domingo, 21 de dezembro de 2014

É natal!



Então, não é que seja Natal. 

Você teve 365 dias para desejar o bem, ser feliz, fazer feliz também... amar, dizer que ama, dar presentes, distribuir sorrisos... Louvar ao Criador, agradecer a benção de Jesus ser o Senhor. 

Mas só em dezembro você resolve dizer tudo isto? O aniversariante, este não é aplaudido? O que mais importa é o valor do seu vestido? 

Por isso e por tudo isso, para mim o ano todo é Natal.

Ame a todos o ano inteiro, deseje o bem a qualquer um.

Façamos assim: a felicidade, o bem querer, a bondade, o amor, não apenas em dezembro deve nascer. E sem mais, declaro que ele veio para mim e para você. Então, é Natal? O que é o Natal? A ceia? O cartão de crédito? A mesa farta? A roupa nova? 

O Natal poderia ser...

... Não direi, diga você! Por que para mim, o ano inteiro, a vida é o renascer. 


(Ednar Andrade).

Jesus, Maria e José

Nasceu então o menino
Entre o simples e os seus
Nasceu então o amor
O mundo não entendeu
Brilhou uma estrela tão bela…
Jesus, Maria e José
Olhavam para o pequenino
Que do amor fez-se Rei
.. Dos pobres e dos sem destino
Da paz,de ninguém e de todos
Filosofo,poeta ,meu e teu.
Do crente e do ateu.
Jesus de Maria nasceu
É Natal….. É Natal !!!!
Que o mundo diga amém !!
Que a paz vença a guerra,
Nasceu o menino, nasceu.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Frio Azul



A tarde posta
No deserto frio e azul do lago.
Na caneca de chá mate,
A fumaça em espiral.
Desenhando
A última cena de inverno,
Os dedos sobre o teclado
Diziam textos como em prece.
Pássaros no céu batendo asas
Como num coral.
O olhar perdido no verde.
Hoje a tarde fez-se longe.


(Ednar Andrade).

sábado, 10 de maio de 2014

Eu e ela


Eu e ela


Amor e bordados*



Minha mãe bordava ao bastidor, lençóis da nossa casa, bordava florais azuis, tão lindos.....

Com pássaros e borboletas, bordava um mundo, enchia, de sonhos e cores, a nossa casinha tão simples e tão esmerada por ela.

À noite, depois de todos os cansaços, abria a porta da frente, olhava para mim e sorria; nas mãos, uma caixa com linhas, agulhas e poesias, para nós, ela tecia contente.

Havia na sala grande, e quase vazia, uma rede sempre armada e poltronas azuis de veludo, bordadas... Era ali onde ela escrevia, com linhas, as cores que nos enfeitava.

...E se deleitava distraída ouvindo valsas. Ao seu lado havia sempre uma magra menina com cabelos longos e pretos, com duas longas e mal feitas tranças: eu as fazia como quem bordava -o rosto- Não sabia de mim, apenas existia e era feliz.

Ela gostava de bordar os panos da casa, era muito linda e ainda é.

Mas naquelas noites, naquelas tarde de frescas e variadas linhas e cores, enquanto eu ficava sentada olhando, querendo aprender, às vezes eu dançava, dançava, ficava tonta e adormecia .Rs....

Minha mãe não era mulher prendada na cozinha, isto era trabalho para Zefinha.

Era minha mãe aquela mulher magra e forte, que durante toda a sua vida acordou cedo e, a pé, ia trabalhar.

Mãe de cinco filhos, séria, mas risonha, tinha segredos no olhar, tinha um poema no peito e a vida para ninar.

Em outras noites, quando chovia e tínhamos medo do trovão, ela ao nos ver assim, esticava-se numa  rede e punha-se a nos embalar, cantarolando rezas, cantigas para aquietar, dormir e sonhar.

Tinha alma de anjo, candura de santa e mãos pálidas, com ela cresci sabendo que sem amor e perdão a vida não é vida, não.

