgou as almas, fez-se deserto.
Meu coração sangrando,
Morrendo assim, pulsa, apenas.
Não entendo. Sei que não mereço
Tanto vago silêncio. Penso:
De que é feita a dor?
Para onde fugiu o amor?
Se tudo foi sempre tão certo.
Clareira.
Meu coração gritando
Neste deserto não entende
O que foi feito de tudo
Que era tão lindo,
Que era tão n0sso.
Sem calma, no canto
Da parede da minha dor
Encontro-me encolhida,
Assustada, retraída,
Sem tempo, tímida.
Não sei se fui ou quem sou.
Clareira.
Na noite, abandono do ser.
Investigo a trilha que nos desviou.
Não sei mais quem és, mas sei quem sou:
Mãe, amiga, aquela que tanto ama
E sempre amou. Silêncio não é som.
Quando grito, mas ninguém escuta.
Clareira.
Assim me encontro.
Neste deserto estéril, vazio, sem flor,
Areia é como água, garganta seca,
Mãos erguidas, olhar perdido...
O que foi feito da vida?
Do amor? Ai... Não sei mais,
Não sei mais...
Para onde foi a alegria? Os sonhos?
A incerteza mora em meu peito.
Solidão; flor azul que me acompanha
Quando penso no verde que plantei
E não brotou flor.
Clareira é o que me resta.
Silêncio, esquecimento.
Distribuí flores; nasceram espinhos.
Clareira, deserto: meu único ninho.

(Ednar Andrade).

sábado, 9 de junho de 2012

Viver



E o que é a vida,
Senão sonhar até que a luz apague?
Porque com os fios dos meus cabelos brancos,
Costuro a realidade...

E faço deles, linha de prata para bordar o tempo
... E, no espelho, olho-me sem espanto,
Vou cosendo a vida, as alegrias,
Pincelando de prata os fios dos desencantos.

 ...E o que é o tempo,
Senão o calendário que não trai?
Os dias passam em brancas sombras,
Em morno leito de tantas saudades.

E o que é viver,
Se não houver no peito a infinita incerteza do que há?
O homem não borda, nem tece, nem pinta o que serve para amar.
E o que há é a certeza do que não há.

Ai... O que é o homem,
Este ser tão vago, esta permanente interrogação,
Este anjo ou monstro,
Dragão soltando pelas narinas, ácido e fumaça?!

(Ednar Andrade).