segunda-feira, 10 de março de 2014

Água viva


No dia em que decretastes em mim tua morte, chorei, chorei dizendo ao meu sorriso que estavas mentindo-me.

Chorei, lavei o rosto com lágrimas e lambi delas o sal, depois pus-me a olhar para minha alma no espelho do quarto da minha inútil e dilacerada aquarela e lá estavas cego  e sem cor dentro do meu olhar.

Perdeste o brilho que o meu ofuscava, perdeste dentro da minha retina aquele tom azul que sempre nos guiava. E agora as lembranças tão doces eram como algas luzentes, salgadas, como água viva, queimava-me e minha pele arranhada, toda marcada, ardia e não  não mais te queria, e eu não sei o nome que dar àquele instante, àquele sentimento no qual me afogavas.

Epitáfios, vários, me socorreram, cada um mais real e forte, cada um menos belo diante desta sorte.

Assim, fingimos ser parente de cada morte.

(.............)

Corri até o chuveiro, tomei um demorado banho, como que querendo lavar do cérebro teu único e real beijo. É que ele ardia em minha boca como um torpe sobejo de veneno, me fazia muito mal tocar a boca e sentir nela o resíduo do aroma que deixaste ficar. 

Na tarde morna em que fiz tua vontade suicida, não via mais em nada, nem em ninguém, motivo para seguir.

Mesmo assim, estraçalhada pela dor que tua morte trouxe, saí do banho, deitei-me muda e nua no gelado chão, já sem um sequer soluço, levava na mão fechada um batom vermelho, aquele que usava só para te encantar, aquele que fazia minha boca ser a rosa que tanto querias beijar.

Virei de lado e sem carecer de olhar-me, desenhei nos lábios um falso sorriso, um destes que só um palhaço melhor faria. Sequei o pranto, pintei os olhos como se fosse noite de festa, encolhi-me como aquele caracol que vomitei, trazia teatro nas palavras, gemia e enfim nos suicidamos.

Desespero e silêncio, usamos como flores. Lembrei-me das orquídeas de um certo setembro, lembrei da felicidade de havê-las tido um dia, como símbolo do que chamei de amor.

Durante algum tempo, não sei quanto, estive convulsa, estática e murmurei teu nome, como quem se vinga e assim rezei:

*Que eu viva para sempre a morte deste amor.* 
(Dolores Duran).

Ergui-me, dei alguns passos, tonta, sem saber a direção que tomariam meus sonhos, e do lado de dentro do meu peito rasgado, saiu um grito que ninguém mais pode ouvir.

Doei tudo teu que ficaria em mim. Das tuas juras, fiz versos de mentiras; dos teus sorrisos só um guardei para mim, aquele que não me foi doado que destes ao vento, mas eu o roubei, este está comigo, foi este teu sorriso que me fez sorrir.

Hoje ao olhar-te, vejo que havias morrido e jazias dentro de ti mesmo.

Aquele pedido não fora tua hora de morrer, pois quem mata os sonhos, mata o amor, mata a liberdade, és apenas um fantasma que brinca de viver.

(Ednar Andrade).


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Decreto


Podes ir,
Bata a porta,
Não olhes para trás
E se puderes sigas,
Mas não esqueça
De arrancar teu coração
Por que ele te trai,
Tão falso quanto Judas,
Beija e causa morte.
Limpa a boca, cospe
E descospe o que vomitastes,
Depois nas horas de dor
Busques no esgoto, na vala onde tiver
Escorrido o teu vômito e coma-o,
Como se fosse bálsamo,
Como se fosse vida,
Pois por teu próprio decreto
Morrestes ao decretar-me morte.


(Ednar Andrade).

Nirvana


Piso descalça
Nas feridas
Para não machucá-las,
Pus band-aid nos extremos,
Anestesia no calendário.
Então, como quem nirvana,
Passeio sobre as chagas,
Sem deixá-las doer
E dos gemidos fiz um mantra
Que me encanta cantar
Ao desencanto disse: até;
À felicidade: quem sabe?;
À dor: nunca mais.
Não tenho tempo para ser chaga
E, como quem amanhece,
Apenas o Sol é luz.


(Ednar Andrade).

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Poesia de hoje


Silêncio,a poesia está orando,
...Gemendo,clamando,vivendo.
Declamando....
Chovendo!!!!!
!!!!!!!!
!!!!!
!!!
!!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

(Ednar Andrade).

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Presa*


Tanto mar,tanto mar.
As vezes,morres-me;
Outras dás-me sal,
Dás-me, flutuo.

Algumas,desamar.
Vida, espuma ,faz-se.

(...) Arpão,anzol,presa,caça
 Tanto mar,tanto amar
As vezes,curas-me;
Outras,matas.

(Ednar Andrade).



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Quietude



As cores,
O verde,
As flores do chão,
As portas entreabertas
Que parecem me olhar.
A quietude de tudo,
A canção do vento, ouço.
O pó nas paredes,
Os pássaros, o ninho,
Agora é hora
De ir e ficar
No balanço das redes,
O sonho sonhado
De quem, nelas, dormiu.
Os cajus contam poemas e histórias.
Olho o sossego;
Ele me olha.
O mensageiro dos ventos
Dirige uma orquestra,
Homenageando o silêncio.
Aqui, quem chega, quer ficar;
Quem parte, quer voltar.
Minha casa branquinha
Com portas verdes
Cheias de esperanças.
Ilhota, janelas e portas
Por onde entra o Sol.

(Ednar Andrade).


sábado, 30 de novembro de 2013

Nada mais


...Espreitava o sol, calava a lua. 
Tão silenciosos quanto as pedras. 
O riso e falas daqueles corações. 
Era manhã. 

E nada mais podia ser tão belo* 
Nem tão morno, 
Tão sublime, 
Era aquilo, 
Era único. 

Deles.

(Ednar Andrade).


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Das flores*


Os homens homenageiam seus mortos, quando deveriam silenciar, pois, toda ausência é silenciosa.

Doam flores e dizem rezas, explanam ao vento inúteis lamentos. Não é descaso, nem descrença, tampouco invasão à dor alheia.

Todos os anos, pintam cemitérios, tumbas, ornam lápides, lustram quase a espelho uma casa onde ninguém mora: o túmulo.

Acredito nas flores e na alegria e nos sorrisos que os já mortos poderiam ter gozado. Precisaria ser “dia de finados” para doar flores, doar poesia, demonstrar sentimentos? Onde mora a saudade, longe deste dia no calendário? São perguntas que não calam. Dia de todos os santos, a morte causa santidade? Desperta amor?

Quantas vezes está ali ao lado a pessoa que hoje te faz chorar e jamais moveste os braços na direção de um abraço, jamais olhastes nos olhos para doar um pequeno gesto de gratidão, um elogio, uma carícia, apenas.

A vida é hoje, repito, repetirei tantas vezes quantas forem necessárias.

A vida é hoje. Não espere ver alguém sem vida, não espere ter saudade para doar gestos, sentimentos, amor, para quem já não pode receber.

(Ednar Andrade).



sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Implícito


Abraço,
O poema
Que diz tudo
Que a boca
Nem... Pensou


(Ednar Andrade).

domingo, 13 de outubro de 2013

Homem


Germina.
Alheio
nasce,
Floresce,
vive,
cresce
Então

morre.

(Ednar Andrade).