(Ednar Andrade).





segunda-feira, 31 de março de 2014

Nada é igual


Aquilo fazia parte natural de um cenário vivo.

Cada centímetro de memória brota ainda nos finais de tarde, como um azulejo, na parede do quintal, os minutos espreitam a hora mais suave da Ave Maria*


O Sol parecia nos convidar para uma festa, acompanhados pela passarada, ouviam-se todos os cantos.


Do bem-te-vi ao rouxinol, uma festa ardia, numa melódica canção de pi, pi, pis… Uma algazarra rotineira, por toda parte. Aguardo a noite, que logo virá como nos romances entre folhas secas e florais em sépia.


Sentados como parte da paisagem, olhando em volta os pequenos ruídos e murmúrios das águas da lagoa, observávamos a natureza sabiamente pintando o céu em tons de azul e vermelho, tingindo de outonais cores e brilhos, o anoitecer.

…………….

Respiro, sentindo na boca um sabor delicioso de pitangas maduras. As cercas são feitas de avelós, não existem portas, nem trancas em nenhuma parte.


Tudo é tão simples, tudo tão sereno, a mata vai silenciando e trazendo, no vento, um cheiro doce das mangabas caídas entre as folhas cor de sonho (sépia) por toda parte, e um prolongado canto de cigarras a ciciarem, elegem o canto da última sabiá buscando no ninho, o aconchego dos filhotes.


Agora a calmaria quase me mata e morre em meu silêncio, sou como uma prece que faço sem dizer palavra, apenas com o olhar quase em mantra, me aquieto também.


Não fico triste, mas a estes momentos, guardo um sentir tão profundo, um respeito de quem vê a mãe no abraço do anoitecer. E penso com um sorriso de felicidade em tudo que permanece como está, mesmo quando não estou por cá.


Puxo uma cadeira e sento-me, agora estou no meu abandonado jardim. As flores andam desbotadas e tão frágeis, como quem sente falta dos olhares que as faz serem belas. O jasmineiro morreu, as orquídeas resistentes aguardam uma nova primavera.

Uma taça de vinho, quem sabe outra…


A natureza desnuda com desvelo e graça as fruteiras do quintal e um cheiro de folhas molhadas, pela última chuva, anuncia um novo outono; tudo é como antes e nada é igual.


Olhei, buscando algumas imagens, como quem garimpa uma pepita de saudade. Ela está em toda parte, onde todos os detalhes estão postos como num cenário projetado para sonhar.

(Ednar Andrade).

segunda-feira, 10 de março de 2014

Água viva


No dia em que decretastes em mim tua morte, chorei, chorei dizendo ao meu sorriso que estavas mentindo-me.

Chorei, lavei o rosto com lágrimas e lambi delas o sal, depois pus-me a olhar para minha alma no espelho do quarto da minha inútil e dilacerada aquarela e lá estavas cego  e sem cor dentro do meu olhar.

Perdeste o brilho que o meu ofuscava, perdeste dentro da minha retina aquele tom azul que sempre nos guiava. E agora as lembranças tão doces eram como algas luzentes, salgadas, como água viva, queimava-me e minha pele arranhada, toda marcada, ardia e não  não mais te queria, e eu não sei o nome que dar àquele instante, àquele sentimento no qual me afogavas.

Epitáfios, vários, me socorreram, cada um mais real e forte, cada um menos belo diante desta sorte.

Assim, fingimos ser parente de cada morte.

(.............)

Corri até o chuveiro, tomei um demorado banho, como que querendo lavar do cérebro teu único e real beijo. É que ele ardia em minha boca como um torpe sobejo de veneno, me fazia muito mal tocar a boca e sentir nela o resíduo do aroma que deixaste ficar. 

Na tarde morna em que fiz tua vontade suicida, não via mais em nada, nem em ninguém, motivo para seguir.

Mesmo assim, estraçalhada pela dor que tua morte trouxe, saí do banho, deitei-me muda e nua no gelado chão, já sem um sequer soluço, levava na mão fechada um batom vermelho, aquele que usava só para te encantar, aquele que fazia minha boca ser a rosa que tanto querias beijar.

Virei de lado e sem carecer de olhar-me, desenhei nos lábios um falso sorriso, um destes que só um palhaço melhor faria. Sequei o pranto, pintei os olhos como se fosse noite de festa, encolhi-me como aquele caracol que vomitei, trazia teatro nas palavras, gemia e enfim nos suicidamos.

Desespero e silêncio, usamos como flores. Lembrei-me das orquídeas de um certo setembro, lembrei da felicidade de havê-las tido um dia, como símbolo do que chamei de amor.

Durante algum tempo, não sei quanto, estive convulsa, estática e murmurei teu nome, como quem se vinga e assim rezei:

*Que eu viva para sempre a morte deste amor.* 
(Dolores Duran).

Ergui-me, dei alguns passos, tonta, sem saber a direção que tomariam meus sonhos, e do lado de dentro do meu peito rasgado, saiu um grito que ninguém mais pode ouvir.

Doei tudo teu que ficaria em mim. Das tuas juras, fiz versos de mentiras; dos teus sorrisos só um guardei para mim, aquele que não me foi doado que destes ao vento, mas eu o roubei, este está comigo, foi este teu sorriso que me fez sorrir.

Hoje ao olhar-te, vejo que havias morrido e jazias dentro de ti mesmo.

Aquele pedido não fora tua hora de morrer, pois quem mata os sonhos, mata o amor, mata a liberdade, és apenas um fantasma que brinca de viver.

(Ednar Andrade).


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Decreto


Podes ir,
Bata a porta,
Não olhes para trás
E se puderes sigas,
Mas não esqueça
De arrancar teu coração
Por que ele te trai,
Tão falso quanto Judas,
Beija e causa morte.
Limpa a boca, cospe
E descospe o que vomitastes,
Depois nas horas de dor
Busques no esgoto, na vala onde tiver
Escorrido o teu vômito e coma-o,
Como se fosse bálsamo,
Como se fosse vida,
Pois por teu próprio decreto
Morrestes ao decretar-me morte.


(Ednar Andrade).

Nirvana


Piso descalça
Nas feridas
Para não machucá-las,
Pus band-aid nos extremos,
Anestesia no calendário.
Então, como quem nirvana,
Passeio sobre as chagas,
Sem deixá-las doer
E dos gemidos fiz um mantra
Que me encanta cantar
Ao desencanto disse: até;
À felicidade: quem sabe?;
À dor: nunca mais.
Não tenho tempo para ser chaga
E, como quem amanhece,
Apenas o Sol é luz.


(Ednar Andrade).

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Poesia de hoje


Silêncio,a poesia está orando,
...Gemendo,clamando,vivendo.
Declamando....
Chovendo!!!!!
!!!!!!!!
!!!!!
!!!
!!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

(Ednar Andrade).

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Presa*


Tanto mar,tanto mar.
As vezes,morres-me;
Outras dás-me sal,
Dás-me, flutuo.

Algumas,desamar.
Vida, espuma ,faz-se.

(...) Arpão,anzol,presa,caça
 Tanto mar,tanto amar
As vezes,curas-me;
Outras,matas.

(Ednar Andrade).



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Quietude



As cores,
O verde,
As flores do chão,
As portas entreabertas
Que parecem me olhar.
A quietude de tudo,
A canção do vento, ouço.
O pó nas paredes,
Os pássaros, o ninho,
Agora é hora
De ir e ficar
No balanço das redes,
O sonho sonhado
De quem, nelas, dormiu.
Os cajus contam poemas e histórias.
Olho o sossego;
Ele me olha.
O mensageiro dos ventos
Dirige uma orquestra,
Homenageando o silêncio.
Aqui, quem chega, quer ficar;
Quem parte, quer voltar.
Minha casa branquinha
Com portas verdes
Cheias de esperanças.
Ilhota, janelas e portas
Por onde entra o Sol.

(Ednar Andrade